Terça feira, 08 de agosto, 23:53
Não quero escrever uma carta, não quero dedicar a nada a ninguém.
Em várias culturas se acredita que os espíritos que se assombram uma casa ficam nos cantos das paredes, nas fendas de encontro entre uma e outra paredes, escondidos lá, as vezes acho que talvez eu seja um espírito sem saber, me encontro tentando sumir pelas frestas da casa me diminuindo, como faço agora, como se eu pudesse sumir e me desfazer dentro do concreto, da tinta, da argamassa e tijolos, desaparecer no canto, de certo modo é reconfortante me esconder no canto da parede ficar quietinha, olhando imagens no Pinterest, fingindo que sou surda, que não é comigo, me pergunto se fantasmas também se sentem desconfortáveis dentro da sua própria existência e por isso andam pelos cantos, talvez eu vivencie a experiência de ser um fantasma, e por isso fique nos cantos quando gritam comigo e minha consciência some, me torno transparent, translúcida, como se as palavras me atravessassem. Como se eu realmente não existisse ou não tivesse lá.
Me pergunto se existir é desconfortável sempre, pra todo mundo, se existir sempre é tão opressivo, amo as pessoas que me amam mas não amo ser eu para as pessoas que me amam , odeio ser uma boa filha, uma boa amiga, eu não tenho outra existência a não ser essas para essas pessoas, quem eu significo no final não importa, desde que eu sempre seja uma boa garota, " a filha legal", ela não chora, não reclama, não se chateia, não briga, não fica triste, ela fica calada e te ouve falar coisas horríveis sobre ela. Ela é grata por você não ter quebrado leis, e por tudo que você deu mesmo que isso não seja nada. Se você teve um dia cansativo ela faz o seu café, se você tem problemas no seu casamento ela nasce, se você é infeliz a culpa é dela. Ela não pode fazer sexo mas tem que ter filhos, ela não pode ser criança mas não pode ter opinião, no final do dia ela oferece um sorriso e continua a viver como se fosse só um pedaço na vida dos seus pais, uma coadjuvante. Uma boa garota.





