– Então, está conseguindo retratar minha beleza?

– Quieto!

Felipe sorriu, porém não tornou a falar. Analisei-o pelo que seria a trigésima vez naquele curto período de quarenta minutos, e voltei novamente minha atenção para o papel. Havia um pequeno traço no lugar que supostamente deveria ser sua sobrancelha esquerda. Não se assemelhava em nada com a original, é claro. Talvez uma versão troncha, fina e morena dela. Ainda assim, estava me esforçando para entregar algo que não fosse digno de pena.

– Fica mais sexy se eu estiver sério ou sorrindo?

– Que tal se você simplesmente estiver de boca fechada? – Resmunguei, apagando o rabisco que fizera acima de seu olho.

– Você não gosta muito de desenhar, gosta? – Ele franziu o cenho, fitando minha expressão impaciente. – Deveria ter me deixado fazer seu retrato.

– E servir de modelo sua? Não, obrigada. – Arqueei as sobrancelhas, ainda tentando fazer uma linha aceitável. – Era sua chance de passar a aula inteira soltando gracinhas.

– Do jeito que fala, até parece que eu só sei fazer isso. […]

—  Spoiler, capítulo 9.
12. Testes de Gravidez, Mensagens não enviadas e a Terra de Oz

As mãos de Jenna Rivera tremiam. Esperava o sinal que mudaria, possivelmente, sua vida. Imaginava-se uma das personagens de um seriado de televisão, objeto principal do reality show sobre mães adolescentes. Imaginava a reação de Aaron à notícia. Lembrava-se de notícias sobre aborto clandestino, sobre ex namorados que assassinavam jovens grávidas por medo de seu pai. Lembrava-se da mão de Aaron contra seu rosto pálido, marcando-o de vermelho. Tinha medo.

Dylan Benzo sabia que não chegariam a tempo. O ônibus partiria em cinco horas e já haviam esperado três desde o início dos exames. O hospital estava lotado, graças a um enorme acidente em um bairro de periferia. Vítimas chegavam, famílias desesperadas, cirurgias urgentes. Jenna era deixada ao lado, sabendo não tratar-se de vida ou morte. Ele observava a garota chorar.

Finalmente, o médico adentrou o cômodo, uma prancheta em suas mãos. Pediu desculpas pela demora, sentando-se do outro lado da mesa de atendimento. A jovem esperava numa sala pediátrica, por falta de espaço no resto do prédio. Girava em seus dedos um daqueles palitos com gosto utilizados para examinar crianças.

“Eu vou direto ao ponto, Jenna” levantou os olhos, olhando para eles “Seus exames indicaram que sua falta de menstruação e seus sintomas não são sinais de gravidez”

A garota suspirou aliviada.

“Entretanto” o médico continuou “Ficou claro que você tem um problema hormonal grave, que precisaremos investigar a fundo. Sua condição é chamada amnorréia e, se não for tratada, pode ter consequências graves, inclusive a total falta de fertilidade.”

Jenna engoliu a seco. Dylan segurou sua mão com força.

“Eu vou precisar te fazer algumas perguntas, tudo bem?” ela assentiu com a cabeça, levando-o a continuar “Você pratica algum tipo de atividade física? Algum esporte, academia…”

“Eu-eu faço academia. Eu treino bastante.”

“E ela é líder de torcida”

O médico assentiu, digitando ferozmente em seu computador, virando as páginas presas na prancheta de madeira.

“E a alimentação?”

“Eu sempre… Eu sempre fiz dieta, por causa da torcida e tudo mais. E, com a escola e os treinos e os jogos, eu não tenho comido muito, acho”

“Você se acha gorda?”

A pergunta pegou a de surpresa. Olhou para Dylan furtivamente. Não havia nenhum sinal de sorriso em seu rosto. Encarou o médico e, levemente, calmamente, devagar, fez um sim com a cabeça.

“Você pula refeições, Jenna?” pausou por um instante, um sinal de compaixão em seus olhos “De propósito, digo”

Novamente, o sim foi tímido. Encarava o chão, fingia que Dylan não existia, o médico não existia, a tontura não existia. Aquele hospital tornou-se branco, da cor do chão.

“Jenna” o tom era preocupado “Você já vomitou alguma coisa que você comeu, de propósito? Ou tentou?”

