“Ninguém tem o direito de ter você mais do eu. Ninguém. Nem mesmo alguém que te trate melhor. Foda-se se isso for egoísmo. Eu sei quem é o melhor para você.”
—Ana F (salt-waterroom)“Eu nunca o ouvi gritar. Tem noção de como é isso? Há vezes que eu desejo apenas sacudir seus ombros, jogar sua coleção de CDs favorita pelo ralo, puxar seus cabelos para ver se, assim, eu consigo alguma reação. Mas não. Ele não se deixa levar pelo calor do momento – e isso, muito mais do que punhos e murros, me apavora. Porque ele não sente medo de nada, nunca é levado pelo desespero. Duvido até que saiba o que é isso. Eu quero lhe tocar, quero que ele passe na rua e sinta meu cheio. Só que o garoto é feito de aço, ferro. Sei lá. Possui um cérebro extra onde a maior parte das pessoas tem um coração. É notável a maneira como costuma apenas sorrir com a desgraça alheia, por pensar que isso nunca vai lhe acontecer. Ele se acha tão importante, tão independente, que pensa que jamais vai precisar de ninguém. Nega qualquer ombro amigo, como se só ele se soubesse. Ele não acredita no amor. E, por isso, eu não posso acreditar nele.”
—Ana F.“Dexter, Sei que isso soa totalmente imaturo e egoísta aos seus ouvidos, mas você precisa entender que eu sou infeliz. Terrivelmente infeliz. Acho que essa é a verdadeira depressão: posso sorrir o quanto quiser durante o dia, e mesmo assim não sei o que é dormir com paz no coração. Você não é assim. Você extravasa e na hora já se esquece – tem um coração que se reconstrói e fica cada vez maior. Eu não. Meu pobre peito já apanhou tanto que se esqueceu de voltar ao normal. Agora, sou cicatrizes e sangramentos para todos os lados. Por que a vida continua, mas eu talvez não. O tempo passa como passava há milênios atrás, e ainda assim eu o sinto cada vez mais devagar. Não há muito o que fazer a meu respeito e eu compreendo sua necessidade de fugir. Mas não me diz que pretende ficar, por favor. Nunca mais diga que pretende ficar quando tudo o que eu mais quero é escapar dessa vida. Não me obriga a continuar, D. Você já me acertou, já cravou a faca no fundo do meu peito, e agora implora para que eu estaque meu sangue. Não posso fazer isso. Não quero fazer isso. Quero dizer adeus, Dexter. Deitada no chão, vendo minha vida escorrer, encarando seus olhos cálidos e gentis sob mim, penso que poderia dar mais alguns passos. Reaprender a amar a vida. Voltar a correr no ritmo daqueles que ganham campeonatos. Talvez, quem sabe, tudo tenha sido um erro e eu, na verdade, seja mais uma apaixonada que se desencantou consigo mesma. Talvez seja só uma fase e logo vá passar. Talvez seus olhos me ajudem a recobrar o juízo que perdi... Mas não. Sei que, com pouco esforço, aprenderia a erguer o canto dos lábios. Sei disso. Eu sou capaz. Apenas não encontro vestígios do velho desejo de erguer-me. Mesmo com a chance de lutar, escolho continuar deitada aqui no chão. Depois de todo esse tempo, preciso ser fraca. Você é a melhor pessoa do mundo, Dexter, e nunca me perdoarei por lhe magoar dessa maneira, que talvez seja permanente. Se isso serve de consolo, esse é o único pensamento que me faz recuar: você. Imaginar sua dor ao pensar que fez isso comigo é muito pior, para mim, do que a dor em si. Por isso, quero que saiba que não foi só você. Sim, é verdade: sua traição foi o último empurrão para o abismo gigantesco que me quebrou os órgãos. Sua saída foi o início de uma sucessão de partidas que me arranharam as costas e perfuraram um pulmão. Seu olhar de dor, entretanto... Sua dor foi a apunhalada no peito. E agora sou eu que não impeço o ferimento de me matar. O problema é todo comigo, Dex. Sempre fui espírito demais para suportar viver com ele separado do