“Ninguém tem o direito de ter você mais do eu. Ninguém. Nem mesmo alguém que te trate melhor. Foda-se se isso for egoísmo. Eu sei quem é o melhor para você.”
—Ana F (salt-waterroom)“Olho para os lados; não encontro. Não sei por que ainda insisto em lhe procurar no meio desse mar de gente, sabendo que você não vem mais aqui, mas, ainda assim, procuro. Existe algo secretamente romântico na ideia de estar sempre esperando por você, um quê artístico no sofrimento que isso me causa. Mas não. Continuo sendo a mesma garota que fica sentada, torcendo tanto o pescoço que poderia pegar torcicolo. Gostaria de acreditar que existe certo heroísmo da minha parte, porém, é pura estupidez que me leva a acreditar que, um dia, voltaria a ver suas manchinhas em forma de signos no pescoço rondando essa esquina. Não é uma rua usual sua, e não vejo motivos pelos quais você desviaria de seu caminho para casa. Não mais. Tiraram a placa de pare virada e repintaram a faixa de pedestres. Sei que isso é bom para a população geral e tudo mais, mas não consigo afastar o sentimento de pura tristeza que me domina quando vejo as letras em sua posição correta. Não acredito nessas coisas de destino, cartomante, estrela cadente nem nada – entretanto, eu gostava de pensar que existia algo nosso nesse mundo. Alguma risada baixinha que se eternizou na área entre nossos corpos, algo que eu pudesse tocar mentalmente todas as vezes que você se afastasse de mim. E agora nem isso. A gente sempre ria do pare e da imbecilidade humana por conseguir errar em uma tarefa tão simples quanto não prender uma placa de cabeça para baixo. E depois passava horas discutindo quem era a pessoa que fazia isso e se seria a mesma que havia pintado torto a faixa de segurança. Provavelmente, sua voz me dizia. “Jamais existirão duas pessoas tão idiotas no mundo”. Eu discordava. Você tinha essa mania ridícula de enxergar o melhor do universo, como se ele estivesse numa eterna corrida para deixar você mais e mais feliz. Perguntei, em tom de brincadeira, se você conhecia a dor, mas você entendeu o que eu queria saber. E você me respondeu que conhecia meus olhos e continuava a gostar deles. Acho que foi uma das coisas mais bonitas que já me disseram. Durante aquele milésimo infinito, fiquei perplexa como não ficava há muito, e meu coração apertou e explodiu de forma que eu pensei que já não fosse mais possível. Cheguei a imaginar todo um futuro programado, desses estilo final de novela: simples. Com casamento e filhos e madrinhas e vestidos e casas na praia e tudo mais. Eu olhei para o lado e vi um lugar bonito para viver. Naquele espaço de tempo, você me atravessou. Agora, eu atravesso a rua para chegar o mais rápido possível do outro lado, onde não haverá resquícios de piadas mortas e risadas feridas. Aquelas pessoas estão mortas. Nós dois morremos. Não somos mais quem éramos e eu me perdi na transição. Não sei mais quem sou, muito menos você. Vejo seu sorriso amarelado sendo depositado nos lábios de outras garotas e não sinto dor. Eu amei você com o cabelo tapando os olhos e as roupas grandes demais batendo no cotovelo macio. Eu amei você alto e sem jeito subindo as escadas da minha casa, enquanto carregava uma sacola com as minhas porcarias favoritas. Eu amei seus punhos e olhos fechados, tentando aliviar a raiva. Eu amei seus olhos escuros e cálidos me olhando de cinco em cinco minutos para ter certeza que eu não ia chorar. Não amo esse seu novo você. Seus olhos não têm mais brilho, o som da sua voz perdeu a vida. A vida, de repente, lhe satisfaz. O seu timbre perdeu a força e suas mãos servem para carregar conquistas. Você era melhor comigo. Lembro aquela última vez que a gente se falou, numa quarta-feira ensolarada no meio do verão. Não tinha nada a ver com nós, nada a ver com todas as tramas que minha cabeça teima em inventar – eu esperava tempestades, ventos fortes, o mar puxando o mundo em busca de algo que suplantasse seu imenso vazio. Eu queria metáforas, eufemismos e todas as coisas que o mundo pode lhe oferecer quando a tristeza toma conta. Ganhei um dia bonito e crianças