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hi.

@acadelinhaa

há anos tenho escultado essa voz. ela diz: eu sou uma artista! na maioria das vezes, eu a ignoro, tento faze-la sufocar, mas é como se fosse impossivel. mas não tem como dar ouvidos a ela sabendo que eu simplesmente não sou boa em nada.

a verdade é que eu quero ser atriz, mas sempre vem o pensamento que não sou capaz, que não consigo.

vou ser professora de portugês, inglês, arte. quero ser carteira, cozinheira, motorista, eu falo. falo o tempo inteiro. quero todas as profissões. mas a voz ta sempre aqui, gritando "só uma: artista."

eu estou morrendo.

uma doença.

não uma dessas, que é dado limites de vida. não.

mas uma doença. psoríase.

e eu não estou necessariamente morrendo, mesmo. mas é assim que eu me sinto. essa doença simplesmente está acabando comigo, me matando aos poucos, me escondendo em baixo de roupas e de "nãos". fazendo de mim a pessoa que eu não sou. arrancando a minha essência, meu verdadeiro eu.

tá difícil.

tá difícil demais.

as vezes penso que não vou conseguir suportar...

é desesperador entrar embaixo de um chaveiro, é agoniante quando tudo começa a coçar, é extremamente doloroso tentar dobrar uma junto e ser repuxada pelas lesões.

odeio me ver indo embora...

odeio dizer "não" quando alguém me chama para sair ou ir dormir em sua casa. odeio vestir roupas que cubram todo meu corpo. odeio estar morrendo de calor e fingir estar "de boa". é muito triste levantar da cadeira e ver as escamas lá. uma das piores horas, no curso, é ir para o banheiro, baixar a calça e ver caindo ao chão uma porção de escamas, como se fosse farinha.

estou sumindo.

a doença está me consumindo.

tá tirando de mim, eu mesma.

tá me engolindo, sugando minhas energias.

fazendo de mim, um nada.

sinto é vejo, real e literalmente a doença engolindo os meus braços aos poucos. engolindo minhas costas. engolindo minhas pernas. engolindo minha barriga, minha virilha. engolindo o meu rosto, o meu pé, minha bunda. engolindo minha cabeça, engolindo meu corpo. engolindo minha diversão. engolindo meu futuro, meus sonhos. engolindo tudo o que sou. ou o que sobrou de mim...

a psoríase faz os pensamentos suicidas aparecer. faz tudo ser triste e cinza. te suga. faz você se sentir fraca, sem forças. inútil.

tá muito difícil continuar.

tá difícil demais.

eu preciso de ajuda, ou ela vai conseguir, de vez, me engolir.

nós... todos nós, mas nós, adolescentes, queremos o mundo, né? queremos todas as coisas, e ao mesmo tempo! nossa geração (a X, Y, Z? eu não sei) é a geração da ansiedade, da expectativa, da paranóia, a geração da frustração, da depressão. nossa geração é doente! nossa geração de mata o tempo inteiro. nossa geração é suicida, é topada por remédios desde muito novos. mas nossa geração, ela é forte, ela é sim resistência.

eu li uma frase uma vez que não consigo esquecer. "nós somos jovens suicidas que falam para jovens suicidas que o suicídio, não é a solução." e é a verdade! 

li uma também, no twitter, que dizia: "meninas que tem problemas com o corpo, mas não suporta ver outras meninas com problemas com seus corpos." mais uma verdade. 

chega a ser louco isso de a gente querer ajudar as pessoas que tem os mesmos problemas que nós... mas acho que é exatamente por isso, né? por termos esses problemas, por saber o quanto é ruim ter e aí querer ajudar o outro, para que ele não tenha... enfim, é realmente louco. e engraçado, eu também diria.

