É bizarro o quanto a visão do que você quer pra sua vida muda drasticamente com o passar do anos e o ambiente a sua volta. Me lembro de quando era garota no Rio, onde as viagens mais emocionantes eram ou pra serra ou pro litoral, sempre com todo mundo e muita organização financeira pra bancar as cervejas da vovó e os salgadinhos meu e da mamãe. Eu só esperava acabar as aulas pra poder saber se ia usar casaco pra brincar com os grilos na grama da casa ou ia usar vários biquínis da barbie e da polly de chernobil, com a saturação estourando no design.
Só que tudo muda quando eu pego um avião gigantesco da aeronáutica pra visitar minha próxima cidade. Manaus, um clima tão parecido com o Rio mas uma paisagem tão diferente. Árvores na rua é comum nas duas, mas o diferente são as cachoeiras que me levaram, os animais que eu via tão de pertinho quando chegava nos banhos de igarapé, com a água que não mostra nem minha palma se eu mergulhar um pouquinho mas adorava porque me fazia sentir como se tivesse mergulhando em chocolate. Aqui ja era tudo outros 500, pela frequência que eu pegava um monomotor de 3 em 3 meses pra visitar meu pai em São Gabriel da Cachoeira, e pelos dezembros que sempre eram no Rio. Ser criada em uma cidade que crescia a cada segundo foi uma experiência que, depois de crescida, posso dizer ser mil vezes melhor do que em uma onde nada de demais me surpreenderia. Poder acompanhar a obra de uma avenida gigantes como a das Torres me fazia sempre lembrar do quão parecida era com as que via em filmes que gostava muito. Se essa menina atravessa de um estado pra outro só de carro e numa rua como essa, por que eu não posso também?
Assim nascia meu desejo de Estados Unidos. Tudo acontecia em Nova Iorque. Mas também em Los Angeles. Mas também em Seattle. Mas também em San Francisco. O quão duro eu vou ter que ralar pra conseguir pedir um visto pra minha mãe? Sendo que nem os tipos de vistos eu sabia que teria que escolher usar. O negócio era que a Hannah Montana me esperava lá, junto dos Jonas Brothers e da Demi Lovato, que com certeza estaria com sua melhor amiga Selena Gomez do lado. Aqueles cafés na rua que eles todos eram fotografados e apareciam na Capricho estavam me esperando. Eu ia chegar la de qualquer jeito pra conhecer e pedir uma foto de um por um. E pediria em português, claro, já que eles falavam assim na tv, não iam se fazer de desentendidos.
O que eu não contava era com não só estadunidenses me chamando pra visitar seu país de origem, mas sim os ingleses e o irlandês que cantavam dia e noite no pé do meu ouvido. Os homens que eu dormia e acordava falando que ia casar, eram pessoas que poderiam me prender por saber tanto de cada passo de suas vidas. As disputas veladas que ganhei por saber o horário de nascimento e o hospital em que Tricia Malik deu a luz a Zain Javadd Malik nunca serão esquecidas, pois foram treinadas no meu quarto por dias. Assim como minha conversa nos bastidores do show que minha parede por anos escutou, tudo isso resultou na Maria Luiza de 20 anos hoje que consegue ver uma entrevista do Louis, que além de quase morrer pra falar a bottle of water com o sotaque de interior da Inglaterra, ainda parece uma metralhadora de tão rápido que solta as palavras.
Traduzir frase por frase todas as noites pra poder comentar no dia seguinte com as amigas, me fazia ter mais interesse pela língua e em me educar cada vez mais rápido, porque assistir o tapete vermelho do Oscar num domingo junto da minha mãe e entender uma frase solta que nossa atriz favorita falou é sensacional demais. A sensação de que você poderia estar lá junto dos repórteres e ia poder dizer "Nossa, você viu o que a Anne Hathaway acabou de dizer? Hahaha, muito palhaça, né?" é deliciosa demais pra ser deixada de lado.
Quando me formei na escola, não tinha como não ter certo medo da escolha que tomei pra chegar onde queria. O jornalismo era meu leque mais certeiro de opções que eu poderia agarrar e viajar o mundo e conhecer quem eu desejava. Até mesmo pois minha relação com a comunicação sempre foi muito próxima, por ser desinibida e raramente manter minha boca fechada. Seja pro que eu penso ética ou informalmente. Minha família foi afiada no quesito Pode Falar Minha Filha e em me perguntar o que eu achei de tudo (como se fosse preciso né minha filha). Porém, tudo o que não se espera de uma faculdade, foi tudo o que eu recebi quando cheguei na minha. Ilusão besta lembrar que minha escola dizia ser a que mais prepara os alunos pro mundo e eu acreditava piamente. Só no meu primeiro trabalho em grupo eu já quase tive um AVC de tanto estresse. Mas tudo bem, depois de encontrar as pessoas certas pra fazer amizade e as atividades passadas, nada mais nos abalava e é sempre divertido.
Agora chego no ponto x do meu devaneio. Minhas vontades de conhecer os lugares por ai afora são mais centradas. Ver os vídeos de jornalistas que começaram ou fazeram parte de projetos que incluíam visitar locações distantes de civilizações, ou antigas construções majestosas que até hoje estão firme e forte como fonte de conhecimento do nosso passado, ou ilhas paradisíacas que recebem milhões de turistas todos os anos e sofrem de fenômenos naturais em todos eles sem ajuda internacional por puro desleixo das organizações mundiais. É tão fascinante dar voz para pessoas que são sempre vistas porém esquecidas, vivendo em condições totalmente diferentes do que aparentam ter. Meu objetivo é só poder fazer com que algo mude em relação ao que o ser humano começou a estragar, mas ainda tem como recuperar se feito mais rápido. Com isso em mente, eu me toquei que os artistas que tanto admirava quando adolescente, são ativos em causas que defendo, são presentes em movimentos que participo e doam sua voz e seu dinheiro para quem merece. Nada me faria mais feliz do que ver um show de um cantor que admirei minha vida toda e no dia seguinte acordar pra fazer um trabalho consciente de que ele estará la também. Isso é tão possível que as vezes me assusta se realmente acontecer. Ao mesmo tempo que seria possível eu esbarrar com alguém do elenco da minha série favorita num castelo antigo da Escócia, ou com o diretor de um filme que adoro num templo grego, ou com o roteirista que estudei na faculdade e comecei a acompanhar num tapete vermelho em Nove Iorque, enquanto eu estaria cobrindo o evento. Meu deus, só de pensar me arrepio toda.