“A gaveta já nem fechava direito, de tantos papéis empilhados, cartas que não foram enviadas, letras que silenciaram no escuro da estante, que cegaram ao ver a luz, depois de tanto tempo, retirei aqueles versos íntimos que foram fruto da mais dolorosa poesia. Lembrei de como as palavras cravavam minha pele como farpas de fogo, e o peito inflamava, e eu tão frágil, debruçava e chorava, chorava porque vivemos tanto tempo juntos nos meus sonhos mais utópicos e tão separados na realidade dorida, dos saudosos sonhos eu chorava. Por fim, queimei as cartas, pequenos fragmentos que pairavam no ar, que renasceram do monturo, como uma fênix, aqueles versos surgiram das cinzas, insistiam em queimar, mas não no papel, na minha memória designada a nunca ser esquecida. Há coisas que não devemos desenterrar nunca, seja passado, bilhetes ou flores. E me deu vontade de me trancafiar dentro daquela gaveta, que a muito tempo guardava as minhas dores, que não cabiam nos cem milhões de trova que escrevia, e ali, declarar meu cárcere privado, morreria até contente, arquivado e sozinho. A lápide seria as flores da estante e o meu passado não iria mais me atormentar, seria eu o único bilhete, pra ser sincero, seria o meu próprio atestado de óbito, causa da morte: saudade. ”
—Archives.