eu tenho convivido com a minha ansiedade e depressão há anos. tenho sorrido, mentido, ocultado todos os outros detalhes para as outras pessoas. tenho tentado salvar as vidas dos animais que sofrem lá fora com a maldade humana, o abandono, a fome, mas e a minha?

eu nunca tentei verdadeiramente me salvar

eu fiquei no barco observando enquanto ele decaía, sofria rombos e problemas técnicos com o tempo e as chuvas

eu fiquei nesse barco até ele afundar

eu observei tudo lentamente

todas as situações ruins, todas as vezes em que deixei prevalecer o silêncio porque nunca fui capaz de me impor como deveria quando o assunto era eu, a minha vida.

eu quase me afoguei

e quando entrei naquela água gelada, eu lembrei de você

lembrei de você, que é tão importante, tão digno, tão amado por mim. e aí eu nadei até a superfície e bati rapidamente as minhas pernas porque eu precisava ficar por você

porque eu precisava viver por você

porque eu estar ao seu lado e na sua vida deveria fazer alguma diferença. deveria, mas não fez.

e é isso, cara. eu nunca soube me amar. eu nunca soube me tocar com cuidado. eu nunca te pedi calma. eu aceitei tudo o que você me fez e me impôs, eu deixei você me permitir acreditar que éramos algo, mesmo que no fundo suspeitasse de que nós não éramos.

eu tenho medo que você tenha certeza, por isso, eu te olho pouco, porque se eu te olhasse muito, você veria demais nos meus olhos. 

não aguento mais a solidão de sábado à tarde quando eu olho pro lado da cama e só vejo meus tédios acumulados. eu não aguento mais a solidão do fim da semana em que eu olho pra dentro e vejo desesperos acumulados e vitórias mal contadas. eu quero ser amada. eu quero urgentemente ser amada. não aguento mais a solidão desses últimos anos onde eu me jogava em histórias fatiadas, onde eu me dava pra homens sem qualquer promessa, sem qualquer gota de esperança. eu não aguento mais o tanto de vezes em que eles estiveram tão perto de sentir uma coisa grande: mas nunca por mim. porque eu sou boa e especial demais pra ser amada. porque eu ocupo imensos altares, diversos templos e nenhum peito cama sofá vida. eu acordo sozinha todos os dias desejando inconscientemente ser amada. incansavelmente amada. ciclicamente amada. então eu me olho e não aguento mais. meu deus eu não aguento mais. então eu desisti de ser amada. eu realmente desisti de ser amada. de hoje em diante nunca mais.

eu penso em voltar a beber a fumar a levar meu corpo por outros caminhos toda vez que você volta pra dizer qualquer coisa que significa muito mais que palavras bobas. você é a única pessoa que consegue me ferir tanto quanto a minha mãe. e essa é a coisa mais dolorosa que eu poderia dizer a alguém. eu te suplico que me esqueça. por favor, me esqueça.