vielas

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Perspectiva Importa! 

Projeto LUZ NAS VIELAS pelo Boa Mistura em São Paulo.

"Projeto de arte urbana participativa na Vila Brasilândia, um dos bairros pobres da periferia de São Paulo. A intervenção centra-se na "becos" e "vielas", caminhos sinuosos que são os verdadeiro articuladores da vida interna da comunidade. Dividimos com os moradores a transformação do seu ambiente."


http://www.boamistura.com/#-1

BARULHO DE MAR

O mar me acompanha todos os dias pelas vielas e ruas da cidade. Se faz presente e se mistura ao som de carros, construções, latidos, miados e vozes de transeuntes que não verei mais que uma vez na vida. O mar é uma cortês e controvérsia anestesia. Demasia. Frenesia. Carrego o barulho de mar no bolso direito, barulho este que dura infinitos 5 minutos. BOSTA! Sem cartão de memória para músicas em meu MOTOROLA, o eterno ruído de mar me faz repensar tudo o que disse sobre o ruído de pernilongos.

Feiticeira

Lucidez de prender a mente por sanidade.
Abismo no fundo de um outro poço que não contém água,
É miragem.

Lanças pela ponta dos dedos
A noite firme em chamas brandas.
Escondes-te do futuro,
É viagem.

O que reina nas vielas solitárias?
Ainda por lá te encontras?
Pena que a tua magia só me salve a mim,
É mágoa.

Manuel Seatra
20/09/2014
12:42h

As cidades do Vietnã, principalmente as grandes como Ho Chi Minh e Hanoi não são boas para caminhadas. No entanto vale a pena se perder pelos labirintos de vielas, estreitos e cheios de vida. Te põe cara a cara com o estilo de vida vietnamita. Não que seja a norma ou o único, mas Ho Chi Minh e Hanoi são cidades com alta densidade populacional, o que força grande parte da população a viver em pequenos espaços. Pode ir e adentrar sem medo, que não há perigo algum #perca-se #vielas #hochiminh (at Hô Chi Minh City - Saigon)

"Se você desiste, a alma consente em não existir, o corpo consiste em adubo energético, protesto sintético de partículas senis. Se você não reage, o que era jardim vira torpe paisagem, de concreto e folhagem morta, onde as cores são foscas. Se você se entrega, nada mais te convem, não se atem nem as vielas de corpos alheios, então seja breve, leve daqui os seus ossos. Essa viagem é para os dispostos."

eu tô cansada dessa etiqueta grudada, presa, fixa, na minha cara, no meu corpo, na minha alma, escrita “eu te amo”. é inquebrável, inabalável, não há como apagar, não tenho como tirar. é devastador, agoniante. eu te amo, e isso não sai de mim, eu te amo, e isso não tem fim, eu… eu só te amo, e amo, e amo… há mil facas enfiadas no meu corpo, e eu só sinto o peso, o frio, a dor, eu tenho que andar, friamente, entre esses becos, ruas e vielas, observando o vazio do mundo, das pessoas, e eu com todo o peso do “eu te amo”. 

Luna, 1996.

O amor é o motor, razão pela qual todos ainda estão vivos, esperança de quem tem dor, saída das vielas mais difíceis da vida, é todo movimento imprevisivel, é a incógnita menos solucionável e mais espetacular que qualquer outra que se possa imaginar.
—  Marta
Capitulo 23

