Sonho de uma noite de verão
LISANDRO — Oh Deus! Por tudo quanto tenho lido ou das lendas e histórias escutado, em tempo algum teve um tranqüilo curso o verdadeiro amor. Ou era grande do sangue a diferença...
HÉRMIA — Oh sofrimento! Nascer no alto e aceitar o cativeiro!
LISANDRO — ... ou mui disparatadas as idades...
HÉRMIA — Oh dor! Unir-se a mocidade às cãs!
LISANDRO - ... ou tudo os pais, sozinhos, decidiam...
HÉRMIA - Não há maior inferno; estranhos olhos para escolher o amor!
LISANDRO — ... ou, quando havia simpatia na escolha, a guerra, as doenças, e a morte, conjuradas, o assaltavam, qual simples som deixando-o, transitório, tão curto corno um sonho, movediço como uma sombra instável, tão ligeiro como raio de noite tempestuosa que, de súbito, rasga o céu e a terra, mas que antes de podermos dizer “Vede!” pelas fauces das trevas é tragado. Tudo o que brilha, assim, em ruína acaba.
HÉRMIA — Se sempre contrariados foram todos os amantes sinceros, é que o próprio destino o determina desse modo. Que nos ensine, pois, a ser pacientes a nossa provação, já que é desdita fatal dos namorados, como os sonhos, pensamentos, suspiros, dores, lágrimas, do pobre amor são companheiros certos.