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belovesick

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you know it's not the same as it was.

When Charles Bukowski said A love like that was a serious illness, an illness from which you never entirely recover, and Franz Kafka wrote to Milena I’m thinking only of my illness and my health, though both, the first as well as the second, are you.

— Franz Kafka, Letters to Milena

[text ID: I wish the world were ending tomorrow. Then I could take the next train, arrive at your doorstep in Vienna, and say, 'Come with me, Milena. We are going to love each other without scruples or fears or restraint because the world is ending tomorrow.' ]

eu tentei te cultivar, mas me matei (25.01.2017)

acho que você sabe que sempre fui apaixonada por jardins. meu sonho, desde criança, foi ser capaz de cultivar um campo repleto de flores coloridas e perfumadas, pra me perder nele durante horas, fingindo existir apenas dentro daquele meu pedacinho de universo particular. a vida, porém, logo mostrou que tinha outros planos pra mim, quando me fez morar até os vinte e poucos anos em uma selva de pedra, na qual o único espacinho de terra que pode abrigar alguma espécie de vida é a jardineira do meu apartamento antiquado. perdi a conta de quantas vezes visitei a floricultura do bairro, e de quantas mudas diferentes já tentei fazer brotar daquela terra revirada. desisti das flores coloridas e perfumadas, e tentei me contentar com os cactos e suculentas. ironicamente, a vida resolveu me surpreender de novo ao me provar que eu era também incapaz de cuidar de uma plantinha de deserto que mal precisa de cuidados.

cheguei então a conclusão de que talvez não fosse meu destino cultivar nada, mas você apareceu na minha vida pra dizer que eu tava errada. na tua presença, eu cultivei uma infinidade de “e se?”, que até hoje florescerem ao meu redor. acho que tudo começou naquele primeiro encontro, quando passei metade do tempo me questionamento mentalmente sobre o que você devia estar achando de mim. “e se ele estiver me achando uma chata?” “e se ele não concordar com nada que estou dizendo?” “e se ele só estiver sendo educado e sorrindo pra não me deixar sem graça?”

quando você interrompeu meu fluxo de pensamentos ao segurar a minha mão, não lembro se pensei alguma coisa. teu toque sempre foi o principal responsável por colocar fim nas minhas inseguranças, e o contato entre nossas peles quentes sequestrava qualquer ramificação de “e se?” que minha mente tentava fazer nascer.

acho que você sabia que eu sempre fui apaixonada por jardins, porque você sempre me trazia flores. não eram só rosas vermelhas e clichês, daquelas que você compra em cinco minutos quando vai até a floricultura. era sempre algo diferente e exóticos. pétalas azuis, magentas, amarelas… folhagens lisas, ondulas, pequenas, enormes. você me entregava uma porção de facetas suas no formato de flores, e eu me perguntava “e se?” e se eu estivesse levando tudo isso a sério demais? e se quando as flores secassem e morressem, você partisse? e se eu estivesse sendo apenas neurótica, mas e se eu estivesse certa? e então, a avalanche de pensamento me consumia novamente, se derramando sobre mim e dilacerando minhas vértebras, me fazendo cair.

às vezes você vinha e me exigia por completo, mas parte de mim sempre permanecia alheia ao teu olhar caramelado. parte de mim continuava agarrada aos pontos de interrogação que se propagavam na velocidade da luz. você era uma constante no meio das minhas variáveis, e ainda assim meu cérebro insistia em me fazer te enxergar como um ponto fora da curva. um elemento perdido no espaço que logo iria reencontrar seu lugar. não me passava pela cabeça que, talvez, seu lugar fosse ao meu lado. os traumas anteriores distorceram minha visão e me vi vítima de uma verdade absoluta criada por mim mesma. uma verdade que gritava que eu era incapaz de cultivar flores, e também o amor. como girassóis, eu esperava que as pessoas se voltassem contra mim quando algo mais brilhante e radiante surgisse.

você me olhava, mas eu olhava ao meu redor, com medo de que aquele fosse o momento. o momento no qual você perceberia que minha luminosidade nunca seria o suficiente pra te fazer florescer, e que minhas mãos não eram mágicas o bastante. “e se for hoje?” “e se essa for nossa última vez juntos?” “e se você já não for meu amanhã?” mas você já não era meu nem ontem, nem antes de ontem, nem nunca. você não era meu porque a entrega precisa ser mútua, e eu nunca me permiti ser sua. enquanto você tentava me amar, eu me fechava em uma muralha fabricada sobre os alicerces da minha insegurança e dos meus medos. tua proximidade era encarada com suspeita, e em cada beijo seu eu tentava desvendar um mistério que justificasse o por que de você ainda estar ao meu lado.

de vez em quando, em momentos espaçados de euforia e quase-entrega, eu te aceitava por inteiro. nesses momentos, eu queria me desfazer em versos cadenciados que recaíssem sobre você, aquecendo teu peito nas noites frias de inverno. queria acalentar seus receios sobre o mundo com meus beijos e te oferecer uma morada segura e permanente nos meus braços. eu esquecia que eu era como uma sombra, e que você precisava de luz pra se transformar em algo ainda mais belo. não, isso é mentira. esquecer era uma palavra que não parecia existir no meu vocabulário rebuscado, e então a verdade é que eu ignorava.

eu ignorava a vozinha chata cultivada dia após dia no fundo da minha mente, que dizia que eu não era boa pra você. nesses dias, eu me satisfazia ao perceber que as jardineiras do meu apartamento serviam de recanto pras bitucas do seu cigarro. se eu tivesse que deslocar minha adoração das flores para as cinzas, eu o faria sem pestanejar, porque talvez assim fosse mais fácil aceitar ser sua. porque talvez as cinzas, assim como as flores, também pudessem ser bonitas e repletas de signados, e aí talvez eu me sentisse merecedora do seu amor de primavera.

hoje eu lamento que os ponteiros do relógio tenham trabalhado contra mim, e que esses momentos sempre tenham sido curtos demais, devorados rapidamente pelo meu campo florido de “e se?” mas, e se ao invés de lamentar contra o tempo, contra os traumas do passado, contra as chegadas e partidas que já presenciei, eu lamentasse contra mim? contra minha cegueira, minha realidade distorcida, meu campo de flores sem flores. e se nesse canteiro infértil, a única culpa repouse em mim, e na minha incapacidade de perceber que nem todas as pessoas são flores.

algumas são como o sol, como a chuva, como a terra. algumas não são feitas pra florescer, mas pra dar vida. talvez meu erro tenha sido acreditar que você era uma flor que precisava ser cultivada, quando na verdade você era a terra e eu era um ramo precisando de nutrientes pra crescer e me tornar radiante. mas tudo que eu fiz foi permanecer pequena e indiferente no meio de uma centena de gramíneas. tudo que eu fiz foi estragar a gente, e eu sinto muito.

eu sinto muito por ter tentando ser seu sol, sua terra firme, seus dias de chuva. eu sinto muito por não ter sido justamente o que eu precisava ter sido, eu mesma.

corrupção mútua (20.01.2017)

eu passei tempo demais me preocupando com palavras bonitas e querendo glorificar cada pedacinho seu, fazendo de você um poema em carne viva. eu gastei meu tempo me convencendo de que teu olhar brilhava mais que uma constelação inteira, e que teu perfume tinha um aroma melhor que um jardim em plena primavera. no meio do meu caos interno, eu tentava acreditar que era da tua calmaria que eu precisava. que nas tuas águas límpidas e tranquilas eu podia navegar sem correr riscos de naufragar. uma, duas, três, inúmeras vezes eu me peguei pensando que você era o protótipo de tudo aquilo que me faltava, e que era por isso que eu devia te amar. porque você era um pacote completo que continha todas as baixas que essa guerra chamada vida me fez ter. teu abraço quente e protetor era um escudo que protegia minhas inseguranças e incertezas, e eu achava que era isso que as pessoas chamavam de conforto. durante meses eu pude deitar a minha cabeça no teu colo e adormecer sem pesadelos, ansiando pelo dia seguinte porque com ele vinha a chance de acordar nos teus braços outra vez. as vinte quatro horas de rotação da terra eram insuficientes pra eu ser capaz de expressar o quanto tua presença iluminava cada canto obscuro da minha alma corrompida. corrompida. foi assim que você me deixou. e deus, eu devia saber que a vida é isso. a vida é uma corrupção sem fim, e uns corrompem os outros em uma progressão aritmética que não acaba jamais, porque junto do amor sempre vem a destruição. e aí eu desisti das palavras bonitas, porque é na desordem que a beleza se faz essência. porque eu te amava tanto que eu queria te consumir por completo e te fazer em pedaços pra te englobar por inteiro no meu ser. eu queria morder os teus lábios e saborear teu gosto doce de vinho até que eu ficasse embriagada de você. eu cansei das palavras serenas e dos momentos de paz, porque no meio do meu amor todo o que prevalecia era meu desejo de fazer de nós dois o resultado de um entropia. eu queria mensurar o quão grande seria o impacto da nossa explosão, e quantas supernovas iam se originar da nossa destruição conjunta. eu fiz de você meu remédio sem lembrar que todo medicamento é um veneno dependendo da dosagem, e eu me envenenei de você até minhas veias ficarem com a tua marca. e no meio de toda essa toxicidade que tinha o teu nome, eu me peguei querendo mais. porque você era uma droga ilícita, de uso exclusivo meu, e eu era uma viciada almejando te arrastar pro meu mundo. eu queria transformar teu porto seguro em uma casa mal assombrada e teu mar calmo em uma ressaca nebulosa. porque a minha intensidade não se satisfaz mais com a sua calmaria, e porque cada vez que você resolve ir embora eu tento me convencer de que é poético e romântico esperar pela tua volta mas só é fodido. só é fodido de trinta mil jeitos diferentes. enquanto você cala e engole as palavras, eu só quero gritar até expelir os fragmentos remendados da minha alma. eu adormeço almejando poder cravar minhas unhas na tua pele e te marcar como meu, e amanheço desejando que eu te tire do seu marasmo cotidiano e te faça perder o equilíbrio na corda bamba. porque eu quero te fazer despencar em queda livre em direção a mim. porque não tem nada de libertador dentro de uma zona de conforto, e eu quero vivenciar a adrenalina de um campo de guerra com você. eu passei tempo demais tentando fazer de você uma poesia ritmada, mas todos os meus rascunhos só te descreviam como ossos e cinzas. porque meu amor é fogo, e você sempre foi atraído pelas chamas. eu te amei e desaguei minhas tempestades no teu oceano pacífico, cor dos teus olhos tão rasos. eu fiz da tua paz o esconderijo do meu caos, e você se abrigou em cada vértice pontiaguda e perigosa que eu te ofereci sem pedir nada em troca.

eu desisti das palavras bonitas e da serenidade das poesias. com você eu aprendi que com o amor, sempre vem a destruição. e, comigo, você aprendeu que depois da destruição, sempre vem a renovação.

porque você me corrompeu, mas você também devia saber que a vida é uma corrupção. uma corrupção mútua. e nesse vai e vem, eu te destruo, você me destrói. e a gente se reinventa. a gente sempre se faz novo, de novo.

universos paralelos (19.01.2017)

quando você foi embora, tentei encontrar algum conforto em explicações pré-fabricadas pela minha mente à beira de um colapso. busquei na astrologia uma resposta pra todas as perguntas que atormentavam minhas noites de insônia, mas nem mesmo o alinhamento dos planetas e a sinastria entre nossos signos conseguia me devolver a paz que eu sentia antes de você sair da minha vida sem aviso prévio. se você ainda estivesse do meu lado, provavelmente iria rir ao descobrir que eu, a garota clichê de humanas que gosta de ler sobre misticismo e de sentir o gramado nos pés, só foi capaz de encontrar sossego em teorias de física. eu nunca fui boa em resolver problemas e encontrar valores perdidos em equações, e a única matemática que eu sempre pareci ser capaz de compreender sem dificuldades era aquela que a gente fazia quando eu tinha que contar quantos beijos você ainda me devia. ainda assim, depois de meses tentando entender porque 2 - 1 não se parecia com 1 inteiro, e sim um 0, vazio e insignificante, eu finalmente encontrei sossego.

em 1985, william james - que, ironicamente, era um filósofo e não um físico - resolveu criar uma teoria sobre multiversos.  um multiverso, na visão dele, seria composto por um número infinito de universos paralelos. talvez, se william james tivesse razão, e o universo em que a gente existe seja realmente apenas mais um no meio de tantos outros, talvez a gente ainda tenha uma chance. talvez, em algum universo distante daqui, você esteja me beijando enquanto eu escrevo esse texto. pode ser que exista um outro universo, no qual a gente se encontra e é capaz de fazer as coisas funcionarem. você pode estar segurando minha mão agora mesmo, enquanto me pede em casamento e eu digo que sim. eu não tive a chance de fazer isso nessa vida, mas eu tenho certeza de que existem inúmeras versões de mim, vivendo em outros universos, e que sempre respondem que sim. talvez exista um universo e nele eu e você já estejamos velhinhos, vivendo em uma casinha no meio do campo e criando vários cachorros. nossos netos provavelmente estão correndo pelo gramado, brincando nos balanços amarrados às árvores, enquanto nosso filhos, sentados em uma mesa, perguntam mais uma vez sobre como eu e você nos conhecemos. talvez eu até faça aquela nossa piada interna, dizendo que a gente se conheceu de outros vidas, mas se achou de novo nessa.

