“Talvez haja alguma coisa lá na frente que faça valer. Valer sei lá o que, a pena, a dor, a porra que já fomos. Talvez haja alguma coisa lá na frente como um ímã, que nos puxa para o futuro, que nos incentiva a continuar andando. Ou talvez haja algo no presente que nos repila para outro tempo, porque isso aqui nunca vai ser suficiente. Não foi quando era futuro, não será ao se tornar passado e não é, como presente. Quem sabe - ou com certeza é isso - a merda somos nós. Fedendo em qualquer banheiro, seja de ouro ou mármore, ou só um buraco no meio de um matagal. Sendo merda em qualquer lugar que estejamos. Faz tanto tempo que não ouço Cazuza que se você cantar uma música dele pra mim, vou perguntar 'quem é esse cara?'. A mesma coisa sobre Deus. Uma vez uma menina me deu um CD e me pediu para falar o que achei quando a reencontrasse. Fui encontrá-la um ano depois, num chalé do norte de Minas. Ela me reconheceu, perguntou sobre o CD. Falei que o CD nunca tocou, não deve ter sido gravado direito. Ela disse que eram 9 músicas gravadas e todas estavam em silêncio. Uma banda se reuniu, ficou gravando esses silêncios no estúdio e lançou esse CD. Transamos perto de um templo budista, conversamos sobre universo e criamos teorias quânticas. A menina tinha um estilete, com o qual arranhou toda a minha pele e lambeu meu sangue. Passamos dias em silêncio. Só transamos uma vez, debaixo daquele Buda. Uns dias depois ela foi para Itália, ou disse que ia e beijou mechas do meu cabelo. A lua está diferente a cada dia e eu não sei onde estou. Nada sabe onde está. Os homens fizeram mapas sobre a Terra, o mundo, os planetas, mas estão mais perdidos do que crianças em parque de diversões. Onde está a diversão da Terra, homens? Só vejo a limitação de quem só pode escolher um brinquedo. Podemos falar que somos parte dos cosmos, mas não fazemos força para ser. Nossa existência é diminuída por nós. Vomitamos no chão em que nossos pés pisam e escorregamos. Caímos com o rosto no vômito. Repetidamente. O tempo passa e o corpo dói mais. Envelhecemos porque não há outra opção. O corpo pede pra morrer. A vida pede para acabar. Nós somos o fim. Nada que façamos vá mudar o ciclo. Nós não somos a salvação do mundo, somos o pedido de partida, o ponto de destruição. Os terremotos estão em nossos passos.”

—mentiras sinceras não me interessam, Cazuza
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