“Talvez seja a brisa suave ou o calor da madrugada que me faz lembrar você. Talvez a canção recheada de amor ou um dia da semana. Talvez seja uma simples saudade sem maiores justificativas. Talvez seja sem querer, ou proposital. Eu nunca sei; nunca sei quando você vai pousar na janela do meu coração ou voar para longe de mim; e quando voa, eu nunca sei se vai voltar. Eu sinto que há um vão entre nós; uma muralha, um muro de Berlin. Eu não sei se é essa forma ímpar com que me completa ou o quente frio que causa nas entranhas do meu peito. Não é como se eu tivesse deixado você invadir minhas portas e janelas. Não é como se eu quisesse essa explosão clara e barulhenta que você causa; mas aí, estranhamente, eu quero. E é esse teu jeito de não ter jeito nenhum. É esses teus sorrisos que me devoram. Esses seus olhos que me formigam a alma. Você vê? Todas essas falanges de seis metros que nos cercam, todo esse muro de pedra áspera que nos separa? Você tem medo de pular comigo e alcançar o chão do mar? Porque eu tenho. Você balança e bagunça tudo aqui dentro de mim. Como se eu fosse um carro surrado, um chevet velhinho ou um fusca sem placa, eu nunca sei se você vai me concertar ou me pifar de vez. E o que faço com esse medo de você me deixar em um esquina qualquer, sem gasolina no tanque, sem cigarro no porta-luva? Eu te pediria para ficar, eu te pediria para ir. Eu te diria sim e não na mesma frase. Eu te beijaria e sairia correndo. Eu omitiria várias coisas e gritaria outras tantas. Eu tomaria coragem no lugar do café por você; mas não dá não. Não agora, não assim. Não estou pronto para pular nessa vastidão de incerteza. Não estou pronto e não sei se estarei algum dia; Talvez eu fuja ou talvez eu te ligue, não sei... ”
—Repulses, ímpar ou par ou você.