talvez, em alguma galáxia distante, em uma dobra do espaço-tempo, exista um universo onde todos os meus desejos em relação a você sejam realidade. onde a nossa relação tenha um início, um meio, mas nunca um fim. no meio de tantas questões, que assombraram minha mente durante todos os dias que sucederam sua partida, talvez eu tenha encontrado a resposta. pode ser que o problema não seja eu, ou você. pode ser que o problema não tenha sido nossas brigas intermináveis, ou nossos diálogos afiados que nos afastaram tanto. talvez nossa frieza crescente e distanciamento seja só uma consequência de um destino ingrato. eu tenho certeza que se esses inúmeros universos paralelos realmente existirem, deve haver uma porção deles em que a gente não termine junto. deve haver algum universo em que nossos caminhos se encontrem e se percam, e jamais tornem a se cruzar. então é isso, esse é um desses universos. enquanto você vai embora e eu tento me acostumar com a sua ausência, eu tento também pensar que agora mesmo, enquanto eu ainda sonho acordada com o seu sorriso, existe uma versão minha que ainda é a causa dele. cada vez que meu peito dói com a lembrança do seu calor contra o meu corpo, eu lembro que existe uma outra realidade onde você me abraça toda noite e me aquece. então tá tudo bem.

pode ser que não seja pra gente ficar junto nesse universo, porque talvez o alinhamento das estrelas esteja contra nós, e a gravidade não trabalhe ao nosso favor. talvez os planetas estejam em oposição e nossos destinos não se pertençam nesse aqui e nesse agora.

ainda assim, no meio de todo desespero e caos que o nosso encontrou provocou, é isso que me conforta.

em algum outro universo, a gente conseguiu ser feliz.

meus momentos preferidos (15.01.2017)

duas semanas atrás, você me ligou com a tua voz de sono, repleta de manha, e reclamou que eu te devia uma lista. pra ser sincera, a gente sabia que eu te devia muito mais do que isso. eu te devia uma centenas de beijos prometidos e não entregues, e uma infinidade de palavras que eu guardei pra mim, quando deveria ter entregue à você. e você, você também me devia o mundo, mas a tua voz fraquinha pela manhã acabou com todas minhas resistências, e ao invés de inciar uma discussão sobre isso, eu só concordei.

no meio das inúmeras dívidas que eu já tinha com você, achei que pelo menos essa eu pudesse quitar. então, essa é a lista que você tanto queria. os meus momentos preferidos com você.

os meus momentos preferidos:

0. (zero, por que você sabe que nunca gostei de ignorar o número zero) quando a gente se beijou pela primeira vez, no dia do meu aniversário. você tava indo embora de casa, e eu fui abrir a porta pra você, mas você me fez fechar ela. eu te olhei sem entender e você parecia no meio de um conflito interno que se parecia bastante com o meu. eu queria te pedir pra ficar, mas tinha um compromisso. eu lembro da gente rir sem graça e de abrir a porta de novo, mas você resmungou alguma coisa antes de voltar pra dentro e me abraçar, e minha vontade era de manter aquela porta fechada pra sempre, e te manter perto de mim pra sempre. porque você já era parte da minha vida antes mesmo de eu perceber isso. não lembro quem tomou a iniciativa, mas lembro que aquele primeiro beijo foi o melhor presente de aniversário que recebi.

1. o dia que você me visitou em casa, mas tava uma tarde tão ensolarada e quentinha que resolvemos ficar na rua. você caminhou do meu lado até a quadra seguinte, e a gente sentou em uma guia, na frente de uma casa abandonada. do outro lado da rua, em alguma casa desconhecida, tinha alguém ouvindo detonautas, e você cantou que ainda ia me levar pra outro lugar, além do céu e do mar. era um dia de semana qualquer, e a rua tava deserta, sem ninguém pra invejar aquele olhar apaixonado que a gente trocava. se a paz tivesse um aroma, ela teria o teu naquela tarde de primavera. o sol era tão quente, mas era o teu toque suave que fazia minha pele se aquecer como num passe de mágica. eu queria pintar aquela cena e fazer dela um quadro pra enfeitar todas as paredes da minha casa… a nossa calmaria nunca foi tão plena como naquele momento.

2. o dia que a gente achou que seria uma boa ideia beber demais no shopping. e, droga, nunca é uma boa ideia beber demais no shopping. você ficava tentando colocar a mão na minha coxa por debaixo da mesa, e minha paranoia gritava dizendo que tava todo mundo vendo que a gente tava fazendo. mas você começava a me olhar com aquele olhar repleto de significados ocultos, e tua risada me desarmava por inteiro. eu deixaria você fazer o que quisesse de mim, sem me importar com nada ao meu redor. porque eu era tua, e ser tua era sinônimo de liberdade. lembro da gente fugindo pro banheiro e tentando disfarçar, mas como é que a gente podia esconder os sorrisos cúmplices e as confissões silenciosas de amor? no fim da noite, você foi me deixar em casa e eu caí de joelhos no meio da avenida, e tudo que você fez foi segurar a minha mão e rir. naquele momento eu tinha certeza de que poderia passar o resto da vida ajoelhada aos teus pés, contanto que eu fosse o motivo do teu riso mais sincero.

3. quando eu passei no vestibular. minha mãe tava viajando e meu pai trabalhando, e lembro que acordei com você me mandando mensagens. “acorda dorminhoca, é hoje!” você tava trabalhando, mas ficava provocando dizendo que ia sair logo pra comprar farinha e me sujar, porque é claro que meu nome ia estar na lista de aprovados. você chegou em casa na hora do almoço, e a gente pegou o ônibus pra ir pro banho de lama, e eu não conseguia controlar a vontade de te beijar a cada cinco segundos. você queria segurar a minha mão, mas só fez isso quando a gente chegou na faculdade. você me arrastou pelo gramado e me apresentou pros seus amigos, e não soltou de mim nem por um segundo… nem mesmo quando me sujava de tinta azul. a gente voltou pra casa e teve que tomar um banho de mangueira no quintal, porque nosso cabelos eram uma bagunça de ovos, tinta e farinha, mas enquanto meu exterior era uma sujeira sem fim, minha alma era cristalina. naquele dia, eu fui feliz por vinte e quatro horas. 

4. naqueles momentos em que meus pais viajavam e você ia sempre dormir em casa. minha cama de solteiro não era grande nem mesmo pra mim, mas ela parecia dar jeito pra abrigar nós duas. você me abraçava a noite toda, e de madrugada resmungava quando eu te pedia um copo de água. você dizia que não queria descer e me largar. acho que, no fundo, era só preguiça mesmo, mas tua respiração pesada e quentinha no meu pescoço me fazia ter certeza de que eu sentia o mesmo. em uma dessas noites, você esqueceu sua camisa lá, e ela virou o meu pijama preferido. nada me fazia dormir tão bem como ter o seu perfume perto de mim.

5. quando você conseguia me encontrar na esquina do meu cursinho, antes da minha aula começar. a gente sentava no murinho de uma loja e ficava conversando sobre as coisas mais aleatórias do mundo, e aquela era sempre a melhor parte do meu dia. normalmente você me trazia um bilhetinho, e eu te entregava um, porque acho que a gente gostava de compartilhar palavras. porque era uma forma de demonstrar que, dias antes da gente se ver de novo, eu já tinha pensado em você. acho que você sabia isso, mas eu preciso repetir: eu sempre pensava em você.

6. quando a gente brigou sério e você queria terminar. eu lembro de puxar você pra minha cama e te fazer deitar do meu lado, mas você só queria ir embora. eu chorei até que não tivesse mais controle algum sobre minhas lágrimas, e eu lembro que você chorou comigo, me abraçando e me implorando pra te deixar ir, enquanto eu só sabia pedir pra você ficar. o meu egoísmo me doia, mas a ideia da tua ausência me matava. suportar o mundo sem você era um castigo, e eu pedi aos céus pra que você não me castigasse dessa forma. enquanto eu te abraçava e chorava, eu sentia que não fazia mal a dor, o medo, os sentimentos ruins. se teus braços estivessem ao meu redor, tudo daria certo. você ficou.

7. aquela vez que você me roubou da aula e a gente foi assistir atividade paranormal no cinema. meu deus, eu odeio filmes de terror, mas o que é que você me pedia que eu não fazia só pra te deixar feliz? já era perto do final, em uma cena estranha onde a garagem inteira estava despencando em cima da menina, quando todas as luzes apagarem. eu nunca esqueço de você segurando a minha mão com força, enquanto eu ria de nervoso e gritava que a gente ia morrer. você ria, e me mandava ficar quieta, mas eu continuava repetindo que alguém com uma faca ia entrar naquela sala e matar todo mundo. no meio das minhas gargalhadas, eu queria ter dito que aquela era boa forma de morrer. com você do meu lado, segurando a minha mão.

8. durante o show do the maine, quando você tava com algumas amigas e eu com outras conhecidas, mas ainda assim a gente se esbarrou. no meio daquela multidão de gente, você deu um jeito de aparecer na minha frente, e por mais que ali a gente já fosse mais distância do que proximidade, eu senti meu mundo gravitar ao seu redor. a gente tentou conversar, mas o barulho alto me impedia de ouvir as palavras que escapavam da sua boca. a gente sempre teve um jeito melhor de conversar, e foi por isso que joguei meus braços ao seu redor e te puxei pra um abraço. você era como um cais, onde eu sempre podia atracar quando precisasse me sentir segura, após uma tempestade.

9. quando fui na casa de uns amigos seus, e a gente resolveu brincar de alguma coisa que eu já nem me lembro mais. eu só lembro do gosto da bebida das nossas bocas se misturando, o do peso do seu corpo em cima do meu. eu tentava rir e ficava repetindo que era a cama dos pais da sua amiga, e que a gente não devia fazer isso nas camas alheias, mas você me calava a boca com outro beijo e me roubava qualquer argumento. eu lembro que te beijei até minha boca ficar adormecida, e que a gente quebrou uma pia. sim, você sempre fazia questão de lembrar que a gente tinha destruído a pia do banheiro, e no meio de toda vergonha que eu sentia, eu sempre me pegava sorrindo com a memória.

10. quando a gente passou o ano novo na praia, e você resolveu ajudar minha família a caçar rolhas, porque a gente tem essa maldita mania de colecionar as rolhas que as pessoas esquecem pela areia no ano novo. depois disso, todo mundo foi embora e a gente sentou pra passar a madrugada junto, com a promessa de ver o sol nascer. era um dia péssimo pra discutir a relação, mas a gente acabou fazendo isso de qualquer jeito. fazia um frio cortante no meio da noite, mas ninguém quis desistir de amanhecer junto. a gente nunca parecia querer desistir, por mais que o mundo fizesse de tudo pra alguém cedesse primeiro. por mais que a gente soubesse que, uma hora ou outra, desistir fosse a única saída. mas naquela noite, enquanto o sol nascia e iluminava a praia deserta, nossa resolução de ano novo foi continuar tentando.

no meio desses dez momentos, há sempre uma lacuna de lembrança. de noite, quando fecho os olhos, eu tenho medo de que essa lacuna fique maior e maior e maior, até chegar ao ponto em que todas minhas memórias preferidas não vão passar de um borrão. a lembrança do seu cheiro vai se perder, e eu não vou ser mais capaz de dizer com precisão com a cor exata dos teus olhos, ou como era a sensação da sua boca contra a minha. por mais que eu lute contra isso, o tempo é ingrato e meu cérebro parecer implorar por mais espaço pra armazenar novas informações, e pra isso ele precisa fazer uma limpeza… eu sei que há fragmentos  já esquecidos, e que daqui alguns anos a maior parte desses momentos vai ser mais criação minha imaginação do que realidade concreta e passada. 

mas não é isso que me dói, entende? não é o fato das memórias boas estarem se esvaindo aos poucos, perdendo os contornos e a nitidez. o que me corrói por dentro, e me faz gritar a noite, quando a cama é vazia e sente a tua falta, tanto como eu, é que no meio de tantos momentos, tem um que eu não esqueço. tem um que é imune ao tempo, e que resiste com todas as forças. por mais que eu tente esquecer, ele é tudo de que consigo lembrar. 

o dia em que você me apresentou a sua nova namorada.

mas amar, amar é florescer (13.01.2017)

me ensinaram que eu devia te amar. e eu fingi que sabia o que era amor.

amar você era como mergulhar num mar em fúria. sua presença constante e postura possessiva me envolviam como ondas violentas, e o gosto salgado dos oceanos estava sempre presente no fundo da minha garganta. eu achei que podia te amar, porque mergulhar sempre me fez feliz.

amar você era como explorar o universo.  seus toques criavam galáxias roxas e esverdeadas pela minha pele cor de via-láctea. eu sempre amei tanto as estrelas, e eu sempre achei que podia amar você também, e todas as nebulosas que você estampava no meu corpo. 