corpo. Eu sou infeliz, apesar de todas as coisas maravilhosas que carrego comigo. Apesar de você, me amando e sendo feliz ao meu lado, eu sempre tive esse vazio terrivelmente ácido que foi, aos poucos, me matando por dentro. Morro a partir do interior, morro silenciosamente. Meus gritos não são escutados e meu choro não é visto – mas não por não confiar em você. Confio cegamente em tudo o que você faz e acredita. Mas já vi o sofrimento em seu olhar, e essa é a única dor pela qual não desejo passar novamente. Todas as outras eu aceito de braços abertos. E mesmo quando faço aquilo que mais amo em todo o mundo, não consigo deixar de ter a sensação de que há algo errado comigo. Não amo mais nada. Não consigo. Não sei aceitar a vida com um sorriso no rosto, mesmo com as suas belezas mais exuberantes. Não consigo mais abrir um livro sem sentir inveja das palavras escritas. Deveria ser eu, D. Eu. Mas nunca é. Mato dragões só para sair da cama, e mesmo assim eles me vencem um pouco mais todos os dias. Sua força é indomável e eu sou pequena demais para suportar a perda de mais um membro. Não vivo a base de batimentos cardíacos, mas da eterna culpa por não gostar de existir. É tudo difícil demais, D... Difícil demais. Eu quero o fácil. Eu preciso do fácil. Meu último sopro será seu. Com amor, Eu; ”
—Ana F.“Olhei para o espelho, e vi meu cabelo cheio e nós e a maquiagem falhando. O brilho que habitava meus olhos estava se desvanecendo aos poucos. Me sentei no chão e fiz um esforço tremendo para não desabar. O quão ridícula eu poderia me tornar por um garoto? Que mulher não se apaixona por esse sorriso de canto e dentes brancos? Que mulher é tão forte a ponto de resistir a ele? Com toda a certeza do planeta, não eu. Nunca vai ser eu.”
—Ana F (salt-waterroom)“- Eu achei que seguir seu próprio caminho não incluía minha melhor amiga! - Qual é a diferença em ser a sua melhor amiga ou uma estranha qualquer? Pra mim, ela é exatamente como todas as outras desse clube. A única coisa que eu reparo é que nenhuma delas é você! - Por que você não me esquece, Henrique? Por que não volta praquela horta de vagabundas te esperando lá fora? Eu já de disse milhões de vezes: aqui não tem nada pra você! – eu gritei, com mais força do que esperava. - Desculpa ser a pessoa que te dá essa notícia, mas, infelizmente, aqui tem coisa demais que te pertence! – sua voz se torna cada vez mais baixa quando você percebe o que acaba de dizer. – Viu? É por isso que eu não posso apenas deixar que você se vá. – a última parte foi dita quase como um sussurro.”
—Ana F (salt-waterroom)“Depois de dois meses sem você, é difícil demais te encarar. Você me desacostuma de você, apenas para depois voltar e me sacudir de novo. Você some do mapa, não me deixa notícias, não atende minhas ligações. Para simplificar, apenas finge que eu não existo. E, então, volta como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse passado os últimos 63 dias contando no calendário o tempo que demoraria para que eu pudesse te ver de novo. Você ignora completamente o fato de que eu passei esses 63 dias acordando e checando as mensagens do meu celular. E as ligações. E meu e-mail. E qualquer coisa que tivesse a menor ligação com você. Você finge não saber o meu desespero. E aí volta com esse sorriso de canto, o cabelo ainda mais comprido e bagunçado, a blusa branca com o jeans e me olha sem escrúpulo nenhum, como se tudo isso fosse apenas normal. Como se nós dois devêssemos nos sentir assim. E eu devesse apenas me atirar nos seus braços a agradecer por ter voltado para a minha vida mais uma vez. Bem, não agora. Talvez nunca mais.”
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Ana F (salt-waterroom)