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@farinhasinha

Baiana sem chão, flor sem raiz.

Terça feira, 08 de agosto, 23:53

Não quero escrever uma carta, não quero dedicar a nada a ninguém.

Em várias culturas se acredita que os espíritos que se assombram uma casa ficam nos cantos das paredes, nas fendas de encontro entre uma e outra paredes, escondidos lá, as vezes acho que talvez eu seja um espírito sem saber, me encontro tentando sumir pelas frestas da casa me diminuindo, como faço agora, como se eu pudesse sumir e me desfazer dentro do concreto, da tinta, da argamassa e tijolos, desaparecer no canto, de certo modo é reconfortante me esconder no canto da parede ficar quietinha, olhando imagens no Pinterest, fingindo que sou surda, que não é comigo, me pergunto se fantasmas também se sentem desconfortáveis dentro da sua própria existência e por isso andam pelos cantos, talvez eu vivencie a experiência de ser um fantasma, e por isso fique nos cantos quando gritam comigo e minha consciência some, me torno transparent, translúcida, como se as palavras me atravessassem. Como se eu realmente não existisse ou não tivesse lá.

Me pergunto se existir é desconfortável sempre, pra todo mundo, se existir sempre é tão opressivo, amo as pessoas que me amam mas não amo ser eu para as pessoas que me amam , odeio ser uma boa filha, uma boa amiga, eu não tenho outra existência a não ser essas para essas pessoas, quem eu significo no final não importa, desde que eu sempre seja uma boa garota, " a filha legal", ela não chora, não reclama, não se chateia, não briga, não fica triste, ela fica calada e te ouve falar coisas horríveis sobre ela. Ela é grata por você não ter quebrado leis, e por tudo que você deu mesmo que isso não seja nada. Se você teve um dia cansativo ela faz o seu café, se você tem problemas no seu casamento ela nasce, se você é infeliz a culpa é dela. Ela não pode fazer sexo mas tem que ter filhos, ela não pode ser criança mas não pode ter opinião, no final do dia ela oferece um sorriso e continua a viver como se fosse só um pedaço na vida dos seus pais, uma coadjuvante. Uma boa garota.

Sexta feira, 19 de maio. 3:50.

Querido alguém, resolvi escrever essa carta a ninguém, não endereçar a nenhum morto que não tenha me amado ou alguém que foi um deslumbre.

Talvez essa carta seja pra mim mesma.

Mais uma noite sem dormir, tarde da noite, eu passei por uma situação que me recuso a contar por vergonha, mas que me trouxe as lembranças de como o afeto parece longe de mim a muito tempo, andei sozinha no meu aniversário de 19 anos , tenho andado sozinha , minhas amigas foram embora, 19 é uma idade triste, acho que já havia citado que me sinto culpada por todo as minhas feridas , cada rachadura, cada machucado aberto em cores diferentes pulsando e sangrando em variedades de vermelho, verde, roxo e carne, como se minha pele não fosse mais o suficiente pra aprisionar o meu corpo , onde cada ferida se aprofundasse se abrisse, arrancando os pontos que cuidadosamente coloquei lá, costurados um por um pra manter a integridade do meu corpo, essas feridas reabertas de forma dolorosa me faz perceber que eu me joguei aos leões, eu me botei em situações onde as pessoas me desprezavam, porque me odeio, me odeio muito , me odeio por ter nascido me odeio por ser filha do meu pai me odeio por me odiar me odeio por ter essa aversão a mim e me tratar assim, me odeio por nunca ser amada , por carregar essa sensação de soco no estômago, de sentir esse enjôo sobre mim , como se eu pudesse me vomitar de mim mesma, como se eu pudesse arranhar minha pele fina e me rasgar deixando minha alma livre , fazer um ritual grotesco de sacrifício arrancando meus ossos e jogando-os na face de deus , reduzindo meu corpo e tudo que fui um dia a nada , acabando, me massacrando, me apagando da memória. Como se eu nunca tivesse existido, tanta violência num agridoce com tamanha paz já mais imaginada.