-Onde a gente ta indo, afinal, Sick? – Perguntei enquanto andávamos entre os jardins e o Sick Boy passava por entre as florzinhas brancas nos arbustos. Gay.
-Caralho, Luc, buscar as coisas que a gente precisa buscar, né? – Ele falou baixo o bastante só pra mim ouvir.
-As armas, tu quer dizer? - Ele–me olhou, parando no meio do caminho.
-Não fala essas coisas alto, francês, a gente não sabe em quem pode confiar aqui. – Ele olhou em volta, como se estivesse vigiando, tendo certeza de que ninguém estava nos seguindo, ou escutando, ou sei la.
-Como assim, cara? – Perguntei, meio confuso.
-Essa é uma área perigosa, pra gente, Luc. – Ele falou, continuando andando, agora já estávamos na rua e andávamos por entre uma viela de paralelepípedos. – A Suíça, eu quero dizer… – Ele me olhou rápido, e depois desviou para o chão.
-Mas do que tu ta falando?! A gente ta em perigo? - Fui andando atrás dele.
Na rua, algumas pessoas passavam, ninguém parecia perigoso, pra mim. Algumas mulheres, carregando bolsas caras, algumas crianças de cachecol, de mãos dadas com as mães de bolsas caras. Quando um ou outro cara passavam pela gente não pareciam nem notar nossa presença.
-Eu não sei ainda, Francês. A gente tem que ter certeza de que ta tudo seguro antes de fazer qualquer bobagem. – Ele entrou numa das ruazinhas e virou dentro do mato. Ótimo, agora a gente vai se perder aqui, tenho certeza. – Tu sabe, a gente já ta sendo procurado pela policia, provavelmente, por causa do negocio do trem… – Ele parou entre duas arvores e seguiu pela esquerda, olhando em volta, o chão, as arvores, e quando nossos olhos se encontraram eu sabia que aquele não era o maior dos nossos problemas.
-Mas os caras da droga são muito mais perigosos, não é? – Perguntei, minha voz quase não saiu, eu não sei se tava preparado pra saber disso. Temia a resposta.
Ele não falou nada, só confirmou com a cabeça.
Fomos andando em silencio. Tudo o que se ouvia eram os nossos pés quebrando alguns galhos e pisando em algumas folhas secas. A floresta era úmida, e tava bem frio, fechei minha blusa. Quando finalmente chegamos em algum lugar que parecia ser habitado no meio daquela mata toda, Sick Boy parou e me encarou.
-É o seguinte… tu vai ter que entrar lá e pegar algumas armas. – Ele me deu um maço de Francos Suíços enrolados num elástico. Devia ter muito dinheiro ali, porque o rolinho não era nada leve.
-Co-como assim? Que armas eu tenho que pegar? – De repente me vi muito mais nervoso do que eu gostaria de estar. – E tu vai aonde? – Perguntei, apavorado de ter que ir sozinho.
-Tu fala que o Halph te mandou, que tu vai pegar umas armas pra ele. – Ele ficou me olhando, esperando eu dar algum sinal de que eu tinha entendido o que era pra fazer, eu assenti, para que ele continuasse. – Eles vão te dar 5 pistolas semiautomáticas calibre 22. – Ele terminou de falar e mudou o peso do corpo pra outra perna. – Eu vou ficar te esperando aqui, Francês. Assenti de novo. Não conseguia falar absolutamente nada. – Tá. – Sick deu dois tapinhas no meu ombro. – Agora vai, a gente tem que buscar os caras no hospital.
Saí andando em direção ao que parecia ser uma chaminé. Analisei o lugar antes de pisar ali. Do lado de fora alguns caras vestidos de preto pareciam guardar o lugar, mas não aparentavam estarem armados. Continuei andando, como se aquilo não fosse mais do que uma ida num bar… Sozinho… Estremeci.
Eu odiava não conseguir esconder o que eu estava sentindo, e no momento eu devia estar tremendo e suando frio. Odiava mais ainda parecer fraco na frente do Sick Boy. O cara parecia não ter medo de nada, chegava a ser intimidador, mas eu não queria, por algum motivo, que ele achasse que eu era fraco. Isso chegava a ser absurdo, o cara tinha se tornado pra mim quase um irmão mais velho.
Não que eu admirasse tudo o que ele estava fazendo, mas ele fazia com tanta imponência que não duvido que um lutador profissional de luta livre, dos pesos pesados, temesse ele. Era o rosto. A expressão com que ele fazia, como se fosse louco, ou alguma coisa do tipo. Mas no fundo o Sick Boy parecia ser um menino que não teve tempo de crescer e agora brinca de usar drogas pra deixar a vida um pouco mais colorida.
Não sei se tenho pena, ou se o admiro. Talvez uma mistura dos dois.
Eu sabia que ele estava fazendo aquilo para me proteger, e eu estava fazendo o mesmo, de certa forma.