amar você era como voar alto e sufocar, incapaz de encher os pulmões de ar. suas palavras me calavam a boca e sua voz alta sempre foi o único ruído rouco que eu era capaz de escutar. eu sempre amei tanto os timbres arranhados, que todas suas palavras afiadas pareciam declarações de amor. 

amar você era como cultivar um jardim inteiro de ervas daninhas. cada vez que algo novo tentava brotar de mim, você crescia ainda mais. suas folhagens escorregavam por cada ramificação minha e me podavam, tomando minha energia e vitalidade.

eu achei que podia te amar. mas amar, amar é florescer.

e eu sou só um canteiro sem vida. 

sobreviva até amanhã (12.01.2017)

às vezes é tão difícil organizar as palavras em torno de uma sentença que faça sentido, entende? costumava ser fácil, porque talvez meus pensamentos e sentimentos fossem tão exacerbados que extrair algo deles se tornava uma tarefa tranquila. árdua, porque envolvia coisas que talvez fosse melhor deixar trancafiadas em mim, mas tranquila. tranquila porque no meio de um furacão de emoções, eu era capaz de reconhecer cada contorno delas. amor. ódio. angústia. nostalgia. medo. exaustão. hoje em dia, onde antes havia um furacão, hoje só há um vácuo.

talvez por isso, organizar as palavras em torno de uma sentença que faça sentido é uma tarefa árdua agora. no fundo da minha mente, uma centena de palavras se encontram amontoadas embaixo de lápides, naquilo que chamei de meu cemitério mental. é pra lá que eu mando todos os pensamentos que me tiram o sono, e me causam calafrios. é lá que eu busco enterrar as verdades das quais eu fujo, temendo ser alcançada.

na maioria dos dias, é fácil fingir que esse cemitério mental é uma parte externa a mim. um pedaço inacessível, repleto de arquivos mortos que não podem ser restaurados, e que, portanto, não vão ser capazes de me danificar. é fácil acordar e encarar a vida e a rotina, e voltar pra cama no fim do dia. mas às vezes, no meio de uma semana que eu finjo ser perfeita, pra me convencer de que tudo não é tão ruim assim, acontece uma pane no sistema.

por algum motivo desconhecido, e sem permissão alguma, alguma lembrança escapa. algum pensamento proibido, classificado como impróprio pra uma garota que, aos 23, só almeja chegar aos 24. no meio desse cemitério de arquivos, algum vírus aparece e começa a dar vida pra tudo aquilo que deveria estar morto. em um piscar de olhos, a ansiedade aparece.

(você não precisa sair da cama hoje. e se alguma coisa acontecer? parece que vai chover. talvez seja melhor você colocar uma roupa pra chuva. mas você usou essa ontem. será que eu vou conseguir pegar o ônibus a tempo? talvez esse tênis não aguente outra tempestade. acho que você não precisa mesmo sair da cama hoje. mas e aquele trabalho da faculdade? será que a professora ainda não colocou as notas? porque nenhuma roupa parece boa? será que o ônibus vai estar vazio? e se ele não parar no ponto certo e eu acabar me perdendo? talvez você devesse sair da cama agora.)

eu chego a pensar no quão ridículo é o fato de ela já ser uma conhecida íntima, que aparece sem bater na porta e invade todos os cômodos da casa, deixando seu rastro por todo canto. em dias como esses, as palavras são um aglomerado sem início, meio ou fim. elas são abafadas pelo som da respiração pesada e das batidas aceleradas do meu coração, e os pensamentos positivos que eu tento manter são todos afogados pelo suor exagerado que insiste em ficar brotando nas palmas das minhas mãos.

talvez seja por isso que quando me perguntando se está tudo bem, o único som que saia é o da palavra sim. talvez minha boca tenha sido treinada pra responder com monossílabos, mas a palavra não tenha deixado de fazer parte do meu vocabulário. talvez seja por isso que no meio de uma crise, quando as palavras giram e giram e giram dentro do meu cérebro, em uma zona de arquivos mortos tentando voltar a vida, a única coisa que eu seja capaz de reproduzir seja o silêncio. mas como é que alguém vai conseguir me ouvir se tudo que eu faço é não fazer nada?

uma vez cheguei a pensar que talvez bater a cabeça na parede pudesse ajudar. talvez assim eu fosse capaz de emitir algum som, e alguém que prestasse mais atenção em mim pudesse perceber que havia algo de errado. (será que esse sorriso no meu rosto é tão convincente assim?). mas essa tentativa de fazer barulho, assim como todas as outras, é vista como insanidade… mas a minha única loucura é querer ser ouvida.

quando eu tenho sorte, esse vírus dura poucos dias, e logo resolve voltar pro espaço escuro do meu cérebro, onde eu enterro todas as outras pragas que ameaçam minha existência. às vezes, ele fica presente por mais tempo, em uma doença silenciosa mas que, de alguma forma, grita alto. no intervalo entre uma calmaria e uma tempestade, entre uma nova morte e um renascimento, eu tento organizar as palavras. elas saem bagunças, vazias, e dispersas. talvez eu demore pra entender, de verdade, que elas são um reflexo meu. talvez eu demore ainda mais pra perceber que no meio desse cemitério de arquivos mortos que vez ou outra voltam a vida, também esteja enterrado um pedaço meu. no meio de todas essas palavras que eu tento juntar, em busca de uma resposta e de um antídoto pra separar as partes vivas, das que devem continuar enterradas, eu encontro apenas três. três que eu repito toda noite, e que no meio de um emaranhado de frases desconexas, encontram um significado próprio, que se renova constantemente.

sobreviva. até. amanhã.

a mescla ínfima da luz com as sombras (11.01.2017)

quase sempre tenho pesadelos com um flash de luz. é só isso. escuridão e, de repente, uma explosão clara queimando minhas retinas. eu acordo com a vista ofuscada por um brilho intenso que não existe nas sombras do meu quarto. se você ainda estivesse aqui, você iria dar risada, porque você era bom nisso, em rir das minhas bobeiras. você ia me chamar de amor, com a voz embargada de sono, e acabar dizendo que a luz era provavelmente a luz do fim do túnel, e que eu devia seguir ela e voltar a dormir. mas, no mesmo instante, você também iria segurar minha mão e me puxar pra mais perto do seu corpo, me aquecendo com o seu calor febril e me envolvendo no seu abraço protetor. sua voz iria velar meu sono até que não restasse rastro algum de pesadelo, e a cor dos teus olhos fosse a única coisa na qual minha consciência pesada seria capaz de pensar antes de adormecer. mas a cama continua sempre vazia quando eu acordo ofegante e com a vista desfocada pela luz.

eu sempre odiei a luz. mas você era apaixonado por ela.

você era um raio de sol constante, que não se importava em erguer o olhar pro céu claro de início de dia e contemplar as nuvens se movendo acima de nós. mas eu só queria o negro da noite, o manto escuro que se estendia pelo céu e que as constelações manchavam em tons de branco e amarelo. era nessas horas que você corria pra mim e se enfiava no meio dos meus lençóis, me envolvendo em carícias e toques que me faziam ver mais estrelas do que o próprio céu era capaz de exibir. a única luz que eu podia suportar era a luz do luar que banhava a sua pele clara e me permitia enxergar teu rosto jovem e sonhador. e deus, como eu sinto saudades de ver todos os seus sonhos refletidos no seu olhar inocente.

você adorava o dia, mas eu sempre amei a noite. a noite e todos os nossos encontros noturnos e escondidos. a vida pulsava em nossas veias enquanto o resto da cidade dormia em silêncio. meus passos seguiam os teus, e você seguia por direções que mapa nenhum aprovaria, mas todos nossos destinos eram marcados por algo memorável. mas não o nosso. o nosso destino, ironicamente, foi sombra e luz. uma mescla ínfima da escuridão sendo invadida por um clarão que ofuscou tudo. em um segundo eu tinha o mundo em minhas mãos, e em um piscar de olhos o mundo inteiro havia sido roubado de mim.

era pras ruas estarem desertas, e pros sinais estarem vermelhos. era pras luzes da cidade serem as únicas a preencherem o nosso barulho silencioso da madrugada. era pras faixas claras pintadas no asfalto escuro representarem a sua claridade banhando a minha escuridão, e nada mais do que isso. não era pro vermelho ter se derramado e estragado a cena. não era pro farol claro e desgovernado ter irrompido no espaço vago entre dois corpos. não era pra sua última frase ter terminado assim, na metade. interrompida pra sempre e perdida entre uma série de palavras desconexas, das quais eu não consigo me lembrar, e entre o som acelerado de um motor.

quando a insônia não me atinge, e eu sou finalmente capaz de dormir, quase sempre tenho pesadelos com um flash de luz. eu me pergunto se, aonde quer que você esteja, você ainda prefere ela, ou se a escuridão se tornou sua melhor amiga. eu espero descobrir a resposta em breve.

é irônico, mas desde que você se foi, eu não gosto mais do escuro.

parado, no mesmo ponto sem vida e na mesma cena indelével,          eu espero por um feixe de luz.

você sabe o que é a vida? (10.01.2017)

“você sabe o que é a vida?” você gostava de perguntar. 

a crueza da tua alma me provocava. enquanto eu me escondida atrás de fortalezas de risos sarcásticos e olhares vazios, você exalava verdade e nudez. olhar para você era como adentrar em uma exposição de arte e se deparar com uma série de pinturas impressionistas. de longe, você era inteiro arestas e vértices. linhas afiadas, nítidas, ridiculamente bem delineadas. era preciso chegar perto demais pra perceber as manchas e as falhas, as pinceladas tortas e sobrepostas, que ainda assim se pareciam com uma bagunça organizada e repleta de sentido. a minha bagunça, ao contrário, era só isso. bagunça. eu era uma fotografia antiga desfocada e cujo filme havia sido queimado e estragado. enquanto você era uma galeria completa de arte, eu era uma fotografia descartada no fundo de uma gaveta escura. é por isso que às vezes eu achava que você era cristalino, e que seu olhar se demorava sobre o meu porque tudo que você enxergava era escuridão. um buraco negro em constante expansão, que destruía tudo que se aproximasse demais. porque eu era assim, destruição sem fim, demolindo tudo que ousasse atravessar a linha de segurança que eu fazia questão de pintar em tons de neon diante de mim. mas aí teus olhos tempestuosos como um mar em fúria sorriam pra mim, e buscavam outro ponto pra se perderem, e eu sentia, pela primeira vez, que você era imune aos meu veneno mortífero. que você podia se aproximar o suficiente sem ter a sua crueza corrompida pela minha inveracidade de sentimentos. você era um mar de águas rasas e claras e eu uma fossa inexplorada. “você sabe o que dizem sobre mergulhos profundos em pessoas rasas, não sabe? é tudo uma grande mentira” o timbre arranhado da sua voz dizia, e eu era incapaz de dizer se você se parecia com um clichê ambulante ou com um filósofo fora de época. “o importante não é o mergulho… o importante é o salto. é preciso ter coragem pra saltar, e a maioria das pessoas não tem isso… a maioria das pessoas tão tem coragem de viver” e as sua palavras me atingiam como uma porção de agulhas penetrando minha pele ao mesmo tempo. “o mergulho depende de alguém estar lá disposto a ser seu ponto final, seu destino… mas o salto, o salto depende só de você.” eu odiava suas palavras porque, ao contrário das minhas, elas carregavam uma dose exasperada de verdade.  a vida, você dizia, não é o mergulho. “você sabe o que é a vida?” e eu, ironicamente, sentia suas palavras palpitarem nos meus ouvidos a cada vez que eu me aproximava da beira do precipício e hesitava, criando raízes que não me permitiam sair da minha zona de conforto.

