Presado eu mesmo.
A solidão tem gosto de cigarro apagado. Todos os dias, antes de levantar da minha cama, eu fecho os olhos e faço uma oração copiosa, brutal. Peço que Deus me torne mais forte do que eu fui ontem. Peço que ele me convença de que eu posso me perdoar e seguir adiante. Faço o nome do pai e digo amém.
O ponto crucial da dor é esse mesmo: não conseguir me perdoar. É onde mais dói, é onde os gritos arrastados do silêncio arranham-me de dentro pra fora, feito punhais eternos. Você tinha que ter visto, queridíssimo – na verdade você viu, não é mesmo? – como essa porra dói. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
No mais e pelo mais, sinto que irei para o inferno de todas as religiões. Por mais que eu tenha um banquete real numa mesa alegre, não tenho fome. Ainda que eu tenha lençóis de seda numa cama King Size, eu não consigo dormir. As horas machucam e a minha jugular resfolegante parece engasgada. Sinto que estou me afogando, mas meus pés nunca tocam o chão do oceano.
Queridíssimo eu, não fraqueje, sejamos fortes. O arco quando despede a flecha, também se sente vazio. Tudo é dor.