“Bom dia tristeza Que tarde tristeza Você veio hoje me ver Já estava ficando Até meio triste De estar tanto tempo Longe de você Se chegue, tristeza Se sente comigo Aqui nesta mesa de bar Beba do meu copo Me dê o seu ombro Que é para eu chorar Chorar de tristeza Tristeza de amar.”

—Bom Dia Tristeza

Não é sobre amor não-correspondido, não é sobre amizade nem mesmo sobre família. Poderia ser, mas vai muito além. 
Entre todos os motivos que alguém tem para fazer mal a si próprio transcede o entedimento dos que só assistem.
Não é premeditado.
Não. Não é para chamar atenção.
Não é sobre escrever Justin Bieber ou algum ato de “revolução” como Cut4MCR. Não é sobre fazer porque outra cantora fez. 
É sobre você NÃO querer fazer e NÃO saber como parar. É sobre você não se sentir dentro de si e não saber o que te leva a fazer aquilo. 
É ficar tão perturbado e achar que vai explodir, que quer gritar sua dor pro mundo até todo mundo vir te salvar. Mas não adianta. É sobre querer sair de si, querer que a alma se liberte do corpo, como se este fosse uma jaula que te impede de realmente viver. 
É sobre ser dois em um. 
É não ter certeza de que tudo o que aconteceu anteriormente foi real. 
É muito agonizante a sensação de não saber se aquilo aconteceu ou foi sonho. É como uma foto de sexta à noite, de uma festa foda da qual você não lembra de absolutamente nada.
É não ter discernimento do que se passa diante dos seus olhos. 
Você lembra de tudo. Mas não parece que foi com você. Parece que você estava apenas assistindo. Como se você fosse duas pessoas, e seu segundo eu sentisse tudo e seu primeiro eu apenas observasse. E então você não se sente viva. 
Você tem um dia incrível, do qual todos amariam ter. Chega em casa e, como qualquer pessoa normal, deita para se lembrar de tudo. E se lembra, mas não consegue se imaginar naquilo. Não consegue relacionar o fato a sua pessoa. Aconteceu, mas não foi com você. 
Sim, é sobre distúrbio de múltipla personalidade. É sobre uma quase ou total esquizofrenia. 
Quando alguém se maltrata, depois para e pensa “por que fiz isso?” e depois conclui “não fui eu que fiz isso comigo mesma!”. 
Religiosos diriam possessão. Estudiosos diriam distúrbio e todo o resto diria loucura, besteira, mentira, falta de louça pra lavar. 
Não achem que quem faz isso faz porque quer. Ao invés de julgarem, procurem entender. Procurem ajudar. 

” What you SHOULD say to people dealing with Multiple Personality Disorder: I’ll always love you no matter who you are. I only hope the absolute best for you during your recovery and treatment, and maybe one day I’ll be so privileged as to love you as one whole.” 

“Bom dia, tristeza Que tarde, tristeza Você veio hoje me ver Já estava ficando Até meio triste De estar tanto tempo Longe de você Se chegue, tristeza Se sente comigo Aqui, nesta mesa de bar Beba do meu copo Me dê o seu ombro Que é para eu chorar Chorar de tristeza Tristeza de amar”

—Vinícius de Moraes

Bom Dia, Tristeza

Maysa

“Bom dia, tristeza” por Maysa…

“Se chegue, Tristeza! Se sente comigo! Aqui, nessa mesa de bar. Beba do meu copo, me dê o seu ombro... Que é para eu chorar.”

