NÃO EXISTE SILÊNCIO EM SP
Durmo entre carros ferozes e vizinhos revoltados. Feroz é minha noite, se assim posso dizer. Escuto o mundo lá fora fervendo e gritando de calor. É inverno, mas há calor n’alma paulistana. Por isso fumo cigarros. Noites insones com suspiros forçados pela fumaça. É bom suspirar. Uso pontos finais, pois escrevo em frações. Leva um tempo, eu sei, mas faz sentido pra mim. Faz sentido, afinal, moro em São Paulo, que não dorme, que não para. Eu preciso parar quando escrevo. Parar para pensar. Parar. Para. Pensar. E depois retomo a frase enquanto tomo meu café. E logo escrevo outra, sem emendar na anterior. Não vivo de emendas. Gosto de terminar logo com as coisas. Menos com o café. O café eu demoro. Gosto de sentir o amargo por muito tempo, e mesmo quando gelado, ainda mais amargo e intragável, engulo-o sem careta. Comigo não tem careta, não tem cara feia, lobo mau, pastor no palanque nacional. Eu encaro o amargo e acabo com ele. Depois olho pra lua, pra fingir que sei de alguma coisa. E escrevo, num notebook velho empoeirado, deixando a terceira pessoa de lado. Prefiro ser sozinha. Só eu e a lua. O engraçado é que falo da lua, mas ela só aparece num intervalo de trinta minutos, que é a fresta que tenho entre os prédios para olhar o céu. O céu é difícil para certos paulistanos como eu. Sempre eu. E essa coisa estranha que chamo de apartamento. Esse pequeno pedaço de concreto que chamo de meu e que nem meu é. Melhor assim, não crio vínculos com as coisas, não caso com portas. Faço apenas descaso de tudo e todos. E depois durmo, com a janela escancarada, deixando a cidade entrar e deitar no lado vazio da cama.
(Giovanna Zambianchi)