“ninguém evoluí sem sair da zona de conforto, sabia?” as suas palavras se pareciam com o ruído arranhado de um cd riscado. um elipse infinita de sons que eu repetia até que eles não fossem nada mais que isso. sons. mas a minha alma, adormecida sob uma tonelada de máscaras e armaduras, absorvia cada som e gritava, implorando por vazão. implorando pra que uma fresta da tua luz penetrasse os meus cantos mais obscuros e me indicasse alguma saída de emergência. mas eu tinha medo do salto, e eu tinha medo do mergulho. eu tinha medo dos segundos em queda livre que existiam entre um extremo e outro. eu era como uma criança que não sabia nadar e tinha medo de ser consumida pela água, mas os meus pulmões imploravam por serem obstruídos. eu era como um suicida que almeja se jogar de um prédio de cinquenta andares e chegar vivo ao chão, deixando pra trás as dores e todos os demônios que água benta nenhuma parece ser capaz de exorcizar. eu era um peso morto que a inércia mantinha no lugar, a espera de que algum evento extraordinário mudasse minha natureza. algum evento extraordinário que seria capaz de me purificar de dentro pra fora, de servir como antídoto pra todo veneno que eu sentia correr na minha corrente sanguínea. mas que evento desconhecido é tão poderoso a ponto de fazer isso? que evento era capaz de transformar um fim em um recomeço, um ontem eterno em um amanhã? é claro… eu gostaria de dizer que esse evento extraordinário tinha o seu nome, e o seu sorriso, e todas as suas características, mas você era incompatível. teu brilho ofuscava minha presença, e enquanto você se erguia como um Everest prestes a ser explorado pelo mundo, eu era um montinho de terra descartado. eu adoraria dizer que alguém com a tua vivacidade seria capaz de reverter os danos causados por uma implosão silenciosa, mas só uma alma tão danificada é capaz de reconhecer sua semelhante. mas a crueza da sua alma me cativava, e então você vinha, e eu ia. você era proximidade, e eu distância. teus olhares e sorrisos buscavam pelos meus, mas eu era um ponto fora da curva, perdida no espaço-tempo, esperando. esperando pelo evento extraordinário que me tiraria do marasmo do dia-a-dia que era minha existência. e eu esperava, sem perceber que o evento extraordinário acontecia todo dia. que ele passava diante dos meus olhos, mas que minha visão tão distorcida me impedia de ver. tudo que eu podia enxergar eram os obstáculos, e nunca os caminhos livres. porque minha visão era treinada pra isso, e porque era confortável. porque a zona de conforto era um lar seguro, que desmoronava sobre mim e eu, insegura, me apegava aos escombros. mas você… você insistia em querer limpar a sujeira. você queria ser o ponto final. mas você era uma brisa suave de fim de tarde, e as flores desabrochando na primavera, e eu era uma ventania desordenada derrubando as folhas no outono. você queria caminhar pra frente, pra cima, pra qualquer direção que resultasse em luz e mais luz, como um girassol que sempre busca pelo sol. eu só queria ir cada vez mais fundo, adentrar nos becos mais escuros até não ser capaz de enxergar nada, e então me fundir ao nada. eu só queria ser nada. e enquanto você tentava transbordar em mim até correr pelas minhas veias e curar minhas feridas, eu queria me convencer de que você não era esse evento extraordinário. 

e você não era.

você era o empurrão, me fazendo despencar em queda livre. e o evento extraordinário era o salto. e o salto… ah, o salto. o salto, você me disse uma vez: “o salto… o salto é a vida.” 

reflexo fosco de um amor perdido (09.01.2017)

quando você foi embora, eu achei que não ia passar. porque a sempre acha isso… acha que o mundo parou de girar, e que a vida não faz mais sentido. quando você foi embora, achei injusto ter deixado tanta coisa pra trás. pensei que o cheiro da sua loção pós-barba nunca fosse deixar os meus lençóis, e que seu perfume barato fosse continuar impregnado nas minhas roupas. pensei que a nossa música fosse tocar em um eterno looping sem fim em todos os locais pelos quais eu passava, e em todas as rádios que eu ouvia. pensei que todo mundo fosse continuar aparecendo na minha vida só pra perguntar sobre você. “ah, mas ele tá bem?” “o que aconteceu?” “você tem alguma novidade?” e deus, eu queria ter uma porção delas. eu queria saber como tinha sido seu dia, e se você tinha pensado em mim. eu queria saber se você tinha lembrado de colocar as roupas pra lavar, e se tinha pensado em mim. eu queria saber se você tinha terminado aquele trabalho pra entregar, e se tinha pensado em mim. será que você tinha pensado em mim? porque desde que você foi embora, minha única função era essa. pensar em você. pensar em você e nos seus cabelos cor do sol, e nos seus olhos cor de avelã. pensar em você e em como todas as minhas expectativas elevadas te distorciam por completo. você parecia o responsável por colocar as estrelas no céu, e o responsável por fazer os pássaros cantarem no fim da tarde. você parecia o responsável por colorir o mundo ao meu redor, e quando você foi embora transformou tudo em paletas de cinza. quando você foi embora, eu achei que não ia passar. achei que os sons não fossem deixar de se parecer com a sua voz, e que cada minuto arrastado fosse ser marcado por uma lembrança sua. achei que suas palavras fossem reverberar pela minha cabeça como uma cantiga infantil que não é esquecida jamais. quando você foi embora, eu pensei que um pedaço meu tinha ido junto, e eu lamentei que esse pedaço não fosse maior, que não fosse eu por inteira do seu lado. a vida passou a ser vivida sem vida. o tempo passou a ser passado e passado e passado. nunca presente, nem futuro. você foi embora e eu me perguntei como uma ausência podia ser tão presente. o teu fantasma me assombrava e eu pensava que minha dor era como o universo, sempre em constante expansão. quando alguém vai embora, a gente sempre acha que não vai passar.

mas passa.

o mundo continuou a girar, e a vida continuou a encontrar novos sentidos. de tanto lavar os lençóis, teu cheiro desapareceu, e minhas roupas preferidas voltaram a ter só o aroma doce dos meus perfumes. a nossa música toca de vez em quando, e eu de vez em nunca me apego a isso. não é o destino tentando me torturar e me arrastar de novo pra suas armadilhas. é só uma música, e eu conheço mais milhares como essa. perguntam de você e a minha melhor resposta é um sorriso que um dia pertenceu a você, mas que agora é só meu. “não sei, não espero saber.” será que você pensa em mim? porque eu penso. eu penso em mim o tempo todo. eu penso se já vou terminar aquele trabalho a tempo, se meu dia foi bom, se lembrei de colocas as roupas pra lavar. pela primeira vez eu sou capaz de olhar pro céu e perceber que as estrelas estão lá, assim como as cores ao meu redor. e você não é o responsável por nada disso. metade das suas palavras se perdeu em algum espaço do meu cérebro, e a outra metade perdeu o sentido. e o tempo passado passou a ser presente, e minhas expectativas voltadas pra suas mentiras se transformaram em planos pro meu próprio futuro. mas deus, a minha dor, ah… a minha dor era sim como um universo em expansão. e ela cresceu e cresceu, se multiplicou até ocupar cada partícula minha, até penetrar em cada entranha e me consumir por completo, ao ponto de que eu não era mais eu, e sim um reflexo fosco de um amor perdido. mas de repente eu era uma supernova, marcada por uma explosão brilhante que apagou qualquer rastro do seu efeito nocivo sobre mim. e foi aí que eu percebi que um fim é só uma nova chance de recomeçar. e no meio de um momento de clareza, eu te agradeci. 

e foi aí que eu percebi que encontrei aquilo que eu tanto procurava em você, em mim mesma: amor.

cinquenta por cento vermelho, cinquenta por cento amarelo (07.01.2017)

cinquenta por cento vermelho, cinquenta por cento amarelo.              laranja.

(a cor dos campos de girassóis.)

você se parece com uma criança aprisionada no corpo de um homem. você gira e gira e gira em torno dos girassóis. os braços abertos, a alma lavada. o sorriso radiante de orelha a orelha parece querer competir com o sol… e por algum motivo você vence. você vence cada vez que sorri pra mim e aquece todo meu corpo, sendo mais eficaz que qualquer raio ultravioleta. você reluz em tons tão quentes que me cegam, e isso é tudo que eu posso ver… a cor dos campos de girassóis.

(a cor dos raios que refletem na parede no fim da tarde quente.)

seus pés repousam sobre a mesinha de centro, e eu mantenho minha cabeça deitada no seu colo. seus dedos deslizaram pelos meus cabelos em uma carícia tão suave quanto a brisa quente que faz as cortinas dançarem. você sussurra juras de amor e eu repito elas no fundo da minha mente, memorizando cada palavra. o centro do universo é aqui e agora. a luz do sol pinta a parede branca com tons mesclados de laranja, e isso é tudo que eu posso ver… a cor dos raios que refletem na parede no fim da tarde quente.

(a cor do céu manchado pelo pôr-do-sol.)

o som das ondas que escorregam uma sobre as outras e se quebram na areia. suas pegadas crescendo ao lado das minhas, um passo após o outro. a água cristalina e salgada apagando os nosso rastros. seus dedos entrelaçados aos meus apertam minha mão, e eu não sei onde você termina e eu começo. minhas extremidades borradas se misturam as suas, tão nítidas. o sol tão baixo que chega a beijar o horizonte, e então sua boca encontra a minha. isso é tudo que eu posso ver… a cor do céu manchado pelo pôr-do-sol.

(a cor da tua pele nos dias de verão.)

você rola pelo gramado recém cortado, deitando de bruços e dando as costas pra mim. eu te chamo, mas minha voz não te alcança. eu te toco, mas meu toque frio se desfaz em pedaços na sua pele quente. você vira o rosto, e seu olhar cálido recaí sobre o meu, em um silêncio que grita. o sol tinge sua pele em uma paleta de cores vermelhas, amarelas, douradas, cobre. laranja. e isso é tudo eu posso ver… a cor da tua pele nos dias de verão.

(a cor das suas pílulas.)

eu sou um porto seguro no meio da tempestade, e você é distância. os lençóis brancos se combinam com seus pensamentos bagunçados, desordenados, revirados. a água da banheira transborda e escorregue pelos azulejos amarelados pelo tempo. você é um relógio parado no tempo, que não consegue se mover sozinho. uma, duas, três. você consome uma porção de remédios que são laranjas e laranjas e laranjas, antes que o mundo consuma você. e isso é tudo que eu posso ver… a cor das suas pílulas.

(a cor dos filtros dos cigarros gastos com você no pensamento.)

você deságua em mim e eu transbordo, incapaz de conter todo o peso da sua ausência. o teu sorriso radiante de orelha a orelha desaparece em meio ao breu da madrugada e eu não te acho mais em mim. faz frio, e nenhum tom parece capaz de aquecer o ar gélido que corta a noite. as luzes amarelas da cidade, apagadas. os faróis vermelhos e verdes, verdes e vermelhos, nunca meio tom. eu te busco em campos de flores, em finais de tarde, em inícios meios e fins de madrugadas. no verão, nas quatro estações. no outono eu penso te ver, mas você caí diante de mim e a primeira neve te leva embora. eu só tenho você entre os deus dedos, perto dos meus lábios, em meio ao gosto amargo e a neblina branca. e isso é tudo que eu posso ver… a cor dos filtros dos cigarros gastos com você no pensamento.

(a cor dos seus cabelos esparramados pela fronha branca do meu travesseiro.)

delírios, devaneios e algo mais. o tic-tac, tic-tac do relógio arrastado e funcional, marcando as horas, os dias, o tempo. eu vejo o sol manchar as paredes, os móveis, os lençóis brancos bagunçados. os filtros de cigarros abandonados sob as jardineiras. eu vejo os girassóis do lado de fora se voltarem todos contra os céus, em busca de algo além daquilo que o mundo é capaz de enxergar, mas que eu vejo. queimando na minha retina em tons de fogo e brasa. as folhas de outono esquecidas na porta da frente. a escuridão em mim reluzindo com um fio de luz que o seu sorriso de orelha a orelha propaga, como ondas de calor. um fim de tarde quente. a cor dos seus cabelos esparramados pela fronha branca do meu travesseiro. laranja. e isso é tudo que eu posso ver… você.

até que o infinito se torne finito (06.01.2017)

Eu sempre me perguntei o porque de a gente se completar tão bem, como duas peças cujo encaixe perfeito já parecia pré-determinado desde o início dos tempos. Antes do universo entrar em colapso, no meio de todo o caos sem fim, eu já era sua. Eu sempre tentei entender porque o teu olhar misterioso sempre se pareceu com uma espécie de espelho da minha alma, e porque o teu abraço quente me fazia sentir em um porto seguro. É assim que a gente se sente quando encontra alguém que é capaz de completar a gente?

Os teus medos e angústias eram os meus próprios, e seus sorrisos tão repletos de prazos de validade eram reflexos dos meus. As pontas dos seus dedos corriam pela minha pele e cada célula do meu ser passava a pertencer a você. Tão simples, e tão fácil. Tão ordenado em meio a toda nossa bagunça. Cada toque seu era uma melodia nova sendo gravada na minha pele, no meu íntimo. Uma partitura que só você era capaz de compor e interpretar. Cada vibração da sua risada sonora contra a curva do meu pescoço era um tom do arco-íris que ficava gravado na minha memória, e cada palavra sua despertava um emaranhado de constelações na minha visão. Nunca foi tão fácil ver as estrelas como quando eu tinha você do meu lado. Olhar pra você era como encarar o sol e saber que, cedo ou tarde, eu acabaria me queimando, e ainda assim ser como Ícaro e voar em sua direção. Numa rota de colisão, era sempre em você que eu acabaria colidindo e me fazendo em pedaços, como um meteoro em fragmentos. E eu não me importaria em me partir em mil caquinhos nas suas mãos (porque você sempre me desmonta, mas cada beijo seu me faz inteira de novo). Ter você é como ter meu universo particular.

Eu lembro de acordar de madrugada, com o som das teclas de um piano antigo sendo acariciadas por você. O ritmo melancólico e doce das suas canções invadia as paredes do meu quarto e eu sabia. Eu sabia que era pra ser você e os seus fantasmas e demônios a se apaixonarem pelos meus. Eu sabia que era você e seu passado conturbado a se mesclar com meu presente bagunçado, na esperança de que na soma de iguais algo diferente surgisse. Mas não é assim que a matemática funciona, você me disse. E eu tentei rebater. Eu tentei rebater porque entre eu e você, nada segue as regras. Dois iguais deviam se repelir, mas você me atraí como a gravidade que me faz manter os pés no chão (enquanto você me faz flutuar). Newton dizia que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, mas você sabe que isso é mentira. Você sabe que basta a gente ficar perto pra provar que onde você está, eu também estou, e que é sempre assim. O tempo todo.