rindo enquanto corriam atrás do caminhão de sorvete. Nunca pensei que aquele fosse ser realmente o fim. Achei que fosse uma pausa, um “somos muito novos e muito intensos”. Eu podia aceitar até mesmo “acho que você entendeu errado”. Porque, honestamente, acho que entendi errado mesmo. Você gostava das minhas tiaras e coques e casaquinhos. Você ria das minhas piores piadas. Eu nunca te pedi amor; só precisava que você me entendesse. Tudo o que eu sempre pedi foi compreensão, aquela sensação que apenas você conseguia me dar. Sempre esperei poder contar com você para não julgar minhas escolhas, porque nós coincidíamos de forma extraordinária nos erros. Eu nem sei como é que se faz para pedir ajuda, apoio e essas psiconecessidades. Não te acordei para dizer que tudo doía e que o mundo era um lugar horrível para se viver. Eu gostei de você quieta, no meu canto, rindo sozinha enquanto você tentava ser gentil com as crianças. Gostei de você como a gente gosta de alguém que sabe que não gosta de nada nessa vida. Nunca, nem em um milhão de anos, pensei que meu decreto final viria de você. Jamais se passou pela minha cabeça ter que ouvir sua voz me dizendo que eu era intensa demais e esperava coisas demais e que já estava machucada demais para ser consertada. Sendo fiel às suas palavras, “fodida demais para ter um jeito”. Eu sei disso, sempre soube. Mas não precisava falar. Não precisava ser a sua boca que transformava o pensamento em fato. Sempre tive uns miolos a menos e uma vontade enorme de cobrir o mundo inteiro com um corpo que mal consegue respirar. Eu sempre tive falta de ar, mas pensei que as próximas causas seriam restritas a você. Minhas pernas sempre me abandonaram nas horas em que eu mais precisei delas, mas pensei que fosse ser diferente. Pensei que você estaria aqui para me guiar quando meus olhos falhassem. Eu nunca usei máscaras com você, e talvez esse tenha sido meu maior engano: achei que você suportasse. Eu nunca tive jeito, eu nunca sequer tive vontade de ter um jeito. Eu só gostava da vida pelos seus olhos; nunca vi futuro nenhum para mim. Apesar de tudo, fico feliz em saber que você escolheu ignorar a dor, em vez de abraçá-la. Escolheu fingir que ela nunca esteve ali. Tirei muitas conclusões precipitadas a seu respeito, e percebo que talvez eu nunca tenha te conhecido. Por uns meros instantes, pensei que nossas almas fossem feitas do mesmo material, e que você houvesse se emaranhado na agonia, como eu. Você nunca foi corajoso, nunca se atreveu a pular completamente o arame farpado. Conversávamos através dele – eu apenas não havia percebido. Acho que eu fui sua tentativa de ir para o outro lado, tentar algo novo durante o momento mais sombrio da sua vida. Você estava triste e desesperado e encontrou consolo na minha loucura desenfreada. Você queria alguém para culpar e culpou a mim. Você pensou que podia me tirar dessa, mas não foi capaz de compreender que eu não estou em lugar nenhum. Essa sou eu – de cabelo preso, óculos de grau, moletom cinza e olhos abertos. Derramando versos de poesias antigas, decorando trechos de livros. Eu sou a louca que escreve textos enormes para personagens imaginários e conta a vida em palavras. Eu sou esse erro biológico que acabou sobrevivendo às tentativas do mundo de acabar comigo. Eu sou corajosa, forte, fraca, quebrada. Eu sobrevivo a quase tudo. E você... Você é só um garoto. Você é quase nada e ainda assim me parece muito. Você é uma força da natureza, arrastando o mundo com seus desastres. Um erro de julgamento seu foi o bastante para me desfazer. Talvez eu esteja apenas realmente necessitando de alguém que me entenda, mas não: eu acredito, com toda a força de quem não acredita em absolutamente nada, que existe ou existiu algo a mais em você. Não só esse garoto que faz um desfile de garotas e arruma o cabelo. Não acredito que esse seja o verdadeiro você. O real você mostrou para mim. O verdadeiro você é o garoto com sinais que formam um leãozinho que riu comigo das estupidezes e que conheceu a dor de perto como ninguém jamais ousou. Sua coragem foi a minha também.”
