@escritadequinta

Na calada da noite o vazio me consome, mas já estou vazia, depois de tantas mortes eu cansei de renascer.
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O caos da cidade

eu sou mais que um corpo muito mais que minhas dores e eu não sou ninguém mesmo assim sou além além dos medos e dos demônios de um olho cansado fixado num horizonte imaginário tropeço nas pedras do caminho grito vômito tudo o que tenho pra falar te digo mas não consigo te alcançar sempre arrumo forças pra me reerguer quando vejo já estou noutro lugar tão lindo, tão triste não quero mais o fardo de capturar o caos da cidade o desgoverno, o genocídio a falta de emprego, a fome a PM que mata enquanto jura nos proteger não quero mais me deter um peito aflito amores falidos procurando um jeito de sobreviver e tudo o que falo é sobre viver as ruas não são as mesmas o mundo não é o mesmo mas dizem que já foi pior e se o pior piorar? tudo o que faço é lutar ter esparança é o que vai nos matar.

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vocês estão matando os poetas.

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O caos da cidade

eu sou mais que um corpo muito mais que minhas dores e eu não sou ninguém mesmo assim sou além além dos medos e dos demônios de um olho cansado fixado num horizonte imaginário tropeço nas pedras do caminho grito vômito tudo o que tenho pra falar te digo mas não consigo te alcançar sempre arrumo forças pra me reerguer quando vejo já estou noutro lugar tão lindo, tão triste não quero mais o fardo de capturar o caos da cidade o desgoverno, o genocídio a falta de emprego, a fome a PM que mata enquanto jura nos proteger não quero mais me deter um peito aflito amores falidos procurando um jeito de sobreviver e tudo o que falo é sobre viver as ruas não são as mesmas o mundo não é o mesmo mas dizem que já foi pior e se o pior piorar? tudo o que faço é lutar ter esparança é o que vai nos matar.

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Carta para Deus

Rio de Janeiro, 09 de setembro de 2020.

Aqui tudo dói, dos cortes no braço aos ematomas na alma. Perdi a fé mesmo sabendo que em um mundo repleto de ódio devemos ousar ter esperança. Não tenho, eu sinto muito. Você teria misericórdia de uma alma perdida? de um ser suicida? Eu não aguento mais, aqui ninguém fica, e até o senhor, o Deus todo poderoso me abandonou. O céu e o inferno lutam para me ter, paraiso e sombra, não sei o que escolher. E eu vi, Jesus usa terno e o diabo veste calça. Depois que você entra na escuridão não é mais possível sair dela, mas eu te digo que eu quero sair, eu clamo, me tire daqui. O meu corpo está pesado, a irritabilidade da dor carregada nos ombros torna a vida intolerante e insuportável. Existe uma tristeza impetuosa em meu olhar, desculpe mas não sei explicar. Passei rápido na frente de um espelho e eu juro que não me reconheci, vi no reflexo de meus olhos tanta dor e solidão, o caos me deu a mão. Deus, por que eu estou aqui? Dizem que você não dá um fardo que a gente não consegue carregar e eu não consigo, então por que me deste? Tudo de bom que prometem não acontece, talvez em outro lugar, mas não aqui. Jesus, eu vou morrer sozinha e depois daqui do plano terreno, não conhecerei ninguém. Eu estou sozinha mais uma vez, então por que não me diz o que fez naqueles três dias em que esteve morto? Olha, não quero que pense que tenho medo de morrer, só estou meio assustada com o que vem depois. Eu sei que somos todos matéria-prima, somos todos prego e martelo e que tranformamos nosso ódio em algo que limite nossa dor. Talvez eu pudesse me salvar sozinha, mas minha escuridão ofusca o meu brilho. É Deus, seria um milagre se me salvasse.

- Cartas, por Vic Sidney.