Eu orbito em torno de você como se você fosse meu próprio ponto de equilíbrio. Um planeta desconhecido em uma galáxia perdida, onde eu sou a única capaz de habitar. Um planeta repleto de marcas de colisão orbitando em torno de um buraco negro, esperando pra ser engolindo mas resistindo a todo custo. É assim que você é. Um perigo constante. Uma sentença declarada de morte, que eu não me importaria em assinar. Será que é assim mesmo que a gente se sente quando encontra alguém que é capaz de completar a gente? Como se estivesse finalmente adentrando em uma casa na qual a gente já esteve antes? Uma casa onde mesmo em meio a escuridão, é possível reconhecer cada móvel, cada pedacinho da sala, dos quartos… reconhecer cada quadro pendurado na parede. Uma casa onde você é capaz de dizer o nome de todos os livros escondidos nas estantes, e onde você encontra seu caminho mesmo em meio a todos os corredores e portas fechadas. Como reencontrar um lar pedido. Porque é assim que você me faz sentir. Como se eu estivesse me encontrando com algo que já me pertencia antes mesmo de eu saber. Como se você já estivesse presente na minha vida antes mesmo da minha vida ser vida. Encontrar você é como encontrar com um ponto de referência feito especialmente pra mim no meio de um universo de pessoas que vem e vão. Mas você só vem, vem e vem. E fica. Sempre fica.

É por isso que eu sei que sempre vou ser capaz de te reconhecer. Ah, Deus sabe que eu vou. É por isso que teu olhar acastanhado sempre vai me atrair mais que todos os tons cinzentos, azulados e esverdeados. É por isso que em meio a oceanos, eu sempre escolheria um porção esquecida de terra. A tua voz arranhada sempre vai ser o meu som preferido, que eu poderia escutar até que o infinito se tornasse finito. Meu corpo nunca vai entrar em combustão como uma supernova surgindo senão quando você me tocar, provocando um rastro de fogo por cada centímetro meu. E eu nunca vou gostar tanto de me queimar. Porque você é fogo, e eu não me importo em ser consumida por você até me transformar em cinzas. Eu não me importo contanto que você não se importante também. Porque a sua bagunça se parece com a minha, e nosso caos se organiza em torno um do outro.

Eu sempre me perguntei o por que de a gente se completar tão bem. “Por que você é um pedaço perdido meu.” Você sempre me respondeu.

relatividade (08.01.2017)

relatividade. antes de você sonhar em aparecer na minha vida e bagunçar os meus relógios, albert einsten escreveu que o tempo varia de acordo com a velocidade que o objeto se movimenta. relatividade. mas e se o objeto não se movimenta? e se o objeto se encontra numa paralisia venenosa desde que você se foi? e se tudo é estático, e nada é movimento? se o mundo parou de girar, e os significados perderam os sentidos? e se a vida perdeu o por quê e eu a razão? albert einsten não disse que o tempo para, mas ele parou. parou no segundo em que a porta bateu, em que o silêncio impregnou o ar de casa, em que seu lado da cama esfriou. parou no momento que seu olhar se perdeu com o de um outro alguém, que um sorriso desconhecido na rua já não era o teu. parou. antes de você sonhar em aparecer na minha vida e bagunçar os meus sentimentos, alguém falou que o tempo cura tudo… e é por isso que eu choro no meio da noite. porque o tempo não passa, e a ferida não fecha. porque os ponteiros do relógio sentem inveja do meu interior e resolveram quebrar também, assim como os calendários, que perderam a função. porque todo dia é sempre o mesmo dia. aquele dia cinzento, fim de agosto, com você juntando as malas. todo dia é um eterno agosto repleto de desgosto, sem fim. sem afluentes pra seguir outra direção, só com uma via principal que termina sempre em solidão. e o tempo não passa. a vida ao meu redor se movimenta em solavancos e vai e vens que não cessam, e o mundo gira, mas aqui, dentro de mim, é tudo imóvel. “quando você chega, o tempo parece voar” você me disse uma vez. “quando você vai, o tempo parece parar“ eu nunca tive a chance de responder. relatividade.

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Ontem coloquei dois pratos na mesa, na esperança de que a qualquer instante você batesse na porta e perguntasse: “E aí, querida, o que tem para o jantar?” Mas a demora da espera fez com que a comida esfriasse, e as velas sobre a mesa beijassem a base do castiçal, até perderem suas chamas. Pensei em pegar o telefone e ligar para você, mas aí lembrei que seu número já não fazia mais parte de minha lista telefonica. Ainda assim, meu cérebro traiçoeiro e isento de amor próprio fez questão de reviver suas memórias e provar que em algum lugar, aqueles oitos dígitos ainda estavam gravados em mim. Assim como sua voz permanecia gravada em meus ouvidos, seus beijos doces em meus lábios, e seu aroma em meus lençóis. Pensei, re-pensei e depois de pensar, desisti. Dizem que se você pensar demais, você deixa de fazer as coisas, lembrei e concordei. Busquei dentro de mim aquele sorriso tão meu, que outrora passara a ser seu, e coloquei-o no rosto, ignorando o vazio que se alastrava dentro de mim, e o tiquetaquear dos ponteiros do relógio que gritavam para mim: Não espera, menina. Não espera porque ele não vem. Sem deixar o sorriso se perder em meio as lágrimas, guardei as velas. Joguei o que restava da comida quase que intocada na lixeira, e deixei as rosas sobre a mesa, na esperança de que quando estas começassem a se tornar desbotadas e desprovidas de vida, levassem com elas minha dor. Deixei a porta aberta, mesmo sabendo que aquela chave junto do chaveiro com as nossas iniciais ainda estava com você — mas preferia pensar que não. Preferia pensar que se você voltasse, iria gostar de encontrar a porta aberta. Não só a porta da frente, mas também as laterais e principalmente as do meu coração. Sim. Eu sabia que a porta da frente não tornaria a se abrir, mas aceitar isso era como aceitar que eu não havia sido o suficiente. Que nós não éramos o suficiente. Então, em meio a toda dor deixada naquele cômodo, acreditei. Acreditei que após um fim, sempre há um novo começo. E esse era o fim. Você gritando, eu chorando, fotos sendo rasgadas, e a porta batendo. Esse era o fim (e eu, ironicamente, esperava que o novo começo fosse a porta se abrindo, e você sorrindo) (bel♥vesick)

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Eu estou com tanta, mais tanta saudade de você. Eu tenho preenchido meus dias com coisas fúteis, comédias americanas, pessoas sem graça, e venho tentando me encantar com outros sorrisos, outros olhares… Mas enquanto eu vou tentando me enganar, e fingir que minha vida sem você é extremamente suportável, meu coração vai se entregando cada vez mais a dor e bombeando verdades para todo meu corpo. Verdades que gritam que eu me importo demais, por mais que não demonstre. Que eu te amo demais, por mais que não se importe… Que essa sua ausência e esse seu silêncio estão me causando uma dor tão grande, que parece rasgar todo meu interior, e passar por todas as barreiras reforçadas com a pouca força que me restava, mas que desaparece sempre eu percebo que não te tenho mais. Eu tenho me sentindo tão pequena e tão frágil, como se qualquer palavra dita sem pensar fosse capaz de me derrubar ou de passar por cima de mim, porque no chão eu já estou. Parece que tudo que antes era felicidade, agora deu lugar a essa tristeza que não me deixa mais respirar sem me causar sensações ruins, como se algo dentro de mim continuasse se quebrando, se desfazendo em pedaços tão pequenos que eu jamais seria capaz de reconstruir. Suas palavras continuam fixadas em algum lugar dentro de mim, e parece que o seu efeito se recusa a passar… Parece que eu estou em constante desespero, correndo em círculos atrás de uma saída de emergência, mas tudo que encontro são portas trancadas a sete chaves, que me sufocam. O meu sorriso já não me pertence, a minha risada parece muda perante meus ouvidos, e todo e qualquer vestígio do que antes costumava ser meu, desapareceu por completo. Eu já não me tenho, já não me encontro… Tudo que eu vejo dentro de mim é o que restou de você. É esse pretérito indefinito tão singular que me assombra desde a hora que eu me deito — e me entrego a insônia que se apresenta com o teu nome — até a hora em que, por pura obrigação, me levanto. As minhas palavras, as minhas emoções, os meus desejos e sonhos se perderam nesse mar de dor que insiste em me arrastar correnteza abaixo, e eu já desisti de remar contra a maré. Eu já desisti de encontrar em outros corpos a paz que só havia em você, e de buscar em outras esquinas aquele seu perfume que me propiciava uma visal real daquilo que chamam de conforto. Deus, porque ao partir você não me deixou ao menos um pouco de você? Não me deixou ao menos um adeus, acompanhado de um “volto logo” para que eu ao menos pudesse dormir em paz? Para que quando o relógio marcasse três da manhã, essa minha necessidade de você não se tornasse tão violenta a ponto de me consumir por inteira. Isso tem me matado, e eu tenho me acomodado com esse suicídio a longo prazo que encurta meus dias, e eu tenho me apaixonado por ele e pela ideia de romper com toda e qualquer forma de vida que ainda possa haver dentro de mim. Eu tenho me apaixonado pela ideia de deixar para trás toda essa atmosfera que grita seu nome, e me obriga a fazer do meu oxigênio você. E essa insanidade, essa insanidade que me faz pensar na ideia de me perder pra ver se assim consigo te encontrar, perdido em algum espaço em meio ao vácuo, onde minha lembrança não te maltrata tanto assim. Você me maltrata tanto, tanto. Você pega tudo que há de bom em mim, e rouba pra você, mas me deixa assim, vazia e sozinha. Por que você não me rouba por completo? Por que você não vem me buscar? Por que você não me acorda com um beijo e me prova que tudo não passa de um pesadelo que se alojou em minha cabeça por mais tempo do que deveria? E eu… Logo eu… Por que eu não esqueço? (bel♥vesick)

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Eu não sei quem é você. Não sei qual é a cor exata dos seus olhos, ou como é a textura da sua pele. Não sou capaz de imaginar com precisão como deve ser lindo o seu sorriso, e não faço ideia de quantos sorrisos diferentes você tem — e nem o que provoca cada um deles. Eu não sei como é o seu cheiro… Não sei como deve ser a sensação do seu toque quente em minha pele fria, e nem da sua voz manhosa me fazendo provocações ao pé do ouvido… Querendo que eu perca o controle. Querendo que eu te chame de meu. Eu não sei como é o seu nome, quantos anos você tem, ou qual a rua em que você mora. Eu também não sei se esse espaço entre os meus dedos é o encaixe perfeito para os teus. Ou  se esse pedaço de alma que me foi roubado habita dentro de você, ansiando por mim do mesmo jeito que anseio por você — e algo dento desse meu coração maltratado grita que nunca vou chegar a saber. Mas eu me pergunto se você sabe, com exatidão, o tamanho do amor que sinto por você. Se você sabe qual a estrada errada na qual seguimos, que acabou fazendo com que nos perdessemos. Não, não nos perdemos… Não nos perdemos porque eu nunca cheguei a te encontrar… Porque você nunca cogitou a ideia de parar de fugir e ficar. Ficar comigo por um tempo, por um pra sempre. Me pergunto se você concordaria comigo se pudesse me ouvir agora. Eu não sei quais são seus pensamentoas antes de se deitar, ou como é o seu humor ao se levantar… Mas aposto que caso questionado, você saberia responder sobre os meus. Eu sempre fui transparente demais, não é? Você sabe meu nome, sobrenome, onde me encontrar. Você reconhece esse castanho envernizado que colore meu olhar de longe, e conhece bem os meus sorrisos— especialmente aquele sorriso que só você coloca no meu rosto. Conhece minha evidente falta de controle, e minha força para lutar contra a ideia de uma possível desistência. Eu prometi não desistir. Eu prometeria não desistir, mais uma vez, se no meio desse caminho a desistência já não me houvesse sufocado. Eu não sei quem é você, mas sei que esse amor que me preenche é indiscutivelmente e insanamente seu. E sei que você não está mais disposto a aceitá-lo, mas que no fim do dia se pergunta o mesmo que eu: Por que só não amar não foi o bastante? Não foi falta de amor… Foi falta de verdade. Foi excesso de mentira, convertida em verdades convenientes que não sustentavam os paredes do nosso mundo. Foi confiança demais depositada onde não havia nada que pudesse ser cultivado. Foi eu tentando chegar até você… Foram dois passos para frente, e quatro para trás. Fora a distância não física, mas mental que se instalou entre nós. Foi o excesso exageirado da palavra acreditar, e práticas exacerbadas do verbo esperar. Esperar por ligações que não se completavam, por cartas rasbicadas a mão que acabavam esquecidas em gavetas… Esperar por amor que trancafiado ao orgulho, não sabia que caminho seguir ou qual seu ponto de chegava. E era eu. Eu, parada em meio ao vácuo do mundo, remendendo as paredes deste com resquícios de verdades esgotáveis. Eu era o ponto de chegada. Esperando. Imersa nessa total ausência de você. Imersa nessa total insegurança, nesse desespero enlouquecer de não saber quem é você. E era você… Derrubando nossas paredes, e gritando para o mundo que não… Não somos sempre. Somos nunca. Foi a ausência do significado de esquecer… Esquecer de você. (bel♥vesick)