Imaginou-se ajoelhada no banheiro de seu quarto, as mãos apoiadas na porcelana, os cabelos presos para trás.

As perguntas vinham uma atrás da outra e, para todas, bastava um assentimento simples, envergonhado. As lágrimas preenchiam seus olhos.

“Você se sente culpada quando você come? Você já pensou que você não é boa o suficiente? Você já pensou em acabar com sua própria vida? Você tem medo do futuro? Você já teve algum relacionamento abusivo?”

O rosto do médico tornava-se cada vez mais transtornado, em conjunto com o de Dylan, que segurava a mão de Jenna cada vez mais forte. A filipina soltou-se, virando a cabeça para o lado oposto. Queria que ele não estivesse ali, que ele não ouvisse aquelas coisas. Imagens de si mesma enchiam sua mente perturbada. Tinha medo, tanto medo.

“Seus pais são presentes na sua vida, Jenna?”

Agora, a garota chorava, mordeu o lábio inferior e fez que não com a cabeça. Pela primeira vez, falou. Falou como se nunca mais fosse parar. Ignorou que o resto do mundo existia, como se tudo o que houvesse fosse sua voz. Falou tudo o que nunca tivera falado.

“Meus pais mudaram pra cá pra que eu pudesse ter uma vida mais normal, menos presa nas regras das Filipinas, sabe? Eles queriam que eu tivesse aquelas vidas de filme, com as cercas brancas e tudo mais. Eles me deram um cachorro, me levaram em concursos de beleza, me colocaram pra ser líder de torcida. Minha mãe sempre ficou em cima do meu peso, porque ele podia ‘acabar com as minhas oportunidades’. Quando eu fiquei amiga da Sarah, eu tinha medo dela. Eu tinha medo porque ela dizia que nunca seria amiga de alguém que não fosse como ela. Rica, bonita, magra, líder de torcida, especial. Eu tinha medo e, como meus pais nunca estavam em casa, eu acabava não comendo. Eu tinha que fazer a comida, sabe? Porque eu falava que eu não gostava de ter aquelas mulheres fazendo pra mim, que eu queria aprender a cozinhar. Eu não gostava que a babá me fazia comer macarrão essas coisas. Então eu não comia. Nada. Eu só comia o almoço, na escola e, mesmo assim, eu sempre tentava achar alguma coisa pra fazer no lugar de comer. Foi ficando pior quando eu comecei a namorar o Aaron. Ele sempre falava que eu tinha que ser boa o suficiente pra ele, que tinham milhares de outras putas por aí que ele podia comer e que ele não ia ficar comigo se eu não continuasse sendo boa pra ele. Ele controlava o que eu comia, quando eu ia pra academia e sempre que eu comia alguma coisa que engorda eu apanhava. Eu tinha que cozinhar pra ele, mas eu não podia comer. Eu só comia o que ele queria que eu comesse. A primeira vez em que eu tentei me matar foi quando ele terminou comigo, da primeira vez, um ano atrás. Ele disse que tinha achado outra, muito melhor que eu. Mais magra, mais bonita. Eu me senti um lixo, eu tomei todos aqueles remédios, mas… mas a Sarah me achou, ela achou que eu andava estranha e foi ver como eu tava. Foi só ali que eu percebi que ela era minha amiga de verdade, sabe? E ela me ajudou muito e eu tava ficando melhor, mas.. mas aí eu voltei com ele. Eu não falei pra ela no começo e a gente brigou muito quando ela descobriu. E da segunda vez que a gente terminou foi pior ainda, porque nem ela eu tinha. Eu cheguei a ir pro hospital, mas eu conveci todo mundo que tinha sido um acidente. Ninguém fez nada. E eu continuei do jeito que tava antes”

O silêncio pairava na sala. Dylan voltara a segurar sua mão. O médico olhava em seus olhos, levantou-se e ajoelhou-se ao seu lado, para ficar mais perto da menina, que estava sentada perto da parede. Falava baixo, seu tom calmo, acolhedor. Como se falasse com uma criança.

“A gente precisa cuidar de você, Jenna. A falta de alimentação e o excesso de exercício causaram uma série de problemas hormonais que tão te fazendo muito mal. Eu preciso que você volte a comer e que você pare. Pare de fazer academia, pare de torcer. E eu preciso que você se afaste desse tal de Aaron, que deveria estar na cadeia e não aqui. Eu preciso que você fale com os seus pais, que eles comecem a cuidar de você. O sonho americano não é exatamente tão incrível quanto eles acharam que ia ser, né?”

