“O que a gente achava disso no início? Paixonite do colégio que talvez nem desse futuro algum. Mas era bonito sabe? E mesmo que não desse futuro era bem mais que paixonite. Eu amei ele, ele também amou eu, mesmo que no comecinho eu jurasse de pé junto pra quem quisesse ouvir que eu não ia gostar dele. Eu jurava e não tinha mesmo vontade de gostar logo dele, guri mais metido e besta que se pode imaginar. E ele insistia mas achava que nunca viraria esse amor que virou. A gente não imaginou mesmo. E bah, que clichê, mas é. Porque eu gostei dele e ele do meu perfume, do cabelo, da risada. Ele me acha divertida mas eu juro que é totalmente ao contrário. Ele disse que não teve como não gostar de mim. Acho incrível isso. Eu é que não tive outra saída se não acabar gostando dele e do cabelo bagunçado, do telefonemas de madrugada, dos abraços no meio do corredor. Eu gostei também de Eric Clapton depois que ele me contou que Wonderful Tonight era a nossa cara. Passou a ser a nossa música. E eu passei a curtir demais mesmo Eric Clapton e antes eu nem sabia quem era o cara. E eu sou complicada demais e ele sabe mas diz que gosta mas nem se imaginava tendo tanta paciência com alguém. E eu gosto quando ele me chama por um apelido mas digo que ele me quebra por dentro assim. Ele me quebra de tantos jeitos, me conserta de tantos jeitos. E eu sei que quebro ele quando deixo a voz falhar do outro lado da linha até desligar o telefone. A gente se quebra o tempo todo mas é que tem jeito não. E depois de bater a porta e dizer que não volta, depois de ficar um dia e meio sem se falar eu passei a chorar ouvindo Wonderful Tonight. Mas depois sei lá né? A gente sempre volta. Mesmo dizendo que não volta mais, que se odeia, a gente volta e a gente se ama, é claro que sim. Mesmo sendo tão complicados. E fica até meloso contar ou escrever porque ninguém entende a beleza disso. Eu jurava que não ia gostar dele nem do Eric Clapton e ele nunca se imaginou sendo tão paciente e sentindo saudade de uma voz bonitinha (eu não acho que a minha é, mas ele sim). A gente nem imaginava. Era só paixonite de colégio. Mas foi além, ficou bonito. Eu choro com a nossa música, ele bate a porta e a gente se quebra nisso. E tem briga, abraço, telefonema as 3h08 da manhã, tem a gente olhando as estrelas junto, amasso no sofá, saudade no fim de semana, saudade no meio da semana, tem a gente dividindo batata frita e ainda jurando que se não fosse por sabe-se lá o que a gente nunca ia gostar um do outro. Mas a gente gosta. E a gente volta. E se pertence, se ajeita, é um casal meloso, casal nada a ver. E era pra ser só paixonite de colégio. Quem disse? A gente ouve a nossa música e olha as estrelas e se curte tanto e pede baixinho pra não acabar tão cedo. ”
—Clichê demais, eu sei, mas não tem jeito, a gente se curte demais também. Ana Luiza