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Other world

@babymoonkisushite-blog

Sexta- feira , 14 de janeiro de 2016

Certa vez, ouvi dizer que quando se está com medo e se daria tudo para retardar o tempo, ele tem o mau hábito de correr, como se dobrada. Até ontem, seis anos de curso de Medicina pareciam uma eternidade. Hoje, porém, ao olharmos para atrás, podemos dizer que passou rápido, num instante . Incontáveis instantes de uma missão sagrada que nos foi confiada. Em breve, receberemos nosso diploma, um documento que representa o compromisso que assumimos de nos mantermos responsáveis por algo que vai além dos seminários e provas: tornamos-nos responsáveis por vidas. Mas não pensarmos que de hoje em diante estaremos sós. Levaremos conosco a doação sinceras de todos aqueles que contribuíram para que hoje estivéssemos aqui e para que daqui seguíssemos adiante. É chegada a hora de nos despedirmos. Mas por que começar falando de despedida, sem antes ter falado de acolhida? Na amanhã do dia 11 de abril de 2010, tivemos nosso primeiro dia de estudantes de Medicina . Uma querida professora já dizia o que se tornara uma profecia: ´´…E quando chegarem ao sexto ano, estão mudados, crescidos, as minhas meninas´´. Suas meninas cresceram, professora, mudaram, e querem hoje distribuir os louros da conquista com todos quantos contribuíram para essa vitória. Abril de 2010 trouxe consigo o primeiro ano de curso, cheirando a um formol de impregnar as roupas e os cabelos. E a impressão de que teriamos que adentrar o anatômico vestidos de astronautas foi esfacelando-se  no tempo, a ponto de perdermos o medo de estar diante de vidas que se foram e se tornaram nosso instrumento de aprendizados. Um fato, porém, jamais se tornará rotina: nosso objeto de estudo. Já ouvi dizer que a palavra ´´cadáver viria de carne dada aos vermes´´. Mas, para esses mestres de corpo, fizeram de sua mais profunda intimidade de poço inesgotável de conhecimento. Acredito que tenha sido já com a disciplinas básicas que iniciamos o nosso CPP ( Complexo Paranoide Precoce) de querer fazer diagnóstico em tudo e em todos . Feliz de quem conseguisse se safar…rsrs Talvez como válvula de escape, porque era muita coisa junta: a farmocologia testando nossa memoria com nomes, doses e efeitos colaterais, enquanto a professora da disciplina nos alertava que, apesar do nome, o jumexil não era estimulante de inteligencia . E quando o desanimo pensava em nos assolar, descobrimos, imediatamente, mais um utilidade para a microbiologia: se os virus conseguem façanhas, por que nós não? E a fisiologia, só jogando a culpa dos nossos comportamentos nos hormônios?!… O desespero batendo á porta com as provas interminaveis; esquecendo a chave de casa, do carro, esquecendo o jaleco em dia de prova; e o sono trazendo uma falta de atenção sem tamanho, a ponto; de fazer uma colega, coitada, ir para o Hospital Universitário, calçando um all star num pé e um Olympikus no outro: - Bem que eu tinha notado uma coisa diferente …rsrs … Mas a culpa é da fisiologia, dos hormônios . O quinto  ano do curso nos mostraria que, definitivamente, todos os casos reais são mais complicados. Afinal, nem sempre a doença apresenta-se como nos relatos de livro, onde o sintomas tem hora quase que exata para bater á porta, acomodar-se e partir em retirada. Foi o que vimos no estagio de urgencia e emergencia no ponto-socorro (PS). Tal qual dizia Clarece Lispector , ´´a vida é um soco no estômago´´. E  que soco tomamos ao percorrer corredores repletos de macas e soros e sons e vida! Ainda vivas, ás vezes quase que não. Ainda que não conseguissemos modificar a tragica estrutura social que concebe, gera e pare (do verbo parir) tamanha desordem social e humana, enxergariamos ali seres humanos feitos em formas afins, tal qual nós, merecedores de tanto quanto temos, apesar de tão desfigurados, desprovidos do sopro de humanidade ao qual todos deveriam ter o minimo direito. O dia 18 de janeiro de 2015 abria as cortinas para o grand finale: o tão esperado ultimo ano do curso. Apos laborioso preparo do terreno, construção de bases solidas e paredes erguidas, recebíamos acabamento em massa corrida e tinta fresca. Nossos medos acerca do término do curso foram bem trabalhados por uma dedicada orientadora. Quando a situação nos dava um nó na garganta e não sabíamos o que dizer, ela sabiamente nos respondia: ´´Se não sabe o que dizer, não diga nada. Escute´´. E na pediatria ? Pois bem, na pediatria, nossos queridos professores bem disseram que teríamos, ao invés de um ambulatório, um coração de mãe. Podemos dizer que foi, indubitavelmente, um dos mais calorosos, acolhedores e frutíferos corações com os neuropsicomotor adequado, vacinação atualizada, papinha de fruta, diluição diluição do leite e nada, nada, nada de tapetes, cortinas, bichinho de pelúcia ou calcinha bundinha rica.