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Apartamento 104

sentada no canto da sala vejo pessoas desconhecidas entrando e saindo pela porta principal levando todos os meus bens materiais junto delas, invade meu peito uma melancolia inevitável ao observar cada canto desta casa que eu tanto chamei de minha. estou me mudando meu (não mais) amor e estou partindo daqui de vez, eu estou voando para cada vez mais longe de você e isso de alguma forma mexe muito comigo. essa casa que eu costumava chamar de lar tem tantas histórias cravadas nas peredes e nos tetos e em cada centímetro do espaço que ela enche e transborda e eu que sempre fui sensível às pequenas coisas deixo que as lágrimas da saudade deste lugar - e de você - escorra e molhe meu moletom azul favorito. foram tantas alegrias e dores, tantos momentos únicos e especiais aqui vividos, foram tantas risadas que tu me arrancou neste mesmo lugar em que escrevo agora, que estou chorando e dói por tanto. a casa já está vazia e eu continuo a andar por ela toda encostando em cada azulejo das paredes e sentindo o duro do chão, tentando resgatar qualquer pequena lembrança perdida, tentando proteger todas as memórias. neste instante estou observando a lua e dizendo à ela que não a verei mais do mesmo lugar mas que ainda à verei, dizendo pra ela que a casa está vazia e eu junto com ela estou me esvaziando, de você. não pude me despedir de ti mas dei meu último adeus ao apartamento 104 que presenciou quando o nosso nós entrou em óbito. esta é a minha última carta pra você, esse é o nosso adeus um pouco tarde demais.

- Nosso fim no papel, por Vic Sidney.

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Orquestra do amor

“Não foi dramático como um relâmpago seguido pelo estrondo do trovão. Foi mais parecido com a pedra riscando o aço e a centelha esmaecendo, quase depressa demais para ser vista. Mas, ainda assim, a gente sabe que ela está ali, nos recônditos, onde não é possível avistá-la, como um atiçar de gravetos.”

Esse é meu trecho favorito de O Nome do Vento, é o momento que o protagonista testemunha seus amigos se apaixonando, isso obviamente me fez pensar desde a primeira vez que li. O amor não faz estardalhaço, o amor não causa tumulto e algazarra. O amor é mais astuto que isso, ele acontece aos poucos, imperceptível demais e aí um dia você realmente enxerga a pessoa e você se dá conta de que é amor, nesse momento seu coração começa a fazer barulho. 

Mas a chegada do amor é sutil como o tique-taque do relógio durante a madrugada, como uma garoa que te faz adormecer tranquilamente, o amor é tão gostoso quanto uma xícara de café quente em uma noite fria. Sabe o que é tempestuoso? A saudade. Ela é o oposto da calmaria que o amor é. Berra em plenos pulmões, crava garras e urra de dor em seus ouvidos, ela te sufoca. Engraçado quando o amor e a saudade andam lado a lado, o que acontece com mais frequência do que deveria. Amar faz da nossa vida uma orquestra repleta de altos e baixos.  

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num lugar distante do céu

eram 5am e valentin se mantinha acordado com todas as suas inseguranças e medos. ele amava o silêncio da madrugada pois sempre temeu qualquer barulho, por mais que houvesse o barulho mais alto dentro de si, ou até mesmo por isso. mundo à fora estava calmo e silencioso, ele podia ouvir os passáros cantando e voando livres. ele queria ser livre. olhou pela janela de sua casa e viu que no fim da rua brilhava uma luz amarela, e falou então para si mesmo que somos como passáros voando num lugar distante do céu. ainda na janela, valentin pôde ver um pouco mais à frente, que donna - a senhora de cabelos brancos - já tinha se levantado e se sentado no banquinho de madeira em sua varanda, pronta para ver o tempo passar veloz sob seus cílios castanhos, para que mais tarde como em um looping tudo voltasse de novo e depois de novo. posto que já não sabemos mais onde estamos nos encontramos na calmaria dos sóis de fim de tarde e no vazio das noites sem fim. rodei os nove mundos e diria que a vida é a própria solidão eterna.
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Você foi como a melhor xícara de café que já provei. Degustei cada gole inebriada com a sensação que me causava, despertando cada centímetro do meu ser. Sabia que uma hora chegaríamos ao fim, mas fui tola em acreditar que ao invés de cessar você transbordaria.

