tá tudo bem.
não é nada que eu já não tenha chorado antes.
voarias

eu não me apaixonei por uma ilusão. eu me apaixonei por você. eu lembro dos shorts jeans e da camisa cinza e dos cachos alvoroçados e do sorriso e do óculos de armação preta naquele dia. “e você é o quê?” a gente riu. eu me apaixonei por você no dia que você perguntou se eu odiava a gávea e depois quando nunca mais o assunto acabou e às vezes era muito difícil dizer tchau então a gente não voltou a dizer. depois eu me desapaixonei por você porque você disse que não era recíproco e eu sabia que tudo bem porque a vida é isso: marcar de subir santa teresa e desistir porque não faz mais sentido. então eu me reapaixonei por você nos paralelepípedos da gávea em frente o ims debaixo da pior chuva do mundo e eu escrevi sobre isso e cantei dream a little dream. você dormiu aqui em casa e a gente começou a ceder. eu me apaixonei por você em ruas do chile e depois da argentina e eu tentei ir embora dessa sensação porque não fazia sentido se não fosse recíproco. e quando, enfim, foi recíproco eu me apaixonei por cada centímetro da sua pele e cabelos e unhas pintadas de preto e você nem usava mais aquela camisa cinza mas eu me apaixonei por todas as outras que você continuava usando principalmente as que deixavam ver uma fresta da sua barriga. o seu cheiro na cama e acordar com você e sorrir. eu me apaixonei por cada molécula feliz do que era estar com você, mas então não muito. eu fui me desapaixonando por como você criava situações ruins que eu não sabia desconstruir. e eu fui caindo e caindo pra dentro dos seus buracos mais escuros e todas as outras pessoas só viam a sua luz então eu pensava que era eu quem estava perdida, mas você me tirou o mapa e a lanterna e eu fechei os olhos, com medo. eu me desapaixonei por você quando você sentia o seu fracasso no meu sucesso e chorava e dizia que não era culpa minha. eu só queria te pegar pelas mão e te tirar de si, mas eu nem sequer me via. então eu me desapaixonei porque a tua pele seguia intacta e suas blusas novas e antigas e acordar do teu lado era um corpo sempre bonito e uma inteligência sempre enorme mas todas as outras coisas nocivas que eu absorvia como a água que eu bebo por hábito e necessidade de não estar só. eu me desapaixonei por você a ponto de você virar só um costume porque eu não entendia como você podia ser a mesma pessoa que eu esperei por meses. você não era uma imagem holográfica ou uma ilusão romântica que morre debaixo da luz da realidade. você esteve lá todos os dias e todas as vezes e você me tocou e eu te toquei e era verdade. eu me desapaixonei pela mesma pessoa da camisa cinza e óculos de armação preta que tomou banho de chuva na gávea comigo e pra quem eu cantei dream a little dream sempre que bateu o desespero. eu sempre tive que desconstruir ilusões, desmistificar pedestais. então eu tive que olhar naqueles olhos e não sentir mais nada e foi desesperador e triste como me desapaixonei pela única pessoa que eu não construí na minha cabeça. como se você fosse tão real, como uma luminária de realidade, talvez, e quando amanheceu, debaixo do sol, você já não fazia mais sentido.
seus olhos na vídeochamada puts eu poderia morrer nos seus olhos rodando rodando e de repente caindo - por amor - mas não pelo seu
e te ver indo embora não porque é bonito ter ver indo embora porque é o óbvio
os fins são mais sólidos que os intervalos em que nos tocamos, afoitos, febris pela paixão ainda mais quente que tudo que a gente já foi
se eu não te disser pausadamente meus medos e neuras você luta pra saber ou não importa? esse não é papo de bar. de gente que acabou de se conhecer e quer ser legal pro outro. isso é pra quando a gente já viu o outro sem roupa no claro. quando é confortável existir do lado. quando a gente sente medo, mas também sente muita vontade de fazer parte. eu não sei dizer se quis ser parte sua. eu não sei dizer se te quis parte minha. eu só queria mapear sua vontade. ela existe? a gente existe? eu digo com muita rispidez que sozinha eu faço mais sentido, só que eu não quero ficar só, ninguém quer. eu quero ser perpetuamente amada como se fosse essa a coisa mais bonita que você já teve na vida. como se quisesse viver outras milhoes de coisas mais bonitas ainda. e quisesse dividi-las comigo. porque nos amamos. e o amor é partilha. se eu não te disser como me sinto quando o homem que eu amo toca no meu ombro. se eu não te explicar que o arrepio tem níveis e formas de despertar o meu corpo, você vai esticar o dedo e tentar? você vai desejar ser o homem que amo? se a minha poesia me deixar, tu vai embora ou tu fica? tu vai querer me explicar sem ela? vai querer morar no cético e ácido? como a parede bege e sem graça do meu antigo emprego na Vargas? você vai me amar se eu não puder escrever sobre você? ou o que tu quer é o palco? o nome do texto, o pranto? tu quer os lados, não me quer no meio? tu quer os frutos e se eu estiver frita, cê não me cuida? nem sara? se eu não souber voltar pra casa, cê me leva? eu fico pensando. eu não sei até onde vai seu interesse em mim. eu não sei até quando.