Seja lá o que tenha acontecido aqui, ele não podia dar as caras, ninguém podia ouvir o nome “Sick Boy” nas ruas. Era como uma lenda misteriosa. Bizarro pra caralho, mas eu não tenho posição de julgar. O Sick Boy tem sido um ótimo amigo, esses últimos meses.
Enfiei o bolinho de dinheiro no bolso e tirei a mão de dentro dele quando cheguei mais perto e um dos caras se aproximou.
Ele não disse nada, só segurou as calças e ficou me olhando, de cima. Ele tinha uma bandana preta na cabeça e usava um óculos de sol, pude sentir ele me medindo por detrás dos óculos, fiquei desconfortável. Como ele ainda não tinha dito nada, resolvi começar, eu… Dei um pigarro e aproveitei pra respirar fundo.
-I’m here for Halph. – Informei o cara que me analisava e ele chamou um outro cara, também de preto e cochichou alguma coisa no ouvido dele.
O cara assentiu e sumiu. Ficamos eu e o cara, outra vez. Caralho. Olhei pra cima. Não quero morrer, ainda. Juntei minhas duas mãos quando finalmente o outro cara tinha voltado, e o cara de bandana se dirigiu a mim:
-Follow me. – Ele pediu. A voz áspera, como de um fumante de longa data foi o suficiente pra me fazer pular, quando ele se mexeu e me deu as costas, entrando na casa de pedras.
Aquilo parecia mesmo um bar, foi a primeira coisa que eu pensei quando entrei na tal casa. Tinham vários caras, vestidos com roupas diferentes. Pelo menos não estamos lidando com uma gangue…
Um bar no meio da sala disfarçava alguma coisa, mas haviam outras pessoas ali dentro, inclusive crianças.
-Ele ta te esperando naquela sala… – O cara me informou, em inglês, e apontou para uma porta entreaberta atrás do balcão.
Caminhei o mais normal que consegui até a sala, e resolvi que era melhor perder o medo naquele momento. Respirei fundo antes de dar duas batidas na porta coloquei a minha pior cara, no rosto.
Entrei na sala para encontrar um cara mais ou menos 60 anos, vestindo uma camisa xadrez azul e uma calça normal, caqui, fumando um cigarro. O cara abriu um sorriso quando me viu, e eu não soube o que fazer.
-Se Halph te mandou, você deve ser francês, não é, garoto? – Ele deu uma gargalhada sádica. – E dessa vez enviou um mais sério do que o último, posso perceber. – Brandon. – O cara se apresentou, me oferecendo a mão, e eu a apertei.
-Luc. – Minha voz, agora, firme.
-Bom, você trouxe o dinheiro, não trouxe, garoto? – Ele perguntou, indo atrás da mesa de madeira maciça. Aquilo ali parecia um escritório normal, não algum lugar onde deveríamos comprar armas.
-Posso ver as armas, antes? – Indaguei. Me estranhava. Meu coração batia a mil, mas eu parecia muito mais calmo por dentro. Apertei minhas mãos para ter certeza de que não estava tremendo.
-Hm… Um garoto que sabe bem o que esta fazendo, eu vejo. – Ele falou, abrindo um sorriso amarelo. Ele apagou o cigarro no cinzeiro já lotado. – Muito bem. – Ele pegou uma chave e abriu um das gavetas, tirando cinco armas e colocando-as lado a lado em cima da mesa. Não sei se eram mesmo calibre 22, mas pelo porte, achei que fossem. Assenti com a cabeça, enfiando a mão no bolso. – Sua vez. – Ele cruzou os braços.
Coloquei o dinheiro atrás das armas, sem tirar os olhos do cara.
Ele desenrolou o dinheiro com calma e contou. Muito mais dinheiro do que eu esperava ver.
-Tudo certo. – Ele sorriu. – Pode pegar. – Dei um passo pra frente e enfiei as armas numa mochila que estava do lado. – Muito bom fazer negocio contigo. – Ele estendeu a mão e eu a peguei, assentindo. – Alias, diga à Halph que passe aqui, qualquer hora. Sinto falta daquele gordo sem vergonha.
-Pode deixar. – Disse, e ele soltou minha mão, e eu saí pela porta.
Quando passei pelo bar, nenhum dos caras estava mais lá, mas eles estavam do lado de fora. Os cumprimentei com a cabeça e saí andando por onde viera.
Encontrei um Sick Boy sentado no meio das plantas, brincando com um pauzinho.
-Por que demorou tanto? – Ele perguntou.
-Eu achei que tinha ido rápido… – Ele se levantou, me guiando pelo meio do mato. – O cara contou nota por nota. – Falei, me lembrando desse detalhe.
-Tu fez um bom trabalho, Luc. To orgulhoso de ti. – Ele apertou um dos meus ombros e um sorriso surgiu em meus lábios.
-Ele disse também pra avisar Halph pra passar aí, qualquer hora.
-Ok, eu vou avisá-lo. – Ele sorriu, e continuou andando na minha frente. – Por dentro eu estava feliz, de verdade, mas não me parecia uma boa hora para conversar. Pelo menos ele arranjou tudo para que o cara falasse em francês comigo. Se fosse em inglês, eu provavelmente ficaria muito mais nervoso.
-Vamos pro hospital, agora. – Sick Boy entrou num caminho diferente e revelou um carro simples. Abriu a porta. Entrei pelo banco do passageiro.