Cresci assistindo e lendo comédias românticas demais, fui drogada ao ponto de acreditar que no fim tudo acabaria bem, mas meu amor, até o fogo mais ardente uma hora se apaga. Fomos uma dose de vida em meio ao caos, em um mundo caótico cercado por dor e ódio, nós encontramos um ponto de paz. Gosto de pensar que aliviamos o tédio uma da outra por um tempo, exatamente como diz o Ryuk para o Light em Death Note, e sim, foi bom enquanto durou. 

Perdão, queria acreditar que seria simples assim, que te diria adeus e seguiria minha vida como em um fim de anime idiota, mas não foi isso que aconteceu. Veja bem, aqui estou eu, estudando a teoria da relatividade só para poder encontrar uma maneira de voltar no tempo e te contemplar de novo. Estou aqui, tentando com todas as minhas forças tornar o tempo um círculo e não uma reta, quero que possamos voltar ao início, como a música do Coldplay. Por favor, apareça e me diga que o tempo é uma ilusão, que o fim não existe de verdade. Não posso acreditar que nossa história acabou pela metade, como um café que esfriou, uma vela que apagou ou um nó que foi desfeito.

Hoje tento colocar toda a minha fé no Akai Ito, o famoso fio vermelho invisível que une duas almas, estou tentando acreditar que não importa o que aconteça esse fio nunca se romperá e nós duas estaremos ligadas para sempre. Porque mais uma vez eu não posso acreditar que o nosso fim foi repentino, como o céu do Rio de Janeiro que começa a chover sem antes as trovoadas dizendo que vem aí uma tempestade ou como aquele pôr do sol lindo com seus tons escuros alaranjado que some antes mesmo de você conseguir se despedir. Eu queria que a gente fosse um filme daqueles bobos que nos fazem chorar e rir ao mesmo tempo, eu voltaria a gente do começo quantas vezes fosse possível até que finalmente entendessemos que o nosso fim não deve acontecer, que nascemos para ficar juntas.

Como legião urbana disse: anotei seu telefone num pedaço de papel e calculei seu ascendente no recibo de aluguel. Seu capricórnio no meu sagitário não era compatível, nosso fim astrologicamente já era previsível.

Estou procurando por todo canto qualquer mera notícia de que é possível voltar no tempo, eu voltaria e gravararia cada pinta sua, cada covinha. Voltaria naquele dia chuvoso que entrei correndo na cafeteria para não me molhar com a chuva e você ficou lá fora se energizando dela enquanto me chamava para dançar, até que fui. Eu voltaria até mil vidas por você. Suas cores únicas e fascinantes fariam inveja na paleta de Van Gogh e seu amarelo hoje faz falta nos meus dias cinzas.

Te enviei um email enquanto contemplava as estrelas no escuro da noite e as observava queimando deixando um brilho intenso no céu, te chamei pra conversar enquanto tomávamos uma xícara de café. O café esfriou. As luzes da cidade se apagaram. A gente também.

[Fomos embora uma da outra como quem não olha para trás, mas eu olhei meu amor, eu olhei.]

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Solidão

Rio de Janeiro, 12 de agosto de 2020.

Clarice,

a solidão machuca e corrói, você sempre me disse isso e agora eu posso sentir na pele o peso da verdade que suas palavras carregam. A irritabilidade da dor carregada nos ombros faz com que a existência seja latejante e intolerável, tudo me parece efemêro e a opacidade do universo já não é tão confortável para quem quer ser luz.

É díficil saber de onde vem isso, de onde vem toda a tristeza impetuosa estampada no olhar daquela pequena garota que vivia com os olhos cerrados pela luz do sol e tão brilhante quanto, Clarice. O que aconteceu com ela? O que aconteceu comigo?

Lembro da profundidade do teu ser quando falávamos do viver, você tinha razão mais uma vez ao dizer que o mundo é um moinho que engole nossos sonhos. Ele engoliu, ele engoliu Clarice. Hoje sou apenas as ruínas de quem eu fui e de quem um dia quis ser, os escombros que sobrou de uma cidade destruida. É que nesse desejo de ser, me procuro. não me acho. não sou.

Me responda quando der, querida.

Ansiosamente, eu.

- Cartas, por Vic Sidney.