—- — — —

Liz Henson encarava sua casa do outro lado da rua. As luzes apagadas na madrugada. Os barulhos de seu pai inaudíveis. O carro de sua mãe inexistente na porta da garagem. Observava a vida que não mais lhe pertencia. Não falava com seus pais desde aquela noite. Não chorava, seus olhos secos como um deserto.

Retirou o celular do bolso, buscando mandar a Josh uma mensagem.

“Eu preciso de você”

Deletou o texto, sem nunca enviá-lo.

— — — —

Sarah Hudson acordou sem se lembrar onde estava. Olhou em volta, seus olhos passeando pelo quarto. As paredes brancas, os pôsters de futebol, o capacete em cima da mesa. A mala fechada num canto do cômodo. Reconheceu-o, mordendo o lábio inferior. Ao seu lado, Rick dormia, os cabelos cacheados caindo bagunçados sobre seus olhos.

Levantou-se sem dizer uma única palavra e não mais fitou-o. Vestiu o vestido que caíra no chão, na lateral da enorme cama. Caminhou pé ante pé para a porta, torcendo para que os pais e o irmão do garoto não estivessem ali naquela manhã de quarta. Deixou-a aberta atrás de si.

Fazia calor nas ruas da cidade, por mais que ainda fosse cedo. O verão chegara com tudo em Ridgetown. Seu celular marcava seis e meia. Ainda precisava terminar a mala.

— — — —

Alice Jones dormia sozinha em seu quarto, abrindo os olhos lentamente, necessitando ir ao banheiro. Por um segundo, pensou em não se levantar, virando-se no colchão macio. Suspirou, apoiando os pés descalços no chão de madeira e percebeu que não fechara a janela na noite anterior.

Viu-o na casa ao lado, sua sombra no vidro. Teve certeza que ele a olhava. As memórias voltaram como um furacão, levando-a e Totó para a terra de Oz. Só que a estrada de tijolos amarelos fora substituída por cacos de vidro e o castelo esmeralda fora destruído pela falta de esperança.

Abrira os olhos com um sorriso nos lábios, lembrando-se da noite anterior. Nunca estivera tão certa de algo em sua vida. Nunca estivera tão certa daquilo. Sentia-se, finalmente, uma mulher e não mais uma menina. Seu coração era preenchido pelo amor que sentia por ele e tinha certeza que ele sentia o mesmo. Era seu primeiro amor.

Fechou as cortinas, as lágrimas preenchendo seus olhos, apagando sua imagem das retinas mas não dos pensamentos. Seu cabelo crescera um pouco desde a última vez que o vira, anos antes e ele deixara a barba crescer. Costumava dizer que seus fios loiros eram raios de sol que iluminavam suas manhãs. Hoje, eram raios que queimavam-a por dentro.

Levantou-se da cama, não conseguindo alcançar o chão de primeira. Ainda não passara por seu último período de crescimento, mas, na época, o médico dissera que não cresceria muito mais. Esperava encontrá-lo na cozinha, como em todas as manhãs em que ele cuidava dela. Entrou no cômodo com um sorriso, sabendo que não podia dizer nada sem antes saber se Josh chegara em casa. Não havia ninguém ali.

Seu irmão entrou no quarto, não percebendo as lágrimas nos olhos azuis da pequena garota loira. Lhe disse que o outro já tinha ido embora quando ele chegou e que não o encontrara na casa vizinha para dar-lhe o dinheiro. O loiro nunca mais apareceu, deixando-a com um coração partido e muitas perguntas não respondidas.

Se l'erotismo fosse un odore sarebbe senz'altro quello del sangue,del ferro bagnato, o della pioggia.Sarebbe umido come il terriccio del bosco in autunno,avrebbe i colori caldi dell'autunno,e saprebbe di buono.

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Capítulo 39

   Respirei fundo, tentando retomar qualquer tipo de mínimo controle que pudesse. Nunca me sentirá assim antes, a ponto de explodir. Eu a Rafa já discutimos algumas vezes, no passado, por conta do Diego, mas nada se comparava aquilo.