-Tu acha que é uma boa ideia se meter com essa menina, francês? – Sick Boy falou, enquanto dava a partida no carro.
Eu não tinha certeza do que exatamente do que ele estava falando.
-Que menina? – Perguntei, distraído olhando a janela do meu lado, e quando ele não me respondeu eu o olhei, para encontrar a maior cara de tedio que eu já tinha visto na vida.
Não tive como prender o riso. Ele continuou me olhando até o meu ataque de riso sessar, sem tirar os olhos de mim, com a mesma cara, mas ainda assim, dirigindo como se ele conhecesse cada centímetro da mata fechada.
-A Lua? – Falei, recuperando o folego, e ele voltou os olhos para a rua de paralelepípedos que tínhamos acabado de alcançar. – Não vejo problema nenhum. – Conclui, voltando a olhar a janela.
-Não sei… Ela tem cara e jeito de ser um baita problema. – Foi tudo o que meu amigo disse.
Fiquei mastigando aquilo até a hora que meus próprios pensamentos começaram a me incomodar.
-Por que tu ta falando isso? – Eu tive que olhar pra ele.
-Sei lá. É uma coisa estranha, toda vez que ela aparece. – Ele trocou a marcha antes de continuar. – O pessoal com quem ela anda. Por que ela não pode sair por aí? Precisa sempre de uma babá, ou coisa parecida… Ontem no bar, e hoje, o cara na janela. – Silencio.
-Claro que não, Sick. Ela é modelo, a guria tem que seguir algumas regras. Tu sabe como esse mundo da moda é complicado. – Ele balançou a cabeça, negativamente.
-Acho que deve ter alguma coisa pior envolvida nessa brincadeira de modelo. O cara chamou ela de Lola. – Ele me olhou. Os olhos arregalados e a boca escancarada.
-Ele é americano, cara. Ele pode não saber falar, ou deve ser o nome artístico dela, eu sei lá. – Por um momento parei pra pensar e realmente não fazia sentido algum.
Sick Boy estacionou o carro no estacionamento do hospital e saímos. Ele trancou a porta e logo estava caminhando do meu lado, direto à porta do lugar.
-Ou ela pode estar mentindo pra você. Pra todos nós. – Foi a última coisa que ele falou antes de cumprimentar Marco com a cabeça e apressar o passo em direção à ele.
-E aí, ta feito? – Ele perguntou pra Sick, mas olhando pra mim.
Sick Boy mudou de humor, como se o que a gente tivesse acabado de conversar fosse só uma conversa, mesmo, mas ele me deixou curioso. A parada do nome é mesmo meio estranha. E era o que eu ia perguntar pra ela, se esse puto não tivesse interferido na minha conversa.
-Mas é lógico. – O sorriso maníaco estava de volta. – O Francês é durão, eu te disse. – Ele passou o braço pelo meu pescoço e bagunçou o cabelo que eu não tinha.
Ficamos conversando ainda um pouco, e eu contei como tinha sido tudo aquilo que aconteceu.
Depois entramos no hospital e subimos até o quinto andar, onde Pepe estava, sentado numa cama, todo engessado. Coitado.
Sick Boy foi até o pé da cama onde a ficha do paciente estava.
-“Caiu da escada de casa”? HAHAHAHAAHAHAHAHA – Foi tudo o que ele conseguiu dizer, e Pepe não conteve o riso, logo a sala toda estava rindo. – Como tu é cara de pau, guri. – Ele foi até a cama e brincou com o garoto, imobilizado.
Ele tinha gesso no braço esquerdo, na perna direita e o troco estava coberto por uma faixa, provavelmente por causa da costela. Fora isso o garoto ainda tinha pontos no supercílio, na boca, nas duas pernas e no peito.
-Como tu tava aguentando tudo isso? – Perguntei, realmente preocupado.
-Ah, a gente sobrevive enquanto pode né? – Ele deu um sorrisinho, mas foi tudo.
Sick Boy pensou em começar algum assunto, mas quando ele abriu a boca, uma enfermeira gordinha entrou na sala. Ela tinha cabelos negros e muitas sardas no rosto redondo. A boca bem marcada por um lápis quase vermelho. Ela pegou a ficha de Pepe e olhou pra ele.
-Jose Ferradini, você já pode ir pra casa. – A enfermeira deu um sorriso simpático e ajudou meu amigo se levantar, o colocando na cadeira de rodas. – Ele provavelmente vai precisar de uma dessas, era bom vocês arranjarem alguma. – Ela falou, antes de sair com Pepe pelos corredores do hospital, e os três babacas indo atrás.
Pagamos o tempo que Pepe ficou lá, alugamos a porcaria da cadeira e o levamos para o carro.
-Acho que agora já posso beber alguma coisa. – Pepe falou, assim que entramos no carro.
-Easy peasy. – Sick Boy deu a partida no carro. – Tu tem que tomar os remédios, moleque. Alem do mais, tu nem pode beber.- Sick Boy o olhou pelo retrovisor e fácil, fácil arrancou um sorriso do menino engessado.