Nunca se ninguém,

Isa

Quarta feira, 29 de março, 23:02

Querido Raif,

Você não é meu remetente médio, mas resolvi deixar meu amigo descansar em minha memória, e essa é a primeira vez que te escrevo nas minhas cartas impossíveis, uma carta que você nunca vai ler, porque você não fala português, porque imagino eu que eu não tenha passado nada além de um sonho de verão seu, o mais doce, apesar de pensar nas possibilidades, apesar de te guardar tão fundo no meu peito, que machuca, nos meus sonhos e memórias eu lembro de quando olhei para o seu rosto uma última vez, e soube que nunca mais te veria, sobre como estava tão frio que o ar que saia da sua boca condensava, se tornava turvo, e logo depois desaparecia, como eu usava seu casaco porque estava muito frio pra andar tão descoberta, era uma típica noite sul africana, e uma fina chuva molhava nossos cabelos, e mesmo assim no meio da escuridão quando não havia ninguém nós nos beijavamos, perto do parque, aquele que a gente nunca foi , eu sei que o Nassr precisava que você fosse pouco tempo depois de você me entregar em casa, na rua Adderley, mas agora eu desejo tanto que você tivesse ficado mais, que tivéssemos nos beijado mais, e uma saudade avassaladora aperta meu coração, quanto mais te escrevo em letras miudinhas mais meu coração fica tão miúdo quanto. A realidade me dá um soco tão forte quando me lembra que fui só um sonho de verão. Um verão que por sinal já estava acabando, agora é ramadan, quaresma aqui no ocidente, e nem mesmo que eu fosse muito atrevida te mandaria um lembrete da minha existência, queria poder te mostrar as belezas das quaresmeiras daqui, como as pétalas caem sozinhas, ao sabor do vento, pintando a rua de rosa, não sei porque mas toda vez que vejo uma quaresmeira penso em te contar sobre as coisas que eu queria ter te mostrado, de certa forma tem muito mais do que algumas horas, tem terras e mares nos separando, tem deuses, cultos, línguas, regras, leis, homens que nem eu e nem mesmo você conhecemos, tem sua família, e todos aqueles que vieram antes de você, o afeto e saudades que tenho nutrido por você são os meus, os meus pecados mais doces. Não me arrependo.

Quando te encontrei pela primeira vez, devia ser 13 de fevereiro, e eu era só uma garotinha assustada em outro país, quando nos desencontramos e eu fui embora, um mês depois, a cidade do cabo havia feito florescer novas coisas em mim, novos sentimentos, novas razões, novos carinhos, você me ensinou sobre afeto , sobre como ser amada, e eu nunca seria mais grata a essa viagem, a esse país, a você, do que já tenho sido, e as dores da distância só me provam que o amor sempre vai estar aí, a professora Pietro tinha me dito que levei o Brasil junto comigo, eu responderia a ela que eu trouxe um pouco de de você pra minha casa.