     - Não entendo você, - Ela estava sentada no banco do carona um tanto quanto histérica – Sempre disse que temos que dar tudo de nós naquilo que gostamos.

    - Quando eu digo dar tudo de você, é no sentido figurado – Falei irônica – não é pra você dar nada que é seu pra ele.

     Ela riu nervosa, passando a mão pelos cabelos lisos que lhe caiam sobre o olho.

    - É uma oportunidade excelente. – Ela comentou baixinho.

    - Oportunidade de conhecer a família dele? Todos lá dançam e eu não sei? Ou são empresários ou coisa do tipo? – Perguntei ironizando.

     Ela deu uma risada irritada, mas não respondeu.

    - Rafaela eles querem vender uma imagem que não existe. – Olhei para ela irritada por sua falta de compreensão – Ele está fazendo de propósito.

     Voltei a olhar a rua e percebi que havia entrado no lugar errado.

     - Propósito? Qual é seu problema? Por que tudo pra você é feito de propósito? – Ela virou o corpo na minha direção.

    - Realmente – Eu sorri nervosa – Nada na minha vida foi propositalmente né, foi tudo coincidência.

    - Eu não fui proposital. – Ela falou devagar.

    - Nem coincidência – Completei.

    Ela voltou se sentar reta, sem falar nada, eu também não disse mais nada e me concentrei em chegar o mais rápido possível no nosso destino.

    - Não gosto dele – Confessei com o olhar firme na estrada a minha frente – Não gosto dele te tocando, em publico. Fazendo charme, graça, qualquer coisa que chame sua atenção. Não gosto que ele entenda mais sobre as coisas que você gosta do que eu.

     - Você nunca se incomodou com isso.  – Ela falou baixinho.

     Não respondi, desisti de tentar explicar, ela não entenderia.

    - Talvez se a gente pudesse contar para mais pessoas, isso talvez… Sabe – ela suspirou – deixa pra lá.

     Estacionei o carro em frente a casa dela.

    - Não aguento mais discutir com você. Se não pode aguentar viver com isso, não deveria ter começado.

      Ela suspirou outra vez irritada. Ela não se mexeu pra sair do carro, e eu também fiquei quieta.

     - Você nunca vai acreditar no que eu digo não é? – Ela encostou a cabeça no vidro – Eu sei que de nós você é a que menos se preocupa, mas eu não estou nem aí também, não ligo se ninguém souber não me importa… Porque eu sei. Só estou dizendo que vamos ter que lidar com isso.

      - Não precisamos lidar com isso. É só você dizer que não e pronto. – Apoiei a cabeça no volante.

     Senti a mão dela na minha perna, e seu corpo mais perto do meu. Gentilmente eu segurei sua mão e a tirei de lá.

      - Vai ficar atrasada se não for agora. – Comentei baixinho.

     Ela não se mexeu nem um centímetro.

     - Sabe, se eu não te conhecesse tão bem, iria achar que você esta com ciúmes.

     Senti meu corpo gelar. Como saber se você esta sentindo uma coisa, se nunca a sentiu antes. Forcei uma risada irônica e olhei pra ela.

      - Por que eu sentiria né? Um menino que entende de tudo que você gosta, é bonito, simpático, neto de uma das pessoas que você mais admira no mundo… Não te chamaria atenção.

     - Não mesmo… – Ela passou a mão no meu cabelo.

     - Rafa… – Eu segurei a mão dela – Por favor.

     Ela suspirou desanimada.

    - Tá ok, senhora mandona – Ela brincou – Mereço um beijo pelo menos.

     Continuei olhando no fundo dos seus olhos e não vi vestígio de brincadeira, aproximei-me dela e lhe dei um beijo suave no rosto. Um sorriso divertido apareceu em seus lábios.

     - Ah não, eu acho que mereço mais – Ela falou próxima ao meu ouvido.

    - Para com isso, eu sei o que você esta tentando fazer. – Afastei meu rosto para longe do seu.

     Seus lábios tocaram minha bochecha devagar.

    - O que? – Seu rosto estava pertinho do meu.

   - Me persuadir para que eu esqueça o motivo pelo qual estávamos discutindo.

   Ela se afastou ainda me observando de um jeito divertido.

    - Você não sabe a tortura que era pra eu ter que fazer isso sem te tocar. – Ela falou com o olhar distante.