Chegamos no hotel e Sick estacionou o carro, depois tivemos que carregar Pepe pro quarto, porque o coitado não conseguia subir as escadas. Eu e Marco fizemos isso, enquanto Sick Boy vinha atrás com a cadeira de rodas.
-Se tu quiser a gente pode pedir algumas coisas aqui no quarto, Pepito. – Sick Boy colocou a cadeira no chão da sala e fechou a porta atrás dele.
-Eu acho que prefiro ficar deitado. – Ele explicou pra mim e Marco, quando o levávamos para a cadeira. Concordamos e o colocamos no sofá, onde ele pegou o controle da TV e estava prestes a ligar.
-Ei. – Sick Boy o chamou. – Temos uma coisa a resolver antes de tu assistir qualquer merda aí dentro. – Ele apontou pra TV. Todos nós o olhamos, esperando que ele continuasse. – As armas. – Ele disse, em voz muito baixa.
Peguei a mala, que estava apoiada no meu ombro esquerdo e estendi pra ele, que colocou com cuidado no chão.
-Bom, temos 5 armas aqui… Acho melhor uma ficar de reserva, escondida em algum lugar. – Todos concordamos. – Ele fechou as cortinas dos quartos e colocou um pano debaixo da porta. Logo depois, dispôs as armas no chão, com o maior cuidado do mundo. Pelo menos isso.
Ele descarregou as armas, com incrível habilidade. Era só um “click” e todas estavam sem os cartuchos. Ele analisou, todas as balas no lugar. Colocou de volta e desarmou a coisa toda, entregando uma pra cada um, deixando a dele no chão. Coloquei a minha arma na cintura, imitando os movimentos ágeis de Marco, que parecia ter muito mais experiência do que os outros dois.
Foi até a mala, outra vez e procurou alguma espécie de fundo falso, e quando encontrou tirou algumas outras balas de lá de dentro, uma caixa com varias.
-Tá tudo certo. – Ele sorriu, parecendo satisfeito. Guardou tudo de volta e escondeu a mala no meio de umas roupas. – Quando eu fui no banco tirar dinheiro, resolvi comprar algumas roupas pra gente, também. – Ele explicou, mostrando 4 malas cheias de coisa, que estavam perto da porta do quarto. – Acho que é menos chance de desconfiarem alguma coisa se a gente trocar de roupa de vez em quando. – Ele abriu o sorriso arrepiante. – Agora… – Ele parou, fitando os próprios pés. – Ninguém saí daqui sem a arma, entenderam? – Todos nós concordamos, sem emitir um som sequer, e logo estávamos assistindo a TV, junto com Pepe.