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Você só se dá conta da falta que uma pessoa faz quando seus dias sem ela parecem intermináveis. Um dia invade o outro, uma semana invade um mês, e os meses se transformam em anos. Então, usufruindo de sua própria ausência você se vê largado em um canto qualquer, sufocado por uma neblina esbranquiçada com cheiro de cinzas que paira no ar, e por copos com resquícios de bebidas esquecidas e ― agora mornas pelo gelo derretido ― que já não embrigam o bastante para fazer com que as memórias de tudo se transformem em memórias de nada. O relógio inconstante parece quebrado, mas por alguma irônia do destino seus ponteiros ainda marcam três manhã, e por uma irônia ainda maior você se encontra entorpecido, com um telefone em mãos e uma chamada que não se compl… ― Alô? ― Sua voz me atinge, me fazendo lembrar como eu sou dependente de você. (Sua voz podia ser a minha canção preferida. Podia.) ― Alô… Sou eu ― Digo estúpida, sabendo que sua maior vontade agora e retroceder esses dois segundos e ignorar essa ligação. Não, na verdade essa é a minha maior vontade. ― Você… E o… ― Não, não fala nada, por favor ― Imploro com a voz repleta de lamúrias, agonias intermináveis e acumuladas ― Só me escuta, por favor. Você sabe que dia é hoje, não sabe? Eu sei que você sabe, porque eu estive tentando te fazer lembrar dessa maldita data durante toda a semana. Sabe aquelas centenas de mensagens eletrônicas deixadas na sua caixa postal, com um número desconhecido? Você sabe, era eu. Era eu tentando dizer que eu ainda me importo demais pra deixar que você passe por essas 24 horas sem ao menos se perguntar o que teria sido de nós dois. Ontem de noite, enquanto eu esperava o tempo passar e o relógio marcar logo meia noite, para eu dar início ao meu ritual insano e masoquista de esperar por um sinal seu, eu finalmente percebi que minha vida é uma farsa sem você ― Ouço sua respiração descompassada do outro lado da linha, e talvez minhas palavras nem sejam assim tão importantes… Talvez você não precise escutá-las, afinal ― Você… Você está me ouvindo? ― Sim ― Você diz depois de algum tempo, com a voz cansada, conturbada. Eu me perco em nossos cobertores, procurando algum rastro do seu cheiro, já substituido por outras colônias baratas que dificilmente acalentam meu desespero. ― Então, depois de chegar a conclusão de que minha vida é uma grande farsa, eu cheguei a conclusão de que você é a pior coisa que já me aconteceu. Eu pensei em ir até a sua casa e gritar na sua cara o quão canalha você é. Canalha, desgraçado, filho da puta, maldito… Você sente orgulho de ser tudo isso? Droga, eu sei que isso te corrói por dentro, mas a questão é que desde que você foi para cama com outra, me deixando existir só no seu passado, minha cabeça só sabe te odiar. Eu espero que você saia de casa e que o mundo desabe sobre a sua cabeça, que você se perca em um beco escuro, que você manche a sua melhor camisa com aquele maldito café dscafeinado que você tanta gosta. Eu espero que as mulheres que terminam o dia na sua cama e nos braços que costumavam ser meu abrigo, tenham o meu cheiro, só para você se torturar, só para você se contorcer em meio a carícias frias que não se comparam as minhas. Eu te odeio, mas o problema em te odiar é que eu… ― Não consigo encontrar a minha voz… Eu espero que o telefone esteja mudo, que você tenha se cansado e desligado, e que esse simples ato seu acabe com as minhas expectativas e um novo começo. Mas a sua respiração e o chiado do seu telefone me fazem ter certeza de que você continua aí, ouvindo minhas bobeiras. Por um segundo, eu espero que você me mande calar a boca e diga como eu sou incrivelmente boba por não acreditar no seu amor… Mas você continua em silêncio. Você não me surpreende. ― Você me odeia ― Eu deveria te odiar, eu sei. Então porque no meio desse ódio todo, a minha vontade de você ainda parece ter voz própria e gritar? Implorar por você? Se você soubesse como a sua ausência me maltrata, me destrói… Como a sua ausência interminável me reduz a nada. ― Eu te odeio. Eu te odeio porque eu estive lutando por nós dois durante esses malditos quatorze meses, e eu jurei a mim mesma que eu seria forte e que não desistiria de nós dois, garoto. E você, você me deixou fraca. Você me fez desistir. Você parece não se importar em estar me perdendo. ― Ei, olh… ― Não, me escuta! Eu te odeio porque você me transformou em uma garotinha fraca, indefesa, que tem medo de seguir os próprios passos. Você pegou toda a minha força e foi embora com ela, e me fez insegura. Eu me sinto tão, tão pequena e quebradiça. Eu tenho medo de encontrar novas pessoas, tenho medo de me encantar com sorrisos, de me perder em olhares. Eu tenho medo de me apaixonar por outros perfumes, porque eu tenho medo de ver meu mundo sendo estilhaçado de novo. Eu tenho medo até mesmo de sair da cama pela manhã, porque eu sei que o seu nome vai estar por todos os lugares nos quais vou estar. O som da sua risada ainda vai me perseguir, e eu ainda vou esperar encontrar você usando um daqueles seus suspensórios desgastados, e trazendo no rosto aquele seu sorriso irritante, em cada uma das esquinas em que eu dobrar. Fazem exatos trinta e dois dias desde que você me deixou para trás, e eu ainda me pergunto por que é que você continua fazendo parte dos meus dias. Me explica isso, por favor. (Silêncio.) (Se você soubesse a falta que você me faz.) ― Eu sinto muito. (Três e vinte e sete da manhã.) Você sente muito por ter entrado na minha vida? Por ter deixado te fazer parte dela? Me diz, por que eu não entendo. Você sente muito por ser o único homem capaz de me fazer sentir completa e viva? Por ser o único que consegue me fazer ir até o inferno e depois me levar de novo ao paraíso? Por que eu sinto muito também. Eu sinto muito por ter deixado que você fosse tudo isso… Eu sinto muito pela minha cabeça que deixou de entender o significado da palavrão razão, e aderiu a tamanha insanidade. Eu sinto muito por ter sobrecarregado meus ouvidos com o timbre delicioso da sua voz, e de ter acostumado meu corpo aos seus toques quentes e urgentes. Eu sinto muito por ter te entregado meu coração, e por ter deixado que você marcasse-o com inúmeras cicatrizes e feridas que não fecham. ― Você não sente muito ― Desisto… Assim como já desisti de você, de mim… Assim como já desisti de nós… Desisto das minhas palavras. ― Eu não confio em mim mesmo quando estou do seu lado, e você sabe disso ― Não, eu não sei. Eu não quero saber. Eu não quero deixar que a sua voz destrua minhas fortalezas. Eu só quero que isso acabe. Por que você não me rouba para você de uma vez? Por que você não deixe de se importar com o resto do mundo, e se impora apenas com nós?  ―  Você sabe que você acabou com todo e qualquer motivo que eu pudesse ter para seguir em frente. Você me tirou a vontade de fazer planos, porque com você eu aprendi que eles não se realizam. Você me deixa com medo, você me deixa inseguro e me deixa perdido… E eu odeio me sentir assim. Eu posso viver sem você, e você pode viver sem mim, mas o problema é que minha vida sem você nunca mais vai ser a mesma. O problema é que todas essas garotas que acabam na minha cama e que você tanto odeia, todas elas tem um pedaço teu. O que eu faço com isso? O que eu faço com essa necessidade de seguir em frente que sempre acaba sendo destruída toda vez que uma garota que tem a mesma cor dos seus olhos, ou que usa o mesmo perfume que você costumava usar, ou até mesmo que tem o seu nome acaba nos meus abraços? O que eu faço quando a minha maior vontade é substituir todas elas por você? (É sempre assim… Você sempre me ganha fácil demais.) O que eu faço com esse vazio que você causou? O que eu faço quando as coisas não fazem sentido quando você não está? O que eu faço quando te vejo seguir em frente, mas simplesmente não consigo sair do lugar? ― Não… O que eu faço com esse vácuo que você deixou na minha vida? Com esse buraco negro que você plantou dentro de mim e agora suga todas as coisas boas que tentam me fazer seguir em frente? Você ao menos se lembra dos nossos planos? Lembra quando combinanos de fugir juntos e de como as coisas pareciam perfeitas naquela época? Eu e você, a nossa casa e o nosso colchão. A gente nunca precisou de coisas materiais. A gente sempre se bastou, e porque foi que isso deixou de ser o bastante? Quando foi que aqueles planos bobos de passar a madrugada inteira acordados, perdidos um nos braços do outros, falando sobre coisas desconexas como a cor das minhas unhas ou sobre a suas fobias estranhas deixaram de existir? E aquele beijo de baixo da chuva, ou aquela briga por ciúmes que teríamos na praia? Eu não vou poder vestir a sua camisa quando acordar, e não vou poder sorrir ao notar que o seu cheiro ficou impregnado em mim. Eu não vou poder te levar torradas na cama, e nem te chamar de meu… Então me diz, o que é que eu faço com todos esses planos que agora já não são mais o bastante para nos manter unidos? Me diz o quem é que vai me acolher quando eu estiver me sentindo desprotegida? De quem é que eu vou cuidar em noites de tempestade? Nada disso faz sentido se não for com você. Eu não quero outros perfumes, outros braços, outros planos. Eu quero os nossos, eu sempre quis eles e eu continuo querendo ― E droga, há uma grande possibilidade de eu continuar querendo, mesmo que esse seja o nosso fim. O nosso fim de verdade ― Devíamos ser eu e você, acima de tudo e de todos. Devia ser algo natural, confortável. Eu devia continuar sendo só sua, e você sendo só meu… Eu ainda te pertenço, e injustamente você já pertence a outras. Era pra esse amor ferido e orgulhoso bastar, mas ele não basta. Era pra esse meu ódio ser capaz de me manter longe de você, mas ele só faz com que eu sinta mais a sua falta. Ele vem me maltratando a dias, arranhando todo meu interior e me fazendo dar passos falsos até você. (Eu te odeio. Eu te amo.) (Eu te amo até mesmo quando te odeio.) Eu sinto tanto a sua falta, e do que costumavamos ser. Sinto falta de saber que o seu sorriso é meu, que meu nome te faz arrepiar e que seu coração se agita com a minha presença. Você sente saudade? Saudade da minha voz ao pé do seu ouvido sussurrando seu nome, te chamando de meu. Você sente saudade das minhas declarações bobas durante o dia? Você sente saudade de nós? Não, não existe nós. Existe você e existe eu… Eu sinto tanto falta do nós. ― São três e meia da manhã e eu só queria te ligar pra ouvir a sua voz ― Admito, ignorando aquilo que chamam de amor próprio, e jogando o que me resta de orgulho no lixo. Admito sabendo que o simples fato de ouvir a sua respiração do outro lado da linha já me faz perceber que eu não mudaria um só segundo do que passei do seu lado… ― Eu não mudaria nada ― Deixo as palavras soltas, e de repente esse silêncio que se instala entre nós dois me parece familiar, idêntico ao silêncio que se fez antes de você me deixar. ― Eu mudaria a parte em que acabou. ― Eu não queria que nos perdessemos. ― Mas nós já nos perdemos, peq… ― Não, não diz isso. (Me deixa acreditar que isso tudo é só mais um obstáculo, e que no meio desse labirinto todo nós dois ainda conseguimos nos encontrar.) Me deixa acreditar que você ainda pode me encontrar dentro de você, mesmo que esquecida… Assim como eu ainda posso te encontrar aqui, gravado em mim. ― Eu preciso tirar você da minha cabeça. ― Eu preciso tirar você da minha vida. (Preciso. Não quero.) E o silêncio, de novo, me faz perceber que não resta nada. Eu já não sou o bastante para você, e você ainda permanece em excesso dentro de mim. A saudade que eu sinto de você e do que você era do meu lado já não é milagrosa a ponto de fazer você ficar do meu lado, só por mais alguns instantes. Talvez você esteja certo, e talvez esse amor tenha se perdido. Talvez nós ― não, eu e você ― tenhamos nos perdido. Mas se for isso, por que eu ainda te encontro? Te encontro em cada pedacinho meu, em cada sussurro perdido que escapa dos meus lábios antes seus… Encontro você em cada pensamento que me invade antes de dormir e em cada pensamento que me desperta pela manhã. Nos meus melhores momentos, nos meus piores, eu te acho sempre, perdido e esquecido aqui, em cada mínimo detalhe meu. Eu não consigo te tirar de dentro de mim. Eu não consigo me perder da tua presença, de você… Então, se a gente se perdeu, por que é que eu ainda te encontro? Sempre? Por que é que você ainda faz parte de mim? ― Me escuta só mais um pouco… ― Você não me responde, e eu tento controlar minha vontade doentia de implorar para que você deixe de ser tão teimoso e venha logo terminar a noite do meu lado, perdido nas minhas cobertas, preenchendo os espaços vazios da minha cama ― Eu sinto a sua falta. Eu me culpo todos os malditos dias por não ter insistido mais em nós dois. Eu me culpo todas as noites por não ter sido forte para te mandar calar a boca todas as vezes que você me mandou embora. Eu sinto muito por ter jurado não deixar que o nós chegasse ao fim, e mesmo assim ter que ter desistido de nós. Eu amo você, e eu sei que é pra sempre… ― Por favor… Não fala essas coisas… ― Me deixa terminar, eu já vou desligar ― Eu já vou me perder por completo de você. ― Eu sinto a sua falta também, escuta. ― Eu só queria que você soubesse que todas as vezes que me distanciei, foi na esperança de que você me puxasse para perto… Quando você disse que nosso amor não era o bastante, eu só queria que você, assim como eu, estivesse disposto a mudar isso. Eu não queria ter que esperar os meses passarem, para poder te ligar nesses malditos dias em que lamentamos os nossos aniversários de um namoro que já deixou de existir há muito. Eu não queria ter que me enganar e forçar sorrisos para que todos acreditem em um bem estar que não existe… Mas eu não queria tanta coisa, que de uma maneira ou de outra acaba sendo inevitável. Eu não queria que a minha vida se distanciasse da sua. Eu não queria ser a ex-psicótica que te liga as três horas da madrugada para dizer que se sente a sua falta. Eu queria apenas ser aquela aparece na sua porta, todos os dias, as três da manhã, pra dizer que te ama e que sente muito por ter tropeçado em tantos erros, tantos meus quanto teus. Eu só queria que meus acertos pesassem mais. ― Eu amo você. (Então por que você deixou de acreditar em nós?) (Então por que você deixou de acreditar que nosso amor era o suficiente?) ― Eu sei. (Silêncio) (Quatro e quinze da manhã.) ― Se cuida ― Você sussurra. (Eu quero ser cuidada por você.) ― Se cuida também… Amo você, tenta lembrar ao menos disso, por favor… Me esquece, mas não esquece desse meu amor ― Minha voz arrastada denuncia minha necessidade de prolongar o momento, que logo acaba. O telefone fica mudo, a sua respiração desaparece. Eu ainda sinto sua falta… E o silêncio que preenche a linha, e ensurdece meu interior me faz aceitar que como fora dito a princípio, minhas palavras não mudam nada. A sua ausência que permanece tangível e imutável me faz perceber que chegamos ao nosso fim… E esse coração ferido que ainda bate, mesmo que fraco, mesmo que em uma contagem regressiva… finalmente cede, e finalmente diz à linha muda: ― Adeus, amor. (bel♥vesick)
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(…) Mas, deixa eu te pedir um favor? Não vai embora. Não joga todos esses meses no lixo como se eles já não tivessem mais importância alguma pra você. Não desvia o olhar enquanto diz que chegamos ao nosso fim, porque isso só prova que assim como eu, você também não acredita nisso. Então fica. Fica comigo por mais algumas semanas, alguns meses — anos, quem sabe. Eu juro que tento dar o meu melhor, só pra você poder virar e dizer que valeu a pena tentar de novo. Eu prometo que deixo todas minhas manias chatas de lado, e que tento transformar meus piores defeitos em qualidades meia bocas. Tudo por você. Tudo pra sua voz continuar sendo o primeiro som que eu escuto ao despertar, e pro seu beijo molhado e quente continuar sendo a chave perfeita para fechar todas as minhas noites. Não foge de mim e do meu abraço sufocante. Não deixa de lado as nossas promessas, as nossas lembranças — não deixa a nossa vida a dois pra trás. Deixa eu ser egoísta e dizer que você é meu, e que só isso já é motivo suficiente para você largar de uma vez essa mala e se convencer de que eu to certa — É, eu sei que a razão sempre tá com você, mas me dá uma chance de provar que eu também posso nos guiar. Só me dá uma chance de mostrar que o teu lugar continua sendo do meu lado, e que nenhum outro ponto do mundo vai te abrigar tão bem como eu. Então, acredita em mim. Não, não. Acredita em nós… Só mais uma vez. Por favor?