ver você indo embora, eu acho, foi uma das coisas mais bonitas e tristes que me aconteceu.
te escrevo numa quinta. são quase oito da noite. hoje eu vou trabalhar até de madrugada. as dores nas costas voltaram. é estresse, eu acho. pode ser estresse. os dias têm passado rápido, mas, mesmo assim, tudo tem sido tão demorado. ontem sonhei que nos víamos. que meus olhos te encontravam naquela saída da estátua no metrô da glória. você levantava os braços, gritava meu nome, dizia “ei, yasmin, aqui” e então eu sentia como se há muito tempo não voltasse pra casa. te ver era acordar sentindo o sol de antes das dez batendo nas costas. eu quase revivi como era tomar café ao seu lado. o cheiro de amaciante do lençol trocado religiosamente toda sexta. a disposição dos móveis, o tom de verde das plantas, a cor do seu desinfetante preferido. e a memória, saltando entre pedras escorregadias num lago gelado, trouxe tudo de bom que a gente ja teve. me fez sorrir, tranquila, pela tua vinda. como se fosse possível nos limitar ao que deu certo. nós: humanos imperfeitos e desajustados. você e eu, que demos tão errado, pra ser algo bonito de novo. como um feitiço mágico. um subconsciente cansado de todas as nossas novas tragédias. me trazendo uma que já conheço: seu nome. sua existência. seu jeito.
te escrevo nessa quinta pra te pedir uma promessa, por mais que soe bobo e inútil pedir que alguém nos prometa algo. pra te pedir pra que venha logo me ver. pra que implore pra me tocar. que queira me dar café e cheiro e gosto e sol. pra que a gente seja todas aquelas coisas bonitas de novo e agora, mais sábios, consigamos não ser as ruins. porque no fim eu acho que não há mais ninguém pra dar certo comigo. porque no fim tu acha que não há mais ninguém pra dar certo contigo. como se o universo tivesse quebrado um prato na afobação de servir a vida e eu fosse um caco e você fosse outro e a gente só fizesse sentido juntos.
eu te achei sem querer não por acaso - toda coisa tem razão há outros nomes pro início além de vontade: víscera, necessidade ou fome
eu te achei sem querer todas as luzes penduradas muito antes do natal ou infinitamente depois eu realmente não sei quando
você não é a versão comercial de ou como deveria ser uma data marcada pra sentir e dizer certas coisas
você - os pisca-piscas fora de época sobre uma cidade escura - eu
Eu tenho vontade de dizer que te amo o tempo inteiro
Quero me certificar de que você sabe da minha intensidade
Se um dia eu te perder não vai ser por omissão
-eu quis dizer, mas escrevi
você sabia, quando deitei na grama em brasilia, junto do seu corpo quente e chorei, que havia em mim tristezas sem nome. um sentir subatômico que me trai toda vez que tento manter as peças no lugar. você não disse chu, vou te curar. antes ajoelhou e estendeu a mão. nós dançamos quando choveu. sei que há em você o nome de um sentir que não morre, apesar de morte. há em você o peso da vida e da ausência e eu jamais poderia curar o que te molda. antes tomei sua mão e dançamos aquelas canções que não eram sobre nós. era minha pele na sua, mas em todo o resto não estivemos juntos. eu te amei como quem ama um segredo que descobre por acidente e, sem ter a quem contar, esquece enquanto dorme. e quando acordar, chu, quando eu acordar de você-ideia, quando for embora de você-sonho, não serei nunca mais a mesma.