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@futuristicsaladlightnerd

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Era estranho!

Como uma pessoa tão viva pode não estar mais viva ? Como simplesmente entender e aceitar que aquela presença tão constante não permaneceria? Como retirar da sua realidade a figura de uma pessoa que, com certeza, eu continuaria esperando chegar ou pensarei com esperança quando precisasse de apoio?

Não. Não era possível entender e encarar esta realidade.

Decerto, a vida continuaria, o sol brilharia, a chuva cairia, as plantas cresceriam, porque tudo seguiria o seu curso.

Pode parecer bobagem o que vou dizer, mas era injusto com os que sofrem a perda de alguém tão amado. Não dava para acreditar que a dor que me paralisava e roubava de mim todas as minhas capacidades, não seria sentida ou respeitada por todos. Que seria um dia lindo, mesmo eu estando tão morta por dentro. Que chegaria a noite e o dia outra vez, empurrando a vida a continuar e forçando tudo e todos a seguirem em frente quando meu único desejo era parar, congelar e me perder no tempo.

O COVID havia a minha mãe por dentro. O que restou foi apenas a sua doçura, sua força e capacidade de encarar a vida e a própria morte de uma maneira calma e natural. Ela não se dobrou. Não foi vencida. Ela venceu, porque escolheu como seria.

Esta vai a minha fantasia eterna. O conto de fadas que eu levaria comigo. A ideia frágil e infantil de que minha mãe escolheu partir depois de completar a sua missão aqui na terra, que foi viver intensamente ao lado do homem que escolheu e amou, e que vivenciou os melhores momentos dos seus filhos, como tinha planejado. De que não se rendeu à doença, que não foi derrotada, que não sofreu. Que partiu com dignidade, levando o melhor da vida.

Mas o fato é que nunca descobriríamos a verdade.

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nevalisca

Agosto de 1984, Me peguei pensando em você hoje mais cedo, e de novo estou escrevendo para você, e sabe, não me dói tanto como doía há duas semanas atrás. Aos poucos eu vou aprendendo a suprir a falta que você me faz, e me fez durante esses meses que se passaram. Confesso que aprendi a lidar melhor com a sua partida, mesmo que ainda tenha dificuldade em fazer certas coisas sozinha, coisas que eu amava fazer junto de você. Mas eu entendo que não pensar em você é uma tarefa difícil, ainda mais por tudo que senti e ainda sinto por você, e às vezes tentar não pensar em você dá certo, mas não muito. Dói, porque foi tudo de surpresa, foi tudo tão de repente. Afinal a morte não é algo que a gente espera que vá acontecer, mesmo sabendo que um dia vai acontecer, não temos como saber o dia, nem hora, nem lugar certo antes que aconteça. Eu estou tentando suprir sua ausência com atividades diferentes, saindo da minha zona de conforto, novos lugares, novas pessoas, novas experiencias. E acredito que você se orgulharia de mim, pois viva dizendo que tenho que experimentar coisas novas e toda aquela baboseira de “só se vive uma vez”. E dessa vez você estava certo, tenho que dar o braço a torcer. Agora eu entendo como a vida pode acabar em um piscar de olhos. Eu sinto muita falta de você, das nossas conversas, nas nossas discussões sem sentido, das nossas brincadeiras bobas, das suas manias idiotas, eu sinto falta do seu abraço apertado, da sua risada estranha. Eu sinto a sua falta. Queria ter você aqui pra cuidar de mim.

[Eu sinto que mesmo de longe, onde quer que você esteja, você está cuidando de mim como costumava fazer.]

Para alguém que amarei para sempre, nevalisca.

Source: nevalisca