Era estranho!
Como uma pessoa tão viva pode não estar mais viva ? Como simplesmente entender e aceitar que aquela presença tão constante não permaneceria? Como retirar da sua realidade a figura de uma pessoa que, com certeza, eu continuaria esperando chegar ou pensarei com esperança quando precisasse de apoio?
Não. Não era possível entender e encarar esta realidade.
Decerto, a vida continuaria, o sol brilharia, a chuva cairia, as plantas cresceriam, porque tudo seguiria o seu curso.
Pode parecer bobagem o que vou dizer, mas era injusto com os que sofrem a perda de alguém tão amado. Não dava para acreditar que a dor que me paralisava e roubava de mim todas as minhas capacidades, não seria sentida ou respeitada por todos. Que seria um dia lindo, mesmo eu estando tão morta por dentro. Que chegaria a noite e o dia outra vez, empurrando a vida a continuar e forçando tudo e todos a seguirem em frente quando meu único desejo era parar, congelar e me perder no tempo.
O COVID havia a minha mãe por dentro. O que restou foi apenas a sua doçura, sua força e capacidade de encarar a vida e a própria morte de uma maneira calma e natural. Ela não se dobrou. Não foi vencida. Ela venceu, porque escolheu como seria.
Esta vai a minha fantasia eterna. O conto de fadas que eu levaria comigo. A ideia frágil e infantil de que minha mãe escolheu partir depois de completar a sua missão aqui na terra, que foi viver intensamente ao lado do homem que escolheu e amou, e que vivenciou os melhores momentos dos seus filhos, como tinha planejado. De que não se rendeu à doença, que não foi derrotada, que não sofreu. Que partiu com dignidade, levando o melhor da vida.
Mas o fato é que nunca descobriríamos a verdade.

