A carta que eu não mando.
Não sei como começar. Não sei como reagir. Mas o que eu sei é que estou lhe escrevendo porque já não cabe em mim. Dentre milhões de razões para te amar ainda tenho relutante razões, suficientemente doloridas, para não o fazer. Começaremos com a mais complexa, mas que para mim sempre foi a mais simples. Eu não sei ter alguém. Eu costumava saber. Era tão fácil quanto respirar. Mas de repente se foi. Hoje, eu não sei ser alguém pra você. E eu realmente acredito que você consiga mudar isso, porque você já me modificou muito, mesmo sem perceber. Eu não sei pertencer a alguém. Essa talvez seja a razão que mais me corrói. Eu quero ser aquela pessoa que se sente completa e totalmente feliz em ter alguém do lado e acredite, eu me sinto feliz ao ter você do lado. Mas me falta algo. Não sei se é pela distância ou se simplesmente eu sou tão emocionalmente estragada que perdi isso de pertencer. Eu tenho medo, e é um medo constante, de te fazer mal. Eu percebo que com todos os meus defeitos, você, relutante, consegue ver qualidades. Mas eu não as vejo. Quando eu me olho no espelho, a qualquer hora do dia, eu vejo a sombra do que eu fui um dia. Eu vejo uma sombra de uma menina que já acreditou naqueles amores de Titanic, a walk to remember e afins, e que realmente achava que romances eram pra vida toda. Eu vejo no fundo dos meus olhos alguém que era bobinha a ponto de crer que traições aconteciam em um mundo de fantasia, não no meu mundo. Mas eu mudei tanto. Eu endureci tanto. Agora o que eu vejo é o Iceberg do Titanic. Eu me tornei fria demais, e não me orgulho nem um pouco disso. Eu vejo razões para tentar tê-la. Porque eu sei que você pode me mudar, que podemos dar as mãos e ter um mundo só nosso, onde eu volte a ser uma boba apaixonada. Mas e se por acaso isso não funcionar? E se eu tiver muitos danos internos. Hemorragias que não conseguimos ver com essa olhada superficial? O que vamos fazer? Eu não quero te machucar, por isso eu me afasto a cada chance que você me dá. E eu falo tanto em fazer mal à você, porque da maneira que eu já fui machucada, eu duvido muito que vá ser novamente. Eu não tenho medo de me machucar, porque quando eu tive alguém me dilacerou completamente. Mas eu tenho medo por você. Essa pureza que eu vejo em você, essa fé, esse amor, são coisas, meu anjo, que eu me recuso a tirar de você. Coisas que eu, como o Iceberg que sou, não quero que se percam em um relacionamento que eu não sei se tenho capacidade de manter. E ambas sabemos que não é algo que escolhemos. Aconteceu. Então, acredite quando eu te digo que eu te amo, porque eu amo. Se eu não amasse, não teria medo nenhum em te fazer mal, não hesitaria. Mas eu amo, então eu quero cuidar e a maneira que estou vendo para protegê-la, é deixá-la ir. Mas eu sei que você relutará contra isso. Ir devagar contigo é uma opção, uma das melhores. Não termos nada, nada a denominar, nada a esconder, nada a mostrar, nada a cobrar.. é uma maneira que eu vejo de tentar ser menos fria e poder te pertencer por completo. Mas para isso eu necessito de tempo. Não afastada de você, porque quero estar perto, mas tempo para descobrir se eu consigo ser alguém que você mereça. E eu espero conseguir, porque mesmo com todas as cicatrizes que eu tenho e as feridas que ainda não estão totalmente cicatrizadas, você despertou em mim um lado que eu desconhecia. Você me ajudou a fechar muitas fendas em mim e abrir novas, muito mais belas. Porque como diz Caio F. Abreu: “Na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos.”