O resto do dia foi a coisa mais chata que eu já tinha passado. Não saímos do quarto, por causa de Pepe, nem quando a camareira entrou pra arrumar toda a bagunça.
Muitas toalhas molhadas em cima das camas, muita comida no chão, muito lixo produzido. Isso que tu ganha quando confina quatro moleques dentro dum quarto de hotel.
Fui até a varanda, fumar um cigarro, e a arma na minha cintura pesava mais do que qualquer outra coisa. Olhei a paisagem e olhei a camareira. Ela não tinha ideia de que tínhamos 5 armas dentro deste quarto. Ela podia estar limpando num minuto e morta no minuto seguinte. Engraçado como tudo pode mudar, tão rápido, né?
Ela saiu do quarto e eu respirei, aliviado por não ter acontecido nada demais.
Na minha cabeça, ter uma arma em mãos era desculpa para matar todo mundo que estivesse pela frente e atear fogo na cidade. Tipo um revolucionário meio maluco que prefere fugir da polícia do que levar uma vida normal.
Ainda bem que nada disso aconteceu.
Apesar de o sol ainda iluminar algumas partes da cidade, eu sabia que já deveria ser tarde. Esses lugares, quanto mais perto do norte, mais demora pro sol se por, mesmo sendo quase oito da noite.
PUTA QUE PARIU. Oito da noite!
-Sick! – Chamei do lado de fora. – Já são oito horas. – Relembrei-o.
-O quê tu quer que eu faça com essa afirmação? – Ele apareceu do meu lado com um beck pendurado entre os lábios, mas logo arregalou os olhos. – Caralho, francês, tua minazinha! – Assenti com a cabeça.
-A gente deveria estar lá as oito horas. – Dei um último trago no cigarro. – Mas que merda, eu esqueci completamente.
-Não te preocupa, francês. – Ele acendeu o beck. – A guria deve estar te esperando. Aproveita pra deixar mais um pouco. Elas ficam loucas quando fazemos isso. Vai tomar um banho. – Ele deu uns dois tapinhas nas minhas costas.
-Que banho o que, eu só vou vestir uma roupa. – Me virei de costas. – E tu vem junto. – Relembrei-o, antes de olhar o resto dos caras, nos olhando sem entender nada. – Na verdade, vamos todos. – Abri um sorriso, tentando ser convidativo.
-Eu não aguento mais ficar aqui dentro. – Pepe levantou os braços, meio que confirmando que ele iria, Marco olhou pra ele e revirou os olhos, balançando a cabeça positivamente, não deve ter gostado da ideia, mas ele ia, mesmo assim.
Fui até a janela e peguei o cigarrinho de maconha da mão do Sick, dando pelo menos uns quatro pegas, antes de entrar no quarto e abrir a mala onde se lia “Luc”.
Só a minha bolsa era marrom, a do Sick, vermelha, Pepe, azul e Marco, verde. Ótimo. —Pelo menos ele sabe que eu sou mesmo o mais discreto. – Falei sozinho, balançando a cabeça. Olhei pra mala dele. – E ele o mais extravagante. – Tive a impressão de que minha cara acabara de se tornar um ponto de interrogação.
Peguei algumas roupas, uma blusa branca, um jeans azul claro e uma jaqueta preta. Enfiei meus pés nos sapatos que calçava antes e coloquei um pouco de perfume.
Em meia hora estávamos todos prontos, descendo as escadas, com Pepe no colo e Sick Boy com a cadeira em cima da cabeça.
Passamos pelo recepcionista, que ainda sorria, mesmo nos vendo sair naquele estado e pensei de novo na arma que carregava na minha cintura. Me senti culpado.
Entramos no carro e fomos até o Hotel da Lua.