    - Então você admite que esta tentando meu persuadir? – Perguntei séria.

    Ela voltou a me olhar, com um pequeno sorriso de canto. Ela apoiou a mão na porta ao meu lado me cercando e começou a beijar meu rosto.

    - Talvez esteja funcionando – Ela sussurrou.

    Senti meu corpo arrepiar com a sua respiração no meu pescoço.

     - Para Rafa. – Usei toda força para empurra-la pra trás.

    Ela suspirou decepcionada.

    - Você é muito chata quando quer.

   - E você exibida. – Falei olhando pra frente.

   Ela ficou em silencio por alguns segundos até que começou a rir baixinho.

    - Qual macumba você fez pra mim? Porque eu amo até sua chatice.

  Preferi ficar muda. Qualquer coisa que eu falasse poderia me fazer fracassar e ela pensar que eu havia me esquecido do assunto.

    - Tudo bem – Ela disse por fim, abrindo a porta do carro – Te ligo quando terminar tá bom?

   Dei um pequeno sorriso em resposta. Com um olhar triste que partiu meu coração ela pulou para fora do carro. Segurei o impulso de ir atrás dela, e dizer para esquecermos todas essa bobeiras eu simplesmente fui para casa.

    - Olá mocinha – Meu pai disse assim que entrei.

    Sorri, e dei um beijo em seu rosto. Coloquei as chaves do carro no chaveiro e olhei para as sacolas de compras em cima do balcão.

    - Teremos visitas? – Perguntei enquanto roubava um pedaço de queijo que ele cortava.

    - Sim – Disse o Lohan entrando no cômodo carregando alguma forma com algo que eu não podia ver.

    Ele usava um avental ridículo, e eu comecei a rir. Ele abriu uma das gavetas pegou faca e uma tabua e me entregou.

     - Jantar em família - Ele piscou – toda ajuda é bem vinda.

     - Mamãe está vindo pra cá? – Perguntei entusiasmada.

     Sorridente ele respondeu que sim com a cabeça. Completamente renovada comecei a ajuda-lo no que precisava para preparar as coisas, e fiquei com a tarefa de piscar cenoura.

      Meu pai era o cozinheiro da família, e meu irmão era seu assistente numero um.

      - Como vai a Rafaela? – O Lohan perguntou, chamando minha atenção.

      Parei de corta a cenoura e olhei para ele surpresa. Meu pai também lhe lançou um olhar de repreensão que ele ignorou com facilidade. O nome da Rafa era uma palavra que não se fazia presente naquela casa.

       - Ela é simpática – Ele deu de ombros, ignorando meu silencio – Gostei dela.

      - Eu disse que ela é doce e simpática – Comentei em voz alta – ninguém acredita.

     Meu pai bateu a colher na beira da panela e começou a nos dar instruções para continuar cozinhando, um gesto que dizia que o assunto estava encerrado.

     Quando fiz tudo que podia fui tomar um banho, e me arrumei para esperar pela minha mãe.

    Sentei-me na rede da varanda e voltei a pensar sobre as palavras da Marcela essa tarde. Uma faísca de medo bateu em meu coração ao pensar que eu pudesse estar atrasando a vida da Rafa. Meu celular vibrou, tirando-me do meu devaneio.

       “Olááá… Espero que não esteja chateada ainda =) Será que você não pode escapar aqui para minha casa hoje? Aluguei um filme incrível, sei que você vai amar, faço pipoca também e se você quiser até massagem. Não sei se importa muito ainda, mas eu recusei o pedido do Denis, e disse que não iria por que ficaria em casa com a minha garota, e que ela é muito brava. Bom, espero que não esteja mais brava, e venha aqui… Quer dizer, vem de qualquer jeito, brava ou não, eu vou amar da mesma maneira”.

        Comecei a sorrir, não resistia a ela, a esse jeito doce de tratar as pessoas, de me tratar. Comecei a digitar a mensagem de resposta.

     “A pipoca me convenceu, maaas…. não posso ir =( minha mãe volta hoje, então vai ter um jantar em família ou algo do tipo. Isso é de partir o coração e uma proposta tentadora demais… mas acho melhor ficar por aqui”

    Enviei e fiquei ansiosa, esperando pela resposta. Dois minutos depois meu celular voltou a apitar.