Bianca Nannini, (belovesick). (via rockandsoda)

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Diz o ditado que quando uma porta se fecha uma nova janela se abre, não é? Eu então, pensando nisso, me vi fechando as portas da frente, dos fundos, as laterais… Passei a chave, coloquei cadeados, códigos de segurança e tudo pra fazer você sair da minha vida, sem chances ou possibilidades de volta. Não que isso fosse de minha vontade, mas era necessário. Era necessário te expulsar de dentro de mim, nem que isso me custasse vazios que nunca mais voltassem a ser preenchidos… E aí, as novas janelas realmente se abriram. As da frente, dos fundos, as laterais… E eu, te conhecendo a exatos quinhentos e oitenta dias, devia saber que você não iria aceitar ser expulso assim, dessa maneira grosseira, silenciosa. Eu devia saber que você daria de um jeito de pular pela nova janela aberta, e voltar para minha vida. Por que você foi exatamente isso que você fez. É essa confirmação de que te expulsar da minha vida é uma tarefa árdua e impossível que me impede de dormir… Que me faz continuar jogada sobre o sofá da sala, encarando as vidraças salpicadas pela chuva pesada que continua caindo enquanto o relógio na estante ainda marca três da manhã. É a essa minha insônia, que ainda implora por você, que me faz questionar se ainda existe salvação para uma mente tão perdida, insana e masoquista quanto a minha. E, lá no fundo, escondida em alguma parte de mim, aquela voz doentia grita que até mesmo minha salvação possui teu nome, o que me faz sorrir para o nada. Quando é que você vai resolver aparecer e me salvar, meu amor? Me tirar desse sufocamento comandando pelas nossas lembranças, minhas memórias, nossos momentos… Quando? O rádio da sala, que ainda trava uma batalha com o barulho torturante da chuva, chama minha. Because maybe… You’re gonna be the one that saves me. Eu penso em desligar e implorar para que o sono venha, mas a ideia de continuar em meu estado de inércia, te revivendo e te reinventando dentro de mim, ainda é minha melhor opção. Cinco, dez, quinze minutos. Três e vinte e cinco da madrugada. A rua deserta e escura de repente se ilumina por um segundo e volta a escurecer. Um barulho de porta batendo se destaca no meio dos outros sons que preenchem minha madrugada, e me obriga sair de meu estado de sonambulismo. Três batidas fortes na porta. Não é você. Não tem porque ser você. Você não vem atrás de mim. Não mais. Eu repito para mim mesma uma, duas, centenas de vezes. Fecho meus olhos com força e tento prestar atenção na música, na chuva, no batucar das minhas unhas contra o telefone em minhas mãos. Mais batidas na porta… Uma voz rouca e alta grita meu nome. Sua voz — Que faz minha respiração antes calma se tornar irregular quase que instantaneamente. Que faz meu coração tão apertado dentro do peito se expandir e ganhar vida mais uma vez. Sua voz que mesmo depois de quase dois anos, continua sendo meu som predileto, meu calmante natural, meu anestésico. Eu salto do sofá e corro até a porta, evitando tropeçar em meus próprios pés que sustentam meu corpo fraco e trêmulo. Minha mão quente repousa sobre a fechadura gélida e meus músculos indecisos não se decidem entre abrir ou não. Entre deixar você chegar perto de mim, ou te manter afastado. Entre me manter segura na minha solidão, ou entre correr os riscos que acompanham sua presença. Sua voz novamente vence o silêncio e me atinge… Meu nome escapando pela tua boca me faz vacilar, enfraquecer, suspirar. Me faz voltar a ser nada, a me sentir nada. Só sua, como sempre. Sua na esperança de que dessa vez isso te baste, te conquiste… Te faça querer ser meu também. Eu abro a porta devagar, sentindo minha respiração se perder quando sua imagem tão perfeita e tão real entra em meu campo de visão. Você sem aviso algum dá um passo a frente, fugindo da chuva e se aproximando de mim. Seu cabelo negro e molhado respinga em minha blusa — Não… Na sua blusa. Aquela que você dizia ser sua preferida, mas que ficava inúmeras vezes melhor quando usada pela sua garota preferida. Seu olhar intenso e magnético me analisa de baixo a cima, e um sorriso enviesado surge no canto dos seus lábios úmidos quando seu olhar para na camisa. Aquela sensação na boca do estômago e aquela vontade insana de me jogar nos teus braços e grudar a sua boca na minha ressurge. — Será que eu posso entrar? — Você pergunta com a voz baixa, voltando a prender seu olhar no meu, me deixando desconfortável, a mostra. — São três horas da madrugada — Você continua em silêncio, enquanto uma de suas mãos disfarçamente vai parar em minha cintura, me obrigando a cambalear alguns passos para atrás, permitindo que você chute a porta atrás de nós, fechando-a. — E? — O que você estava fazendo aqui? — Minha palavras embaralhadas soam incompreensivas até mesmo para mim. Você enrola, leva as mãos até seu cabelo bagunçando-o e fazendo com que novos pingos me atinjam. — Eu estava passando por perto e resolvi te fazer uma visita rápida, é isso. — O que você tem contra a verdade? — Questiono de imediato, te deixando sem palavras e me surpreendendo com o tom firme de minha voz, que esconde toda a bagunça na qual me transformo quando você está por perto. — Verdades machucam, pequena. Mentiras machucam mais, eu penso. E as suas as suas machucam ainda mais. — E o que você acha que faz? Você me machuca também. — Eu sinto muito — Você dá um passo para trás, desviando o olhar por um momento — Eu não devia ter vindo. Eu já vou, tá? Só… Esquece isso. Eu penso em te deixar ir. Penso em deixar você fugir mais uma vez e em fingir durante mais alguns meses de ausência que não me importo. Entretanto, a ideia de passar mais uma centena de dias tentando me convencer de que esse espaçamento irreparável entre você e eu já não me importa, não me sustenta mais. Minhas mentiras não são como as tuas, pequeno. Elas não me alimentam, não são atrativas, não são fortes o suficiente para vencer todas essas verdades que estão estampadas e tatuadas em mim. Essas verdades que você já decorou de trás para frente, frente para trás, invertidas e embaralhadas. Essas verdades que como você diz, te machucam. — O que você está fazendo aqui? — Refaço minha pergunta, te dando uma nova chance e vendo um misto de insegurança e nervosismo crescer em você. Seus dedos agitados brincam com as chaves do carro, e você se aproxima novamente. — Eu não conseguia dormir. Eu não conseguia deixar de pensar em você, deixar de pensar em nós — Você pausa, parecendo analisar suas palavras — Eu sei, eu sei que você vai dizer que não existe nós, mas foda-se… Eu não conseguia fingir que não me lembrava da data de hoje. Eu pensei em sair, pensei em encher a cara. Pensei em madrugar em uma mesa qualquer de bar, mas quando eu me dei conta já estava sentado naquela nossa mesa, rabiscada com as nossas memórias e então eu me vi pegando o carro e fazendo o caminho de casa. — Mas você veio parar aqui — Concluo. — É, eu sei. As ruas pareciam implorar para que eu mudasse meu destino, e viesse parar na tua porta as três da manhã… Você sabe, sabe que eu odeio chuva e ter começado a chover só serviu para me fazer praguejar ainda mais esse maldito dia. Eu tentei desviar, eu tentei dar ré, furar um sinal vermelho, me enganar dizendo que não lembrava qual era seu endereço… Mas até os letreiros em neon pareciam piscar dizendo que eu precisava te ver. Eu preciso te ver — Você se aproxima ainda mais, grudando seu corpo molhado e frio no meu, fazendo com que uma corrente elétrica percorra minha espinha, se alastrando por todo meu corpo — Essa é a verdade. A verdade é que eu não podia passar mais uma noite em claro, não sem você. Como você faz isso? Como você consegue me fazer perder o chão, a noção de tudo que existe ao meu redor? Como você transforma toda minha angústia e magoa em saudade? Em vontade? Vontade de você, vontade de nós. Como você consegue continuar sendo minha pessoa preferida nessa mundo, mesmo quando eu passo meses me convencendo de que meu mundo seria tão mais fácil sem você… Me explica. Me explica porque você me ganha assim tão fácil, porque você me tem assim, toda hora, de qualquer jeito. Por que o teu sorriso ainda é minha definição de paraíso? Por que o teu olhar é o único que consegue sustentar o meu? Por que você precisa se encaixar assim, tão perfeitamente, em cada parte de mim? — Você precisa parar com isso. — Defina isso — Você sussurra, envolvendo minha cintura em seus braços e me fazendo dar passos curtos para trás. Sem esforço teu, sem resistência minha, você chega até o sofá, me fazendo sentar. — Precisa parar de tentar me convencer de que ainda não acabou… Acabou — Minha voz sem vida vacila, e meu corpo cede, recostando-se no braço do sofá. Você se senta e inclina seu corpo na direção do meu, me deixando sem saída, fazendo meus pulmões implorarem por ar, meu coração implora por uma pausa nesse ritmo frenético. Mas eu, eu também imploro. Por você. — Você ainda se importa? — Você pergunta com a voz rouca, baixa, num murmúrio lento e ritmado que me faz ter vontade de fechar os olhos e gravar a tua voz em mim — Você ainda pensa em mim, não pensa? — Seus dedos deslizam pelo meu braço, seguindo em direção a meu ombro, onde repousam dando início a uma carícia leve — Você ainda espera por um telefonema meu, uma visita, qualquer sinal que demonstre que eu ainda sinto sua falta… — Suas unhas curtas contornam meu pescoço, dedilhando minha nuca. — Não sou eu quem devia estar te fazendo perguntas? — Você entorta os lábios, afastando-se de mim e enconstando-se no sofá. Meu corpo protesta, te querendo por perto novamente, querendo seu toque leve e preciso mais uma vez. Um suspiro pesado escapa por meus lábios, arrancando um riso baixo seu. A escuridão quase me impede de ver aquele meu sorriso preferido, meio maroto, crescendo no seu rosto.  