´´ No dialeto pediatrês``, acabamos todos, no fim das contas, um pouquinho pediatras. Deixamos o estágio gravemente contaminados por esplendorosa referência de boa relação medico-paciente e empatia. E aos professores perdoem-nos o plágio, mas esse costume levaremos conosco por toda a vida, e com o maior orgulho de dizer que aprendemos na pe-di-a-tri-a. Experiência múltiplas trouxeram momentos únicos, indeléveis. Lembro-me do primeiro dia em que fomos para o Hospital Geral do Estado. E quem não lembra ? ´´Atenção, acadêmico, compareça á sala de satura´´. Pois bem: sala de satura de adulto. Uma colega foi quem nos disse: - Ah, pessoal , é muito simples: olha, depois da antissepsia, vocês vão diluir o anestésico sem vaso em água destilada e infiltrar os bordos da lesão asssim, depois assim, depois assim…. Ao que responderam: -Hum- hum E aí ela disse: -Tchau, meninas bom plantão. Nós ate que tentamos agarrá-la, com todo o respeito, é claro, mas não foi possível. Ela havia ido embora… E veio a primeira sutura. Um ferimento no tórax de uma senhora de 32 anos. Enorme . O ferimento. Foi quando ela olhou para minha cara, olhou o meu jaleco, viu meu nome, leu e disse, agradecida: -Doutora, eu NUN-CA vou esquecer sua cara, nem o seu nome… Aí eu pensei: ´´Moça, também não precisa ameaçar, né?´´.rsrs Mas, por algum motivo, aquela, apesar de ter sido a primeira sutura, foi das mais perfeitas, talvez pelo empurrãozinho da excelente memória da paciente, mas … Eu concordo, com o tempo, isso tudo deixa de ser tão complicado mesmo. A gente nem treme mais… Não, e pior : nem tremer a gente podia naquela sala de satura, porque, como o ar-condicionado não funcionava bem, qual a desculpa que a gente ia usar justificando a tremedeira? Já imaginaram a situação? Eu com uma pinça dente -de-rato numa mão, um porta-agulha na outra, tremendo e dizendo: - É Parkinson…Precoce. kkkk Contra todas as expectativas, superamos. Aprendemos em uma das maiores escolas de aula práticas que poderíamos ter tido em todo o nosso curso. Em agosto de 2015, discutíamos sobre uma de nossas confratenização de fim de ano. Foi então que recebemos a resposta de um colega. Ele dizia: - Por mim, tem festa em qualquer lugar e de qualquer maneira. Depois, cada un vai seguir seu caminho e fazer seu história e o que vai sobrar é só saudade e arrependimento de não ter aproveitado mais! Apensar do tom apocalíptico, tenho que admitir que você estava certo, colega. Fez seis anos que este momento nos persegue, ora mais longe, ora mais perto… Agora, cada vez mais próximo, colocando-nos frente a frente com a separação imprescindível ao nosso crescimento como profissional e seres humanos. Separados-nos daqui a alguns instantes para que possamos levar adiante aquilo que arduamente cultivamos em nossa jornada acadêmica. Ninguém acende uma lâmpada para colocá-la embaixo da mesa. Ao contrário, ela deve ser posta no teto, para que possa adequadamente cumprir sua sublime função de I-LU-MI-NAR o ambiente inteiro. E nós , lâmpadas que somos, carregados com o combustível de maior qualidade ofertado por nossos pais, mestres de graduação e amigos, podemos agora desfrutar da completude do iluminar. Porque fomos acesos - e ninguém acende uma lâmpada para colocá-la embaixo da mesa. Que nossos agradecimetos sejam também voltados ao Médicos dos médicos. Ele que foi anestesista, cirurgião, pediatra, ortopedista e tudo o mais: Deus. Peçamos ao Pai Amado que nos dê força, coragem e discernimento para lidarmos com os desafios impostos pela doença. Direcionemos os agradecimentos ainda aos nossos amados pais, pelo dom da vida. Jamais esqueceremos os primeiros passos de mãos dadas, as primeiras lições ensinadas doce e pacientemente . Nossos heróis que, sem capas voadoras, mas repletos de superpoderes, foram incentivo fortíssimo para que decidissemos com o mesmo carinho e dedicação com que nos fizeram crescer, pois, com toda essa partilha, tornaram nosso caminho mais fácil, nossas estradas menos tortuosos, enchendo de sentido nossas vidas. Parabéns por tudo o que fizeram e continuam a fazer e que a nós seja concedida a graça de sermos tão maravilhosos com nossos filhos quando vocês o foram conosco. Queremos agradecer também aqueles professores que, muito mais que mestres, foram amigos, conselheiros, comprometidos com nosso aprendizados, por terem propiciado experiências. Nossos agradecimentos á Universidade pela oportunidade de alcançarmos esta conquista. Uma instituição não se faz apenas de tijolos, vigas e computadores, mas, sobretudo, de pessoas. Muitos que, muitas vezes , residem no anonimato. Vocês , funcionários da Universidade, podem ate estar nos bastidores, mas sem vocês o palco não é iluminado, as cortinas não são erguidas e o espetáculo nao acontece. Em pouco tempo, já estaremos mais que bem acostumados com nossas novas coisas nenhuma ( mas que estranhamente mata a fome) residência médica, contando ovelhas a contragosto, cabeça escorada no tratado de clínica médica, com a marca do alto relevo no rosto, ´´E aí, vamos lá? A que horas vai ser o cinema?´´… ´´ Ih, dá não, tô de plantão …´´ e a velha companheira de muitas horas: a exaustão; anestesiados, dormentes, dormindo sentados , em pé; dormindo? sonhando. Sonho concreto: familia, filhos trabalho, tudo muito bem misturado, talvez não tão bem dosado, mas de tudo um pouco. Ou um muito. Chegamos ao fim do começo. Nossas vidas continuam, adiante: Muita doação, dedicação e infinitas vitórias. E que, horando a profissão que agora assumiremos, possamos contribuir com nosso humano seja nosso motivo maior. Parabéns pela conquista, formandos! E, finalmente, adeus ao título de formados, pois ao sairmos por aquela porta, já seremos mé-di-cos!                        Muitíssimo Obrigada!