    “Sério? Que tragédia ficar sem você. Minha mãe vai me forçar a assistir um daqueles filmes românticos sem nexo dela. Me salva”.

    Comecei a rir, e a pensar no que responder quando meu celular apitou outra vez.

     “Brincadeirinha, se a filha com ciúmes já e brava desse jeito imagina a mãe dela com ciúmes.”

    Ainda sorrindo comecei a digitar.

     “Iludida. Quem disse que é ciúmes? Finge que está dormindo, assim quando ela chegar não vai ter coração pra te acorda… ou vai?”

     Fiquei mais uma vez impaciente esperando pela resposta. Ouvi um carro parando frente a minha casa e me levantei para observar. Minha mãe havia chego.

     Meu celular vibrou outra vez e resolvi ler antes de ir falar com ela.

     “Vou dormir pra te encontrar nos meus sonhos. Aproveite e jante por mim, te amo.”

    “Eu amo você” Digitei de volta.

     Guardei o celular no bolso e fui ao encontro da minha mãe. Ela me abraçou com o mesmo entusiasmo que eu havia a abraçado. Senti-me completa outra vez, eu era encantada e completamente apaixonada pela minha mãe. Olhando para seu rosto feliz e alegre por estar em casa outra vez, comecei a agradecer a tudo no mundo por tê-la por perto.

       Meu irmão do meio também estava lá, com a sua esposa. Ele carregava cerveja enquanto ela o bebê. Fiquei apaixonada ao olhar para a carinha dele. Com toda certeza, eu sabia que naquela família, ele seria protegido, amado e respeitado a cada segundo.

        Eles começaram a beber e nós começamos a conversar e disfarçar a fome com algumas coisas que meu pai servia, até o prato principal ficar pronto.

        Pela primeira vez voltei a falar sobre o que aconteceu no festival, e sobre o acidente no penhasco, contei também sobre a informação que a Paloma me dera de que o Eduardo estaria longe de mim, e isso foi o suficiente para eles mudarem de assunto. O bebe era o foco da noite, passamos horas conversando sobre a ida da minha mãe até lá, e sobre o novo emprego do meu irmão na Irlanda.

       Quando beirava meia noite meu pai finalmente serviu o jantar, eu nem tinha visto a hora passar.

       Senti meu coração apertado já que seria uma noite a menos sem a Rafa. Ao mesmo tempo, era bom dar um tempo para ela e para a mãe dela, que assim como eu deveria estar sentindo falta da filha ali sempre presente.

      O jantar foi bem tranquilo, apesar da TV da cozinha estar ligada, ninguém prestou atenção. Continuamos conversando sobre tudo: trabalho, planos, futuro, bebes, casamento, enfim, tínhamos todos, muito que falar e muito que ouvir.

      A sobremesa já tinha acabado há um tempo, mesmo assim continuamos todos em volta da mesa conversando. Meu irmão do meio levantou para fumar um cigarro na varanda, minha mãe estava meio brigada com ele porque além de fumar, ele havia feito uma tatuagem.

      - Até eu estou pensando em tatuar alguma coisa no corpo. – Meu pai disse brincalhão.

       Minha mãe nunca teve muito senso de humor, então ela simplesmente lhe lançou um olhar mandão que queria dizer que aquela piada não teve graça.

      - Deveria mesmo viu pai, assim você ficava mais descolado – O Lohan falou debochado, ele adorava dar corda quando o assunto era provocar minha mãe – e você mãe, deveria colocar um piercing no umbigo.

      - Pra ficar parecendo um marginal? Não mesmo – minha mãe respondeu seca.

      Meu irmão do meio se chamava Isaac, ele estava casado há dois anos, e a tatuagem em questão, era no braço. Ele se sentiu ofendido com o comentário da minha mãe e resolveu revidar.

      - Não sei por que a senhora tem tanto preconceito sobre essas coisas. – Ele voltou a sentar-se à mesa.

       - Ela tem preconceito sobre tudo que não esteja no padrão “minha infância” dela – Estava distraída olhando para minha sobremesa, só notei o que havia falado depois que terminei de falar.

        Ela ficou quieta por alguns segundos, assim como todos na mesa. Pensei que ela não fosse responder, quando a ouvi dizer:

       - Uma coisa é achar que eu esteja pegando pesado a respeito da tatuagem, outra coisa é achar que namorar uma pessoa do mesmo sexo é normal.