é toda uma construção.

há, de todos os lados, cobranças e, principalmente em cima dos jovens. para terminar o ensino médio, escolher uma faculdade, entrar em uma, arranjar um emprego... e nós, os jovens, queremos só fugir dessas cobranças, arranjar logo um trabalho e ir embora, mas nem sempre isso acontece e aí junta as cobranças + as frustrações, o que resulta em ansiedade e aí um passo para a depressão. e uma vez lá, na casa depressão, é muito difícil sair dali.

a verdade é que, não é que seja complicado ser adolescente ou adulto, é que é extremamente complicado estar aqui, nesse mundo, vivendo... ou melhor, sobrevivendo, né.

ai, é tão difícil lidar com esse ciclo louco psoríase-depressão, chega a ser exaustivo e sufocante. a depressão sai do seu controle, aí a psoríase aparece, por causa disso a depressão e a autoestima ficam ruim e aí a psoríase piora e quando eu dou conta, tô afundada nesse ciclo sem fim.

meu deus, eu não aguento mais, bicho! não aguento mais escamar, não aguento mais essas lesões, não aguento mais não lembrar como, realmente, é o meu corpo. não aguento mais não poder sair de boa na rua, é sempre "o que é isso?" eu não culpo as pessoas, pelo contrário, acho bom elas quererem saber, assim é menos pessoas ignorantes em relação à essa doença, mas tem dia que eu só quero sair de casa com um vestido, normal, como qualquer pessoa, sem ser parada para explicar nada...

eu preciso ir embora, aqui eu não arranjo emprego, não consigo ter forças para estudar. mas eu não quero ir para a casa de ninguém do jeito que eu estou, não quero ficar soltando escama na casa das outras pessoas.

estou, novamente, finalmente, tomando remédio e tentando (tentando muito mesmo) seguir uma rotina saudável; tendo horários certos para as refeições, para tomar banho de sol, para dormir, para acordar, para se exercitar. juro, tô tentando mesmo! é muito difícil, quem tem depressão sabe, mas juro que ando tentando.

penso que, se eu controlar a minha psoríase, todo o resto vai-se dar um jeito. minha depressão continuará aqui, mas será diferente, sem lesões, sem impedimentos para sair, conhecer gente nova, me enturmar, viajar para casa de algum amigo, algum parente e aí procurar emprego. uma hora eu vou conseguir. não importa muito qual o trabalho, quanto é o salário, eu só quero poder ocupar minha cabeça, fazer algo, me mover, conhecer pessoas novas, ajudar a minha mãe a pagar as contas e só. caramba, eu nem tô pedindo muito, né? só quero me livrar dessas lesões por um tempo...

assim, simplesmente.

bom, eu sumo.

sumo, assim, simplesmente. todo mundo já está acostumado, sabe que eu sumo, demoro a responder. nao necessariamente porque eu quero sumir. é só que eu não tenho paciência para algo que me deixa desconfortável…

eu posso explicar, mas como eu sou a chata que gosta de deixar bem explicadinho, precisaria contar um pouco da minha história. o que não vai acontecer porque estou sem disposição para isso.

na verdade, ando sem disposição pra muitas coisas e a depressão segue ganhando.

mas eu sumo nas redes sociais porque eu não tenho dinheiro. pois é, muita gente não tem e eu não tenho também. eu não tenho dinheiro para pôr internet em casa, o que me resta a do vizinho, que só funciona na sala da minha casa, mesmo assim, ruim e somente sentada em uma cadeira, o que me deixa desconfortável, sem paciência e aí eu sumo, assim, simplesmente.

parece nem nada e é, perto de tantas coisas, mas existe muita coisa por trás disso. e quando eu começar a contar tudo que tenho para contar, vocês vão ver.

mas tenham a paciência de esperar muito, por favor. afinal, eu sumo, assim, simplesmente.

estou aqui pensando se devo me apresentar ou não

não sei exatamente como essa rede social funciona, mas vim aqui porque precisava jogar em algum lugar, textos e mensagens que já escrevi algum dia para alguém (ou não necessariamente). nao que eu seja alguma escritora, ou escreva super bem. na verdade é só isso mesmo: jogar em algum lugar. é que vem do coração e é lindo!