A chuva pesada continua batendo nas janelas, rompendo o silêncio e se misturando com o som do rádio que permanece ligado. Can’t get over you, can’t get through to you. It’s been a helter-skelter romance from the start. Eu e você sempre tivemos um romance saudável-doentio, não é? Era bom, era ruim… Era intenso, devastador, único. Não era perfeito, não era invencível, eu sei. Tinha lá os seus defeitos, seus problemas, suas falhas… Machucava quase sempre, trazia dor, rancor, medo. Às vezes parecia incompleto, outras vezes parecia ser o suficiente, o bastante, tudo que um dia eu sonhei em ter, e eu tinha… Com você. Mas, mesmo tendo lá os seus pontos negativos, que hoje em dia parecem pesar mais que todos os outros positivos, esse romance meio saudável, meio doentio… Ele era nosso. Era nosso e era exclusivo. Você dizia que as pessoas não entenderiam, e que qualquer palavra ou explicação seria rasa e superficial demais para definir o que havia entre nós dois. A gente se trancou no nosso mundinho, na nossa bolha de sabão impenetrável, e não fez questão nenhum de sair espalhando o nosso amor em panfletos, jornais, outdoors… A gente tinha um ciúme (até gostoso) dele, do nosso relacionamento instável, de deixar alguém chegar perto demais… Eu sei. E, mesmo assim, todo mundo parecia ver o que a gente não fazia questão nenhuma de exibir. Todo mundo reparava que o seu sorriso ficava muito mais bonito comigo… Que o meu humor melhorava quase que 100% quando eu escutava seu nome no meio de alguma conversa. Suas manias chatas e irritante se tornavam até bonitinhas quando você estava do meu lado, e minhas fraquezas pareciam muralhas quando eu tinha você. Seu riso era mais feliz, meu olhar era mais sincero… Não era forçado, não era fingido… Era tão simples, natural, tão confortável. Our love was comfortable and so broken in. — Pequena? — Você rouba minha atenção — O que houve? — Eu quero te pedir pra voltar. Pra voltar pra minha vida, pros meus dias, pra minha rotina estressante e chata. Eu quero te pedir pra tranformar meus dias cinzas em aquarelas. Eu quero te pedir pra ficar, mas eu não posso. — A música — Minto — Só estava prestando atenção na música. — I loved you… Grey sweatpants, no makeup. So perfect — Você canta baixinho, encarando suas mãos entrelaçadas. Silêncio. Você bate os dedos no sofá, faz desenhos imaginários na sua perna, mas continua distante de mim. Eu continuo tentando, sem sucesso, controlar minha falta de auto-controle. Você então levanta e tira seu moletom, jogando-se sobre o braço do sofá e voltando a se sentar, um pouquinho mais perto de mim. Perto o suficiente para que suas mãos sigam em direção as minhas, me puxando de encontro ao seu colo. Eu me aconchego nos seus braços, passando minhas pernas por cima das tuas e encostando minha cabeça em seu ombro, aspirando seu perfume. Você me faz um cafuné gostoso, enquanto sua outra mão repousa sobre minha coxa. — Eu gosto de ficar assim — Você sussurra, balançando os ombros no escuro — Do seu lado. — Parece certo para para você? — Minhas definições de certo e errado são confusas quando envolvem você, pequena. — Eu e você não nascemos mesmo para ficar juntos, não é? — Pergunto, mas você não responde. Eu então aceito seu silêncio como um sim. Uma afirmação que cedo ou tarde, apareceria. Eu lembro das suas palavras… Você insistia em dizer que eu era só um capítulo da sua vida, e que não adiantava discutir isso… Que a culpa não era nossa. Que se o universo não conspirava, se os caminhos não se cruzavam, se o destino não tinha planos para nos manter juntos, não adiantava lutar. Você realmente acreditava que eu aceitaria isso? Essas desculpas que você usava para justificar a nossa falta de coragem? Você realmente achava que eu não seria capaz de conspirar contra o universo, de traçar novos caminhos que fossem para o mesmo lugar que os seus, que eu não desafiaria o destino se esses fossem os problemas? Eu jurei tantas, tantas vezes que eu não desistiria de você. Eu te vi indo embora uma, duas, várias vezes mas eu não conseguia te deixar ir por completo, e esse era meu erro, não era? Era te puxar para perto quando você queria ir para longe. Era te fazer ficar, quando o certo era te fazer ir. Ir de uma vez, ir pra não voltar tão cedo, para não voltar jamais, quem sabe. Mas eu jurei, eu prometi. Prometi e entre tantas outras promessas esquecidas, quebradas, deixadas de lado, dessa eu não conseguia fugir. Não conseguia esquecer, me desapagar, quebrar. Você me viu lutando por você, por mim, por nós dois… Você me viu lutando contra as tuas inseguranças, os teus orgulhos bobos, os meus defeitos infantis, meus traumas infinitos. E eu, tão pequena, fraca, indefesa… Tão menina, me vi reunindo forças que eu nem sabia que existiam, só para lutar mais. Só mais um pouquinho, em uma tentativa desesperada de vencer no final… Mas eu eu sempre perdia. Perdia as forças, as lutas, as vitórias pequenas… Sempre perdia você. Tudo para não desistir, tudo sem saber que chegaria um dia em que desistir, na verdade, seria a vitória. Sem saber que esse dia, era hoje. Eu desisto. — Como vai a sua vida com ela? A garota do natal? — Você deixa outro riso baixo escapar ao pé do meu ouvido, o que me provoca um calafrio gostoso. Eu respiro fundo, me deixando envolver pelo teu aroma doce… Quase esquecendo de ouvir as suas palavras confusas. — Não existe ela… Existem algumas loiras, ruivas, morenas… Existem uns perfumes baratos na minha cama, umas manchas de batom em algumas camisas — I sleep with this new girl I’m still getting used to. My friends all approve — Umas tentativas frustradas de fazer dar certo com alguém, de encontrar alguém que seja capaz de me satisfazer por mais de duas noites, sem me fazer sentir vontade de mandar tudo pro inferno e voltar para os seus braços de novo. — Somos dois idiotas adiando um possível reencontro, e adiantando um final que se recusa a chegar. Por que? — Por que junto com um possível reencontro, vem também os desencontros. E eu não quero mais me desencontrar de você. Deixa como está, deixa ficar assim… Um dia a gente aprende. — Você acha que a gente vai superar isso, algum dia? Que o seu nome vai deixar me causar essas sensações todas? Que a sua voz vai deixar de ser o meu som preferido, o seu sorriso nem vai ser tão mais incrível assim… Será que um dia eu vou conseguir dormir sem pretender sonhar com você? Ou que um dia eu vou aceitar que nenhum dos planos que eu fiz para nós dois vai se concretizar? Eu vou aceitar ser chamada de pequena por outro cara, sem que isso me destrua por dentro? — Sua mão busca a minha, apertando-a com força. Eu sinto minha garganta travar, meu interior queimar, se desfazer, se contorcer em dor — Será que algum dia eu vou achar melhor ter você fora da minha vida, da minha rotina? E essa bagunça que você causou aqui dentro de mim? Será que ela vai deixar de ser minha bagunça preferida? Que alguém vai ser forte o suficiente para encarar essa zona que você deixou, e vai tentar me arrumar, me deixar nova de novo? E o teu perfume, o teu cheiro… Alguém vai substituar? Me diz, pequeno… Será que algum dia eu vou deixar de achar que o seu toque é o melhor que eu já senti? Algum dia eu vou dizer que te esqueci, sem estar mentindo? Sem estar fingindo? Algum dia eu vou conseguir me desentoxicar de você? Dos teus efeitos, das nossas lembranças, de nós dois? — Você quer isso? — Você quer fazer parte do meu futuro? — Você não responde — Então eu quero — Sussuro contra sua clavícula, movendo meus lábios de leve contra tua pele e fechando meus olhos. Você deixa um suspiro pesado escapar, e eu luto para engolir o choro, engolir a dor, as palavras, tudo. — Então eu acho que sim. Eu acho que um dia isso vai acontecer, você vai superar — Você afirma. Sua voz sai fria, sem emoção, sem vida. — E você? — Eu vou estar por aí… Feliz em saber que você finalmente me esqueceu. Talvez eu te esqueça também, sei lá — Suas palavras me machucam, e me vejo obrigada a concordar com você. — Você tem razão… Verdades machucam — Digo com a voz manhosa, tentando esconder os rastros de choro e decepção. Você me afasta, me deixando de lado e levantando do sofá… Joga seu moletom por cima do ombro e caminha em direção a porta, sem olhar para trás, mas para antes de abrir a porta. Eu aceito que como todos os nossos outros momentos, esse também vai ter um fim incompleto, incerto. Que você mais uma vez vai embora sem me dar uma explicação, sem me deixar uma previsão de volta, e que vai sumir por semanas ou meses… E mais uma vez eu vou passar os dias esperando que você apareça, telefone, de um sinal de vida, e quando você não vier, eu vou começar a pensar que dessa vez não vai mais haver voltas, reencontros, surpresas no meio da noite. Mas, o que eu vou fazer então? O que eu vou fazer quando esperar por você, já não fizer mais sentido? — Eu preciso ir embora — Você fala, completamente indiferente. Eu levanto do sofá e caminho depressa até a porta, sem coragem suficiente para te encarar, para competir com o teu orgulho, com a fuga. Sem coragem para te pedir para ficar. Eu então abro a porta, e você, ainda sem me olhar, saí. Vai embora depressa, sem se importar com a chuva, com a escuridão, comigo. Você me deixa para trás, sem reação, sem palavras, sem você, sem nada. Você apoia a cabeça na janela do carro, e eu me encosto na porta, sentindo todo meu controle se esvair. Foda-se. Foda-se o certo, o errado, o passado, o presente, o futuro. Tudo. Eu não me importo se você vai me deixar mais uma vez, se você vai desaparecer por semanas, meses… Não me importo se isso vai me torturar, me machucar, me fazer chorar todas noites, e muito menos se esse amor doentio não é o bastante. Eu só me importo em estar com você, pelo menos agora. Pelo menos hoje. Meus pés involuntariamente obedecem a minha vontade e eu me vejo correndo até você, que me olha meio surpreso, meio sem entender o porque de eu estar parada na tua frente embaixo de um temporal que se recusa a parar, quando todos os relógios já marcam quase quatro da manhã. — Lembra quando você disse que nenhum dos nossos planos iria se realizar? — Pergunto, vendo você assentir, ainda confuso — Então… — Eu me aproximo de você, ignorando os pingos gelados e pesados que desabam sobre nós dois, ignorando o frio desconfortável que se alastra na minha barriga, me deixando pateticamente nervosa. Eu passo meus braços em volta do seu pescoço, e você reciprocamente me puxa de encontro ao seu corpo… Eu consigo sentir sua respiração quente e pesada bater contra meu rosto, e então minha boca busca a sua com urgência, com saudade. Minha lingua desliza sobre a tua com calma, sem pressa, tentando saciar minha vontade de você… a sua toca o céu da minha boca me fazendo dar aquele sorriso que você diz amar. Suas mãos passeiam por minhas costas, e uma delas sobe até minha nuca, apertando-a, puxando algum fios de cabelo. Eu mordo teu lábio, partindo o beijo sem desgrudar nossos corpos — Acho que você estava errado. — Me explica. — “Nós nunca vamos nos beijar na chuva.” — Relembro sua famosa frase, arrancando um riso teu que logo desperta um meu. Você balança a cabeça, parecendo não acreditar. — Bom trabalho, pequena. Silêncio. Eu tento reviver aquela menina de antes, que não tinha medo, inseguranças, traumas. Eu tenho revirar meu interior em busca daquela força toda, que antes me impedia de desistir. Você continua me olhando, sem desviar… Parecendo tentar mergulhar no meu olhar para explorar minha alma, meus pensamentos, e eu então percebo que toda força de que eu tanto preciso, esta ali. No castanho escuro que me fita como se eu fosse a coisa mais valiosa desse mundo. Que me olhva da mesma maneira que me olhava na primeira vez que me viu. Quando disse que me amava. — Fica comigo… Só hoje? — Eu peço. Forte. (belovesick)