“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”

—Clarice Lispector, último bilhete escrito no hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, 7/12/1977.

“Eu gosto disso, dessa possibilidade da volta, dessa falta de despedidas, dessa sinceridade das palavras…”

Dom Casmurro 

“no fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo extinto por lei todo o remorso, maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás nã há nada, e nada mais mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas”

—“Bem no fundo” por Paulo Leminski

“De tudo ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”

—“Soneto de Fidelidade”, Vinicius de Moraes

“Me busco em músicas que dão ritmo ao que sinto de forma silenciosa e me busco em trechos de livros que revelam idéias que mantenho ainda embaralhadas”

Martha Medeiros  (poesia-moderna)

“Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro. Às vezes não é fácil saber em qual dos dois estamos.”

—Daniel Galera, em “Barba Ensopada de Sangue”

“No começo da noite caiu uma carga de água. Também as nuvens pretas logo depois desapareceram do céu e as estrelas brilhavam,brilhou também a lua cheia. Pela madrugada dos Capitães da Areia vieram. O Sem-Pernas botou o motor para trabalhar. E eles esqueceram que não eram iguais às demais crianças, esqueceram que não tinham lar, nem pai,nem mãe, que viviam de furto como homens, que eram temidos na cidade como ladrões. Esqueceram as palavras da velha de lorgnon. Esqueceram tudo e foram iguais a todas as crianças, cavalgando os ginetes do carrossel, girando com as luzes. As estrelas brilhavam,brilhava a lua cheia. Mas, mais que tudo, brilhavam na noite da Bahia as luzes azuis,verdes,amarelas,roxas,vermelhas, do Grande Carrossel Japonês.”

—trexo de “Capitães da areia” de Jorge Amado

“Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.”

—Clarice Lispector

“Lua Adversa Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu... ”

—Cecília Meireles 

“Eta vida besta, meu Deus.”

—Carlos Drummond de Andrade

“Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu.”

—Iracema

“Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte.”

—José Saramago

“Mas todos nós, habitantes deste planeta, estamos no mesmo barco, numa travessia incerta e tempestuosa. O menos que podemos fazer com sabedoria é tentar compreender nossos companheiros de viagem. Ser compreensivo é ser tolerante, e a tolerância é a base da amizade e da paz. E paz e amizade são a nossa maior preocupação nesses anos aflitivos.”

—Erico Verissimo em seu livro Breve História da Literatura Brasileira

“(…) Gasto mais da metade do meu ordenado em veneno contra as baratas. Vivo sem elas, mas só eu sei o que isto me custa de energia moral. Altas horas, quando venho da noite, há sempre uma, duas baratas ávidas me esperando. Se abro a porta incauto, perdido nos pensamentos insolúveis desta nossa condição, isso elas dão uma corridinha telegráfica, entram e tratam logo de esconder, inatingíveis. Eu sei que, feito de novo o escuro no apartamento, elas irão morrer se banqueteando com os venenos que me custam metade do ordenado. Mas me vem uma saudade melancólica dos meus ordenados inteiros, dos livros que não comprei, dos venenos com que não me banqueteei. Pra dar banquete às baratas. Às vezes me pergunto: por que não mudo desta esquina?… Mas sempre o meu pensamento indeciso se embaralha, e não distingo bem se é esquina de rua, esquina de mundo. E por tudo, numa como noutra esquina, eu sinto baratas, baratas, exércitos de baratas comendo metade dos orçamentos humanos e só permitindo até o meio, o exercício de nossa humanidade. Não é tanto questão de mudança. Havemos de acabar com as baratas, primeiro.”

—Mario de Andrade (Os Filhos da Candinha)

“Sonhei que me esperavas. E sonhando, Saí, ansioso por te ver: corria... E tudo, ao ver-me tão depressa andando, Soube logo o lugar para onde eu ia.”

Olavo Bilac

“Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste”

—Carlos Drummond de Andrade (via amena-solidão)
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