Sempre sua,

Isa

Domingo, 28 de janeiro, 2023

18:19

Gui ,

Eu tenho andado muito ansiosa recentemente, com essa viagem que eu tô pra fazer, eu acho que tenho sonhado muito acordada , não com minha viagem, mas com minha despedida, isso é curioso, tive a súbita impressão durante a maior parte da minha vida que eu importava mais do que realmente importo, o mundo parece andar devagar quando percebo isso, as pessoas parecem vazias e tediosas, tanto quanto eu, não gosto mais tanto assim da minha companhia, acho que passei a vida toda sufocando em problemas, dando minha identidade a eles, que quando fiquei velha de fato n pareço saber quem eu sou, já que tudo passa e os meus problemas foram substituídos por outros, eu não podia ser uma adolescente ansiosa pra sempre, sentir falta dos meus pais pra sempre, chorar pra sempre, e agora percebo que não dá pra ter os mesmos amigos pra sempre, os mesmos amores, por mais que eu me apegue muito a minha vida e aos momentos de luz, nada dura pra sempre, é até saudosismo e parte da minha teimosia escrever cartas a um morto. Será que foi muita ilusão minha acreditar que eu era tão importante? Deve ter sido meu ego , parte narcisismo e inocência, escrevendo essa carta eu percebo que a culpa por todas as pessoas que me enganaram disseram me amar e não me amaram, por eu ter acreditado todas as vezes, foi minha, uma coisa não pode se repetir tanto sem uma parcela de culpa minha, será que você me amava ou eu imaginei tudo? Será que eu sei ser amada ? Será que eu já fui amada do jeito certo ? Bauman diz que o amor não se aprende, ele é tão natural e súbito quanto a morte, que quando se chega não há muito o que fazer, mas e se eu delirar muito sobre a realidade e amar coisas vazias que eu inventei, eu tenho me afastado de amigos não por escolhas mas por motivos bobos, eu odiei meu aniversário de 19 anos, você faria 18 certo? Nesse aniversário minha amiga provou que eu não significava nada pra ela, dá p ver no vídeo de parabéns o quanto tô triste, não tenho nenhuma foto desse aniversário, não é possível que eu tenha inventado por 3 anos que ela me amasse , me sinto minha mãe. Tô decepcionada com minha despedida pq achei que iria gastar mais tempo com quem gosta de mim , mas passo dias inteiros sozinha, totalmente sozinha, e ninguém que realmente importa fala comigo, depois de tantas perdas quem sobrou pra ser importante pra mim ? Talvez se tivesse aqui você me ligaria e eu me sentisse melhor, ou não, não sei mais. Me sinto vazia de significado.

Sempre sua,

Isa

Sexta feira, 20 de janeiro, 2023

1:44 da manhã

Querido Gui,

Acho que já se fazem 3 anos que vc se foi, tentei te escrever antes, mas tive vergonha de escrever a um defunto, não dá pra perguntar como você tá, isso é estranho. Eu resolvi escrever aqui, no anonimato da imensidão, onde ninguém vai ver como ainda sinto tua falta, e como sinto.

Resolvi te escrever hoje porque vi algo indo embora de mim, era leve como uma pluma, e transcorria as minhas curvas infelizes, saiu corriqueiramente, sem se despedir, doeu perceber que me faltava algo que eu nem sabia que se dava pra perder, no final sempre voltamos pra o mesmo lugar, essa sensação de não importar, não significar nada, ser leve porque de certa forma nada o preenche, eu não sei dizer ao certo se isso é sobre amor , ou a falta dele, o buraco que alguém que você ama deixa na sua vida, os vazios que não podem ser preenchidos, e a maior traidora dessa história é a sua memória, com o tempo o rosto de quem se falta vai embora, as histórias passadas juntos ficam turvas, e você começa a se questionar se realmente houve amor, se não foi tudo ilusão. Apesar dos apesares, aquele vazio, aquilo que falta, continua no peito.

Eu não lembro da nossa última ligação, aquela em que eu estava lavando pratos na casa da minha irmã, eu tinha 17 anos.

Mas eu lembro dos seus olhos verdes profundos, seus longos cabelos negros, seu bigode falhado de adolescente, sua voz ambígua e jovem falando com um sotaque carioca " Meu amor" , do jeitinho que você me chamava. Você era tão pequeno, eu me pergunto como estaria agora, seu rosto mudaria muito? E sua voz ? Você ainda seria o mesmo garoto que eu conheci no 7° ano ?

Desde que eu notara tua ausência, outras muitas pessoas também se foram, e todas elas deixaram buraquinhos também, elas deixaram tanto vazio quanto você, e as vezes eu esqueço de sofrer, me peguei esses dias fazendo planos contigo antes de ir a África do Sul, eu esqueci que você morreu.

Quis dar uma passadinha no rio de janeiro antes de ir pra São Paulo pegar um avião pra ir embora. Mas eu não tenho nada pra me despedir no Rio , não tem ninguém.

Te dou notícias da minha viagem,

Com amor,

sempre sua.

Isa

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casian
Audrey Hepburn as Holly Golightly + Outfits
Breakfast at Tiffany’s (1961) dir. Blake Edwards
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estellas

AUDREY HEPBURN in ROMAN HOLIDAY (1953) I think she was Snow White. There were human beings and there was Audrey Hepburn. - Kip King