“Antes de vir pra cá, pensei por um bom tempo que para sair do labirinto fosse necessário fingir que ele não existia, construir um mundo pequeno, porém autossuficiente num rincão longíquo desse infinito labirinto e fingir que eu não estava perdido, mas em casa. Só que isso tinha me conduzido a uma vida solitária, tendo por companhia unicamente as últimas palavras dos já-mortos. Então vim para cá em busca de um Grande Talvez, de amigos verdadeiros e de uma vida maior do que a minha vidinha. Mas estraguei tudo, o Coronel estragou tudo, Takumi estragou tudo, e ela escorreu por entre nossos dedos. E não adianta embelezar a verdade: Ela meceria amigos melhores. Depois que estragou tudo, tantos anos atrás, apenas uma garotinha imobilizada pelo terror, Alasca desmoronou em seu próprio enigma. Eu poderia ter tomado o mesmo rumo, mas sabia onde aquilo ia dar. Então continuo acreditando num Grande Talvez e sou capaz de acreditar nele apesar de tê-la perdido. Pois, sim, vou esquecê-la. Aquilo que é construído desmorona imperceptivelmente devagar. Vou esquecê-la, mas ela perdoará meu esquecimento, assim como eu a perdoo por ter se esquecido de mim, do Coronel e de todo o mundo, lembrando-se apenas de si mesma e de sua mãe naqueles últimos minutos que passou como pessoa. Hoje sei que ela me perdoa por ter sido burro e medroso, por ter tomado uma atitude burra e medrosa. Sei que ela me perdoa, assim como sua mãe também a perdoa. Eis por que sei disso: Pensei, no começo, que ela fosse apenas um cadáver. Apenas escuridão. Apenas um corpo a ser comido pelos vermes. Pensei muito nela assim, como a refeição de algum bicho. O que ela fora - olhos verdes, um meio sorriso, as curvas suaves da perna - em breve seria um nada, apenas ossos que eu não tinha visto. Pensei no lento processo de tornar-se esqueleto, depois fóssil, depois carvão, e, dali a milhares de anos, ser extraído pelas pessoas do futuro, que aqueceriam suas casas com ela e a transformariam em fumaça, ondulando numa chaminé, cobrindo a atmosfera. Às vezes, ainda acho que a "outra vida" é algo que inventamos para apaziguar a dor da perda, para tornar nosso tempo no labirinto suportável. Talvez ela fosse apenas matéria, e a matéria se recicla. Mas, para ser sincero, não acredito que ela fosse só matéria. O resto dela também precisa ser reciclado. Hoje, acredito que somos mais do que a soma das nossas partes. Se pegássemos seu código genético, suas experiências de vida, seus relacionamentos com outras pessoas e os enxertássemos num corpo do mesmo tamanho, com as mesmas proporções, ainda assim não teríamos outra Alasca. Existe algo mais. Uma parte que é maior que a soma das suas partes cognoscíveis. E essa parte, tem que ir para algum lugar, pois não pode ser destruída. Embora ninguém possa me acusar de ser um grande estudioso das ciências exatas, se tem uma coisa que aprendi nas aulas de Física é que a energia não se cria nem se destrói. E, se Alasca realmente tirou sua própria vida, esse é o tipo de esperança que eu gostaria de lhe ter dado. Esquecer e abandonar a mãe, os amigos, as próprias expectativas - eram coisas horríveis, mas ela não precisava ter se metido em si mesma e se autodestruído. Somos capazes de sobreviver a essas coisas horríveis, pois somos tão indestrutíveis quanto pensamos ser. Quando os adultos dizem "Os adolescentes se acham invencíveis", com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Não nascemos, nem morremos. Como toda energia, nós simplesmente mudamos de forma, de tamanho e de manifestação. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e de fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar. Eu sei que ela me perdoa, assim como eu a perdoo. As últimas palavras de Thomas Edison foram: "O outro lado é muito bonito." Eu não sei onde fica o outro lado, mas acredito que seja em algum lugar e espero que seja bonito." ”

—Quem é você, Alasca?

Tristesse

“Bom dia, tristeza
Amor dos corpos amáveis
Potência do amor
De que surge a amabilidade
Como um monstro sem corpo
Cabeça desapontada
Tristeza, belo rosto.”

- La Vie Immédiate, poema de ELUARD, Paul, que serve de introdução para o livro Bom Dia, Tristeza, de SAGAN, Françoise.

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