—Sobre placas e dores, Ana F.“Você foi a única luz que meus olhos já viram, o sonho que meu subconsciente jamais teve a coragem de pedir. Você foi o último puxar de ar que meus pulmões cansados se atreveram a inspirar. Seu nome ainda queima na minha garganta, seus longos e dóceis dedos ainda traçam minha pele durante a noite. Você foi a única estrada em que eu me senti livre o bastante para correr. Seus olhos foram os diamantes que refletiram meu sol, sem saber que um dia queimaria o mundo todo. Você foi o único lar que a minha alma já conheceu. O último.”
—Ana F.“Eu sei, esse não é o tipo de coisa que deve ser dito às três da madrugada, quando qualquer pensamento lúcido ameaça desaparecer. Não deveria nem ter pego meu celular nem saber seu número, para início de conversa. Mas você atendeu sabendo que nada de bom acontece nesse horário. Admito, sou uma filha da puta orgulhosa que não sabe pedir penico. Mas tô pedindo. Implorando, pra ser sincera. Não espero muita coisa de você e muito menos de mim, só que eu preciso urgentemente de um tempo para respirar. Preciso de um colo rápido de cinco minutos do único homem que já foi capaz de entender o porquê de tantos muros e cercas e proteções. E soube como destruir cada uma dessas coisinhas. Não sou idiota, sei que tá tudo dando errado para nós dois. Mas tenho noção de que muito já deu certo. E tudo que eu peço são pouquíssimos minutos para chorar todas as dores e perdas do universo nos ombros mais seguros que já conheci. Porque tá doendo. Tudo dói. O mundo não é mais aquele lugar bonito que um dia a gente sonhou.”
—Ana F.“Olhei para o espelho, e vi meu cabelo cheio e nós e a maquiagem falhando. O brilho que habitava meus olhos estava se desvanecendo aos poucos. Me sentei no chão e fiz um esforço tremendo para não desabar. O quão ridícula eu poderia me tornar por um garoto? Que mulher não se apaixona por esse sorriso de canto e dentes brancos? Que mulher é tão forte a ponto de resistir a ele? Com toda a certeza do planeta, não eu. Nunca vai ser eu.”
—Ana F (salt-waterroom)“- Eu achei que seguir seu próprio caminho não incluía minha melhor amiga! - Qual é a diferença em ser a sua melhor amiga ou uma estranha qualquer? Pra mim, ela é exatamente como todas as outras desse clube. A única coisa que eu reparo é que nenhuma delas é você! - Por que você não me esquece, Henrique? Por que não volta praquela horta de vagabundas te esperando lá fora? Eu já de disse milhões de vezes: aqui não tem nada pra você! – eu gritei, com mais força do que esperava. - Desculpa ser a pessoa que te dá essa notícia, mas, infelizmente, aqui tem coisa demais que te pertence! – sua voz se torna cada vez mais baixa quando você percebe o que acaba de dizer. – Viu? É por isso que eu não posso apenas deixar que você se vá. – a última parte foi dita quase como um sussurro.”
—Ana F (salt-waterroom)“Depois de dois meses sem você, é difícil demais te encarar. Você me desacostuma de você, apenas para depois voltar e me sacudir de novo. Você some do mapa, não me deixa notícias, não atende minhas ligações. Para simplificar, apenas finge que eu não existo. E, então, volta como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse passado os últimos 63 dias contando no calendário o tempo que demoraria para que eu pudesse te ver de novo. Você ignora completamente o fato de que eu passei esses 63 dias acordando e checando as mensagens do meu celular. E as ligações. E meu e-mail. E qualquer coisa que tivesse a menor ligação com você. Você finge não saber o meu desespero. E aí volta com esse sorriso de canto, o cabelo ainda mais comprido e bagunçado, a blusa branca com o jeans e me olha sem escrúpulo nenhum, como se tudo isso fosse apenas normal. Como se nós dois devêssemos nos sentir assim. E eu devesse apenas me atirar nos seus braços a agradecer por ter voltado para a minha vida mais uma vez. Bem, não agora. Talvez nunca mais.”
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Ana F (salt-waterroom)