        Minha mãe nunca gostou da Rafaela, ela era sim uma pessoa bastante homofóbica, e na minha família ficou decidido depois da briga que tivemos que ninguém poderia falar mal da Rafa ou insinuar qualquer coisa a respeito da nossa relação. Eu não a levava em casa, e meus pais não me impediam de estar com ela. Porém, eu sempre soube que minha mãe não engolia bem essas coisas. Eu sempre soube que um assunto mal acabado, era um assunto inacabado. Porém, eu sempre soube que minha mãe não engolia bem essas coisas, vivia esperando pela primeira oportunidade em que ela iria me alfinetar. Analisando a situação, a oportunidade até que demorou a aparecer.

        - É normal mãe, no mundo de hoje isso é normal – O Lohan partiu em defesa.

       Ele era o único que falava da Rafa comigo. Nunca faltou com respeito em relação a nossa amizade, na verdade eu sabia que ele só estava tentado fazer com aquilo fosse melhor para mim. Sempre que algum assunto surgia, era ele quem cortava. Dessa vez as coisas tinham mudado bastante.

       Se minha mãe tinha motivos para não gostar da Rafa, os mesmo motivos se aplicavam a mim agora. Mesmo antes de eu me apaixonar por uma garota, eu sempre parti em defesa dos homossexuais, agora era praticamente impossível ficar quieta.

        Respirei fundo e continuei em silencio. Levantei-me da mesa e comecei a recolher os pratos. Quanto mais cedo aquilo acabasse, mas fácil seria sair pelas beiradas.

       - No meu mundo isso não é normal, é pecado, errado e feio – A voz dela esbanjava desdém.

       Eu parei de lavar os pratos e me virei para ela.

      - Será que a senhora nunca parou para pensar que talvez ela não tenha culpa? – Perguntei perplexa.  – que às vezes as coisas simplesmente acontecem?

      Ela me olhava firme, por fim deu uma risada abafada.

      - Minha filha, as coisas nunca simplesmente acontecem. Talvez seja apenas para chamar atenção, contrariar o mundo, dar uma de rebelde. Só porque você tem uma colega assim não significa que você realmente saiba o que se passa dentro do coração dela.

      Respirei fundo, eu começava a explodir de raiva.

     - Talvez eu saiba sim mãe, - as palavras começaram a escapar da minha boca antes mesmo que decidisse se iria dizê-las – por que talvez… De repente… Eu tenha percebido que eu sou igualzinha a ela.

    Todos os olhares da mesa se voltaram para mim. Meu pai que levava o copo até a boca ficou parado, com a mão no ar. Soltei o ar, aliviada. Apesar do olhar acusatório deles, eu finalmente havia começado a falar, agora não dava para voltar atrás, eu apenas tinha que ir até o fim.

Um dia, eu tive um coração. Ele era bem semelhante a outros corações, para falar a verdade. Às vezes batia descompassado e parecia que a qualquer instante pularia para fora de meu peito; Em alguns momentos, desacelerava, deixando-me até assustada com sua serenidade repentina. Também havia dias em que desabava, machucado com todos os cortes em sua superfície. Como todo coração, ele aos poucos se reerguia, à medida que as feridas saravam e delas restava apenas uma singela cicatriz. Era forte, delicado e imenso.

Tão imenso quanto ás águas do mar que o roubaram.

—  A Garota dos Clichês

Pop culture FOMO is real — and we’re stressing ourselves out over it 

“It is a literal crime that you haven’t watched The Wire,” my roommate said to me. “I know, I know,” I said, kind of embarrassed.

The truth was, I knew enough keywords to navigate myself around a discussion of the critically acclaimed HBO series. But after years of being told how much I’d “absolutely love” the show, it got buried on the endless cultural to-do list, becoming just another one of the “Did you see it?"s thrust upon me by friends, family, bosses and the endless scroll of my social media streams.

It’s pop cultural FOMO, exacerbated by digital technology (isn’t everything?) and topped off with a dose of judgment. The hardest part? The judgement comes mostly from ourselves.

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Last week, Australia had an outbreak of a “Spider Rain”, with dozens of spiders falling from the sky. Apparently this is a common thing - spiders spin webs and they can be picked up en masse by decent winds. Here’s video of a spider rain in Texas.