Hoje eu me permiti lembrar de tudo. Eu me permiti trazer a tona tudo que eu sabia que doeria cada parte do meu corpo, como se estivesse deitada numa sala de tortura, e com uma faca alguém estivesse me deixando em pedaços, mas pequenos pedaços, como quando se corta uma cebola pra um vinagrete. Eu sabia que seria tão amargo quanto fel. Mas eu me permiti. Eu precisei me relembrar as partes de mim que doem, precisei ver que as que eu achei que estavam cicatrizadas, estão jorrando sangue. É imparável. As partes que doem, são incansáveis. Elas me lembram o tempo todo o quanto eu não sei a sensação de apreciar momentos sem dor. Hoje eu me permiti lembrar dos abandonos externos, aqueles que vieram de quem eu menos esperei. Me permiti lembrar dos meus 13 anos, quando no ápice da minha primeira paixão de adolescência, ele foi embora sem explicações. Lembrei do quanto doeu, e do quanto eu fui forte mesmo carregando um sentimento de culpa por não saber o porquê um relacionamento tão bonito e promissor havia chegado ao fim. Mas também lembrei do retorno dele, e que hoje com corações maduros, ele é um dos amigos mais incríveis que tenho, que o passado está curado, e que vê-lo sendo feliz é recompensador. Hoje eu me permiti lembrar dos meus 15 anos, quando estive num relacionamento envolto no pior que eu não sabia que pessoas tinham. Lembrei das traições, da agressividade, das ameaças de morte, das agressões, do abuso sexual que por tantos anos a minha mente bloqueou, das calúnias e difamações espalhadas pelo meu bairro, dos pais proibindo as filhas de falarem comigo. Lembrei dos meus 15 quando ainda no antigo relacionamento, conheci alguém. Aos 15 eu descobri que se relacionar com alguém pela internet, é de longe um dos maiores desafios que um ser humano pode enfrentar, e isso eu digo em relação a tudo. E descobri de forma inteira, o quanto é definitivamente possível amar alguém mais do que a si mesmo, sem precisar tocar. Me permiti lembrar das coisas boas, de tantas coisas boas. Mas me permiti lembrar da dor que mudou tudo de mim, e talvez esse seja o motivo pelo qual eu poderia escrever tanto sobre. Lembrei da depressão, da terapia que larguei. Lembrei do abuso psicológico, das privações, do autoritarismo, dos gritos, dos bloqueios, da minha dor sendo diminuída, da dependência emocional, dos pedidos de perdão seguidos das mesmas atitudes, das mentiras, das palavras com a pura intenção de machucar, das idas e vindas, despedidas e reencontros, do egoísmo. Lembrei do tempo que investi na pessoa, mas lembrei do quanto eu também me tornei quem feriu, na tentativa de me proteger. Lembrei das vezes que fui fria, porque baixar a guarda significava que estaria mostrando que estava totalmente entregue novamente. Lembrei das ajudas que eu tive, e lembrei que ajudei mais que a mim mesma. Em certo ponto isso não é sobre mim, na verdade nunca acho que tenha sido sobre mim. Lembrei que foram mais de 6 anos, aceitando os retornos. Ajudando em tudo que eu podia, e derrubando os muros pra poder acolher ainda mais de perto. Lembrei da última vez, e da quantidade de vezes que foi responsabilidade minha lembrar a ele da pessoa incrível que era, mesmo com tudo e por tudo. Das vezes que foi responsabilidade minha, lembrá-lo que a pessoa do outro lado também o amava, mas que seria melhor se ele não corresse o risco de se quebrar de novo. Lembrei das tantas vezes que o único som audível era o choro descontrolado dele do outro lado da linha, e a sensação de incapacidade em não poder abraçar. Lembrei que ele conseguiu a arte de estar com quem ama, mesmo depois do improvável. Lembrei das dores e alegrias que vivi nos meses que antecederam o meu adeus que doeu em tudo de mim, que ainda dói. E lembrei que algumas vezes não se faz necessário uma tentativa do outro permanecer. Lembrei do bloqueio inesperado de quem nunca me conheceu, e também não se deu a chance de me conhecer, mas que deve ter uma visão completamente distorcida de quem eu sou, e lembrei do quanto fiquei mal por isso. Lembrei que fiquei pensando: como diabos pode uma pessoa que nunca falou
comigo, ter uma atitude assim baseado em sabe Deus o quê? E precisei parar de pensar porque eu estava perdendo a minha paz com pensamentos ruins. Lembrei do péssimo sonho que eu tive com ela, que me fez acordar ofegante e desesperada, me levando a orar e pedindo a Deus que fosse só um sonho! Lembrei do quanto sempre vou amá-lo, independente de tudo. Lembrei do quanto espero que ele esteja bem, que ambos estejam, porque eu acredito no amor de Deus pra transbordar no que ninguém vê dando certo! Lembrei que ainda nos meus 16 anos, conheci alguém que também ia foder com muito de mim, e que hoje, me tornou forte, é um ótimo advogado e carrega consigo partes de mim que vez ou outra exponho, e que vez ou outra temos conversas mais saudáveis do que imaginei serem possíveis entre a gente. Lembrei dos meus 17 anos. Quando minha mãe saiu de casa, lembrei da apatia que eu senti pelos meus pais, e o quanto era desesperador eu acordar e sentir que não sentia absolutamente nada por eles. Eu não sentia amor, raiva, tristeza, eu não sentia nada, mas sentia culpa por não sentir nada. Lembro dos ápices com minha mãe, e da montanha russa com o meu pai. De ter que carregar fardos pesados demais quando a responsabilidade não era minha. Lembrei das traições de quando namorava, e do quanto doía olhar pra ele todos os dias depois de tudo. Lembrei que me culpava perguntando o que tinha de errado comigo, o que estava deixando faltar. Mas principalmente, lembrei do meu abandono interno. Do quanto me deixei pra trás, e deixo até hoje. Do quanto não me importo comigo, e como é difícil a ideia de conseguir me amar um dia. Lembrei das tentativas de suicídio, e os constantes pensamentos suicidas. Lembrei que preciso ser boa aluna, boa filha, boa amiga, boa parceira. Mas nunca boa pra mim mesma. Nunca atenciosa a mim mesma. Lembrei do quanto acabo com meu corpo por não conseguir comer, por não conseguir dormir. Lembrei do peso que carrego todos dias, do quanto enxergar o amanhã parece ferir meu peito. Eu lembrei de mim, e foi o que mais doeu. Porque eu não aguento mais, mas continuo tentando. Porque eu já não sei como fazer funcionar há muito tempo, mas eu continuo fingindo na tentativa de burlar a minha própria mente que me diz a todo o tempo que meu momento já acabou, e que já não vale a pena insistir. Hoje eu me permiti lembrar de tudo. E tá doendo pra caralho, só não mais que saber que amanhã, eu ainda vou ser eu. E que meu eu, é podre desse jeito aqui!