Como começar meu próprio quadro? como terminar meu próprio quadro? como não parar de pintar meu próprio quadro? Minha obra de arte, meu quadro, minha poesia em tinta, ela é, bem, como dizer isso sem parecer melancólico? não tem.Essa obra é feita de sangue, cicatrizes, lagrimas, desilusões, medo, espanto, basicamente, colocando em uma palavra, uma unica palavra para descrever a grandeza da tintura oferecida ao quadro, como se ele tivesse vida, e não se engane, por favor, não faça isso, ele tem.A unica palavra para descrever tais tintas amargamente salgadas seria trauma, minha obra de arte, meu grande espetáculo teatral foi todo feito de traumas, o quadro? o que definiria ele? acredito eu que você deva estar se perguntando, bem, para a sua e minha sorte, acabei de descobrir, meu corpo, minha mente, minha alma, meu ser. Cada trauma deixa uma cicatriz, cada cicatriz faz parte dessa obra prima fantástica, eu não poderia jogar fora ou eliminar nenhuma das tintas, nenhuma das pinceladas, caso contrário o quadro estaria mais vazio, caso eu eliminasse á todas as pinceladas, todos os traumas e cicatrizes, os escondesse e/ou os jogasse fora, o quadro estaria em branco, uma perfeita obra falida, vazia, vagante por entre os murais pouco visitados, pouco apreciados, pouco lembrados, se eu o fizesse, essa obra acabaria vagando até encontrar o seu fatídico fim, seria descartada no lixo, e eu, bem, eu jamais poderia desafiar o destino do acaso dessa maneira, jamais jogaria a sorte da roleta russa as cegas dentro do meu próprio labirinto, dentro do emaranhado de fibras que minuciosamente se apertam formando o labirinto que forma o quadro.Meu quadro, minha arte, também é um quebra cabeças, que irônico não acha, ter que quebrar a própria mente para poder a reconstruir, ter que formar do caos a perfeita harmonia à ser deslumbrada, criamos o caos para poder criar a gloria, a verdadeira fênix está descrita aqui nesse texto, pode você ver o quão lúdica e vislumbrante é esse texto? quase como um manual, ao qual, eu presenteio você, parado aqui nas linhas desse texto deslumbrando um senso de emoções até hoje incompreendidas.Cada parte do meu quadro é uma parte importante, nada deverá ser descartado, foque-se em um exercício mental, imagine um relógio sem o braço, pode o ver? esse relógio é inútil, sem vida, um vagante, pense em um violão sem algumas de suas cordas, consegue o escutar? ele não faz o harmonioso som que todos estamos acostumados a ouvir, uma arpa sem seu musico à entoar a sua suave melodia não serve para nada, um quadro sem suas pinceladas se torna apenas um labirinto, um quadro ao qual o autor desistiu de pintar, ao qual o autor desistiu de encontrar a fuga do labirinto quando estava prestes a encontrar sua saída, é, sempre foi e sempre será, uma prisão, uma prisão sem grades, porem com muros altos, aos quais jamais tiveram a honra de receber uma unica gota de tinta, ou até tiveram, mas ficou inacabado, abandonado, solitário, apenas ouvindo o amargo silencio do artista já morto. Quando estamos criando a obra a mente flutua, como se tivesse sido descarregada uma droga diretamente no cérebro, uma droga parecida com o amor, amor pela obra, amor pelo caos ao qual criou-se a harmonia, amor por permitir-se escapar do labirinto, de não deixar aqueles fúnebres muros, mortos, apagados, amor por encontrar a saída e poder finalmente vislumbrar a obra completa.Meu lado poético vem para que eu descubra o que eu não conseguia ver antes, o que eu não conseguia aceitar por entre as linhas do sagrado destino do acaso, o qual eu mesmo criei, meu lado poético vem para me mostrar minhas metáforas, que nem eu as entendo de começo, mas basta eu as ler para eu entender que as metáforas que ele cria me ajuda a ver as coisas com mais clareza, me ajuda a vislumbrar o que eu nunca pudera vislumbrar à entender o que estava tão preso à minha frente, como um mistério indecifrável, que nos encanta tanto, tanto a ponto de não percebermos que esse encanto é o que venda nossos olhos, temos que desfocar do encanto e começar a pincelar, dar forma ao quadro. Finalizarei esse texto recitando uma de minhas metáforas criadas pelo meu lado poético, ao qual diz que a linha tênue da sanidade precisa ser cortada, linha o qual se assemelha como teia de aranha, grudenta, fina, quase invisível, apenas denunciada pelos insetos que ali padecem lentamente, essa linha deve ser cortada pela faca da loucura, faca firme, bruta, um pouco enferrujada pelas lagrimas salgadas de tamanho tormento que ali passou, após o corte, podemos finalmente ver o que está dentro dessa tênue linha, conseguiremos separar o que é gordura, o que é cola e o que são insetos que se apegaram à essa gordura fascinante.Como uma amiga disse para mim “é incrível como as coisas tornam-se claras nesses momentos tão raros, se tornam tão fracas e tão fortes ao mesmo tempo”.Pois vou lhes contar minha interpretação de tal frase, vejo a fraqueza como sendo a linha gordurenta, a força inestimável como sendo a faca enferrujada, vejo claramente a clareza vindo do fatídico corte bruto causado pelo encontro da faca com a linha quase invisível, agora, sabe de onde vejo a raridade? bem, vejo ela ao permitir-se o corte, permitir-se à transformação, permitir-se seguir o desejo de observar essa obra teatral ao entoar essa canção surreal.