-Olá. – Falei pra mocinha da recepção, a mesma com quem falara naquela manhã.
Ela me olhou de cima a baixo e abriu um sorriso satisfeito.
-Ela tá esperando o senhor ali. – E apontou pra lareira, e cobrindo a boca, completou, em voz baixa. – Já faz um tempo…
Agradeci a mocinha e caminhei até ela.
-Lua? – Chamei, apoiando minhas mãos atrás da poltrona em que ela estava sentada.
Ela se virou com uma cara fechada, não disse nada, apenas se levantou e pegou uma cesta, que estava no chão, entre os pés dela.
-Você ta atrasado. – Ela finalmente disse, abrindo um sorriso contrariado. – Mas eu te perdoo. – Ela levantou a cesta no ar e saiu andando.
O cabelo dela estava molhado, e preso, todo bagunçado, mas bonito e os olhos azuis destacados, mas eu não sabia dizer se ela estava ou não de maquiagem. Ela vestia uma calça colada vinho e uma camiseta branca larga e comprida, com a imagem do Empire State Building estampada.
Caminhei até ela, que já estava numa conversa animada com Sick Boy, Marco e até Pepe. Cheguei por tras e abri a porta pra ela, que entrou sem nem perguntar onde iriamos.
-Cadê tua babá, guria? – Sick Boy perguntou, sem tirar os olhos da estrada, que já estava escura o bastante e não tinha nenhuma iluminação.
-Tá de folga hoje. – Ela deu de ombros. – O que aconteceu contigo? – Ela perguntou pro Pepe, o olhando de cima a baixo, todo engessado.
-Eu caí da escada. – Ele explicou, envergonhado, e ela caiu no riso, sem nenhuma cerimonia. Pepe ficou olhando pra ela, sem saber o que fazer, e depois olhou pra mim como que perguntando quem era aquela louca.
-Me poupe. Tu ta com o Sick Boy e tu caiu da escada? – Ela disse, parando de rir e enxugando as lágrimas. – Deve ter sido algo pior, mas relaxa, eu não preciso saber. – Ela abriu um sorriso bonitinho e o guri respirou aliviado do outro lado dela.
Percebi que o clima ia ficar estranho, então pensei em algo pra distrair todo mundo daquela situação embaraçosa.
-Onde estamos indo, afinal? – Perguntei, me inclinando pra frente, ficando perto do Sick Boy, tentando enxergar a estrada.
-Não me pergunte. – Sick Boy tirou o dele da reta.
-A gente ta indo fazer um piquenique de álcool em cima de uma montanha. – Lua colocou uma das mãos na minha perna e eu senti um impulso elétrico percorrer todo o meu corpo. Com a escuridão eu não conseguia enxergar nada muito bem, mas eu sabia que ela estava sorrindo e os olhos dela, provavelmente brilhavam.

Chegamos no pico que ela tinha dito, e realmente, era em cima de uma montanha muito alta! Dava pra ver a cidade inteira dali.
Saímos do carro e todo mundo, menos Lua, parou pra admirar a vista. A montanha só tava iluminada de um lado, o lado da cidade, o outro lado tava todo escuro, mas dava pra ver algumas coisas, as arvores, as pedras.
-Será que não tem problema ficar aqui, tipo, será que tem algum animal solto por aí? – Sick Boy comentou, num tom de voz baixo, como se pra não atrapalhar nenhum de nós, não nos desconcentrar.
-Acho que deve ter, mas não deve dar nada. – Pepe respondeu no mesmo tom de voz.
Tava tudo muito quieto, tirando Lua mexendo em qualquer coisa atrás da gente.
-Pronto. – Lua falou e se sentou no capô da frente do carro, com uma garrafa de vinho na mão. – Tem um monte de garrafa ali! – Ela apontou pra cesta que trouxera, que tava perto da roda dianteira do carro.
Sick Boy não esperou outra palavra, foi direto até a cesta e tirou mais duas garrafas, deu uma pra Marco e ficou com uma.
-Bebe comigo. – Marco disse pro Pepe, e ao mesmo tempo, Lua passou a dela pra mim.
Sentei do lado dela e por um tempo ainda ficamos admirando a paisagem, sem emitir um som sequer. Tava uma noite bem abafada, o céu todo estrelado, e a lua bem iluminada, o que fazia tudo ainda mais bonito.
Depois de um tempo, a lua já estava bem em cima das nossas cabeças, e podíamos ver, agora, a floresta que antes era escura.
Sick Boy começou a bolar um beck, sentado no chão, perto precipício, com as pernas quase pra fora do final da montanha, Pepe e Marco estavam do lado dele.
-Posso te perguntar uma coisa? – Falei, sem muita cerimonia, ela virou pra mim, dando um gole na garrafa e assentindo com a cabeça. – Por que teu nome ta como Lola no registro do hotel? – Não queria falar que eu lembrava claramente do tal do Pete chamando ela assim.
-Ah… – Ela olhou pra baixo, parecendo envergonhada, deixou que os pés caíssem e balançou os pés até conseguir apoia-los no carro, outra vez. – É o nome que eu uso como modelo. – Ela olhou pra mim, me oferecendo a garrafa. – Nome artístico… Sabe? – Peguei a garrafa da mão dela. – Quando eu comecei a fazer sucesso eles disseram que Lua – Ela fez uma voz nojenta. – era comum demais… Que não combinava uma modelo com esse nome, uma figura mundial, bla bla bla. – Ela ficou me olhando, até que eu assenti, porque não sabia o que falar, e logo em seguida, olhou pra baixo.
-Aí, cês tão afim? – Sick Boy levantou a mão, gritando com a gente, e tombou pro lado, o que fez com que Lua gargalhasse.
-Quero sim! – ela gritou de volta.
A gente não tava muito longe um do outro, mas eles decidiram gritar, porque sim, e agora não paravam de rir um do outro. What the fuck?!?!
Por um momento vaguei por uma área escura do meu cérebro, que dizia que os dois tinham algum tipo de piada interna. Afinal, Sick Boy tinha razão, eu nem a conhecia direito, e agora não sabia se deveria ou não acreditar no que ela dissera. Me livrei desses pensamentos assim que ela ofereceu o beck pra mim, pondo o braço no meu colo. Peguei o beck, e ela soprou a fumaça devagar, branquinha, e subiu até muito alto, parecia que quase alcançava as estrelas. Já devia estar bêbado.
Dei um trago. Mais um… Mais um, e caí pra trás, deitando no vidro da frente. Pepe estava do meu lado, pegando uma garrafa da cesta e pegou o beck, voltando lá pra frente com os outros dois.
-Vamo ali com eles! – Lua se deitou do meu lado, de barriga, olhando pra mim, e os braços cruzados apoiando a cabeça. Dei um sorriso. Ela parecia uma criança.
-Vamos, vamos. – Ela se levantou e deu um pulinho pra tras, pra conseguir ficar de pé, e correu lá pra frente, se sentando entre Marco e Sick Boy.
Não me importei em ir mais devagar, ainda tava tomando o vinho que Lua tinha largado comigo. Não sei como devo chama-la… Lua… Lola… Agora eu fiquei bem confuso. Mas que merda.
No meio do caminho, meu celular tocou, e eu atendi depois de alguns toques, diminuindo o passo.
-Luc? – A vozinha soou do outro lado, a ligação estava horrível. – É a Lucy. – Imediatamente um sorriso resolveu surgir na minha cara. Era como se eu estivesse lá com ela, por um segundo, eu voltasse para quando nada disso tinha acontecido.
-Oi, petit! – Minha voz não podia expressar o quanto eu estava feliz por falar por ela… Porque eu sabia que teria que mentir pra ela. – Como você tá?
-Ah, estou melhor… Quando você volta? Estou com saudades. – A voz dela chorosa.
-Eu… Eu não sei, pequena, nós resolvemos andar pela Europa. – Fiquei impressionado quando minha voz não tremeu.
-Hm… Então tudo bem, liga pra dar noticias, de vez em quando – ela deu uma risadinha do outro lado. – Tem gente preocupada aqui com você. ­Sua mãe ta mandando um beijo.
Não fiz nada além de sorrir do outro lado.
-Manda outro pra ela… – Olhei pra baixo. – Lucy, como vocês estão? Quer dizer você, Pierre, minha mãe, minha tia… Estão se vendo todos os dias? – Ela demorou um pouco pra responder.
-O… O que? – Ela perguntou, a ligação estava estável.
-Vocês ainda se veem? – Perguntei pausadamente.
-Sim… Todos nós. – Ela suspirou. – Qual o problema, hein?­­ – A calma na voz dela tinha ido embora.
-Nada, Lucy, nada. – Ela riu do outro lado.
-Tu vai querer mentir pra mim, Luc? Pensei que a gente tinha parado com isso. ­– As palavras todas atropeladas.
-Lucy… – Andei pra perto do carro, falando mais baixo. – Lucy! Agora eu não posso te explicar… Amanhã eu te ligo, e prometo que explico o que eu acho que vai acontecer. – Finalmente tinha falado. – Por enquanto, fