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@flor-em-amor-blog

o meu desespero é que, quando acaba, você fica inteiro e eu fico o pó.
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Eu tenho uma dúvida que me assola todos os dias: que mundo é esse em que as pessoas sentem medo de sentir?

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Talvez eu nunca me perdoe por ter atirado em você como um caçador atira em um cervo enquanto ele olha em seus olhos. As pessoas costumam ler o buraco de quem foi machucado, mas quem aperta o gatilho também sofre. Quem sabe nem você, nem seus amigos, nem os desconhecidos que hão de cruzar com o meu flagelo e o meu pesar entendam que eu errei, mas que é isso que eu parcialmente sou. O quadro torto e o pé mal formado também são parte de mim. Que minha palavra não é bíblica, mas também condena. Talvez você nunca me perdoe por eu ter feito que sentisse amor e ódio, não na mesma proporção, mas que misturados na mesma panela, um tem o gosto do outro. Eu te daria a minha garganta, se ela não tivesse por dentro cortada pelos gritos que eu dei pra não te afastar. Eu te daria a minha traquéia, meu esôfago, se eles não tivessem engolido venenos diários que te mataram em mim. Eu não quis ouvir seu choro. Eu não quis ouvir sua súplica. Eu não quis ouvir que me amava num abril como aquele porque eu não conseguiria ir embora e ir embora era a única coisa que eu podia fazer honestamente. Eu não quis sentir a sua raiva e o seu apelo explodindo no meu ouvido porque desse lado leste do país tudo já era escória e dor. Dor porque eu te colonizei feito Portugal e parti com ouro e diamante. Mas parti também com sangue. Mas parti também com culpa. E parto todos os dias como um jesuíta que roubou a fé natural e a língua típica. Eu sei que mudei sua história e escrevi páginas com a tinta do seu suor que me pediu reiteradamente pra voltar. Eu não espero que acredite que te amei como um lobo ama um cordeiro, quando tudo o que eu parecia era um Monte Pascoal no meio dos seus dias de sol escaldante e mar. Que eu te quis como um palestino quer entrar em Israel e povoar, quando tudo que eu parecia era Brasil e Paraguai. Não há noite que eu não leia o jornal pra folhear outra tragédia maior do que conhecer alguém que pode acabar com a fronteira EUA e México no viés da gente, mas só bombear humanidade ilegal. Pode ser que nunca haja perdão pro meu pecado de abandonar um amor prematuro. Eu nunca vou me esquecer da sua bondade e da sua alegria. Eu não posso te pedir que não me reduza a nada e que se lembre de mim, mas, se um dia você lembrar, saiba que eu atirei de olhos fechados, só pra não te ver cair.

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quero te salvar do massacre cotidiano das más notícias, mas não sei como. não sei como porque não me salvo, não sei como porque dói aqui também. dói aqui esse bocado de gente que podia sentir amor, se quisesse. dói aqui esse bocado de gente que acha o ódio bonito, quando não é. doem aqui os seus preconceitos diários - inclusive os meus que ainda não fui forte o bastante pra desconstruir (mas tento). dói saber que tem um tanto de gente que eu não conheço odiando um tanto de gente que não conhece só pelo fato dessas pessoas existirem. dói saber que tem um tanto de gente que eu conheço apoiando e espalhando o ódio de um tanto de gente que elas pensam conhecer. dói e eu queria salva-los disso porque, meu deus, eu sinto tanto. e eu sinto tanto por todo mundo. só que eu não posso. eu não posso abrigar refugiados, eu não posso abraçar aquelas mães de Orlando, eu não posso carregar Beatriz no colo, eu não posso encontrar aviões, eu não posso resgatar aquelas jovens sequestradas pelo Isis ou devolver parte do corpo arrancado daquelas meninas na África e você acha que não dói? não dói principalmente não poder salvar você da falta de empatia e desse monte de opinião venenosa sem-fins-opressivos que as pessoas jogam na sua cara e riem porque você não pode levar a sério, porque o mundo tá chato demais, porque já é normal? por que eu não posso te salvar do pensamento que toda espécie de ódio-violência-desrespeito é natural? porque dói menos? porque dói menos abrir mão de doer pelos outros? eu só queria te salvar. eu só queria te amar como quase ninguém tem feito.

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— Ódio é uma palavra forte, não acha? — Amor também é, e as pessoas usam como se não significasse nada.

Peter Pan.   (via invocai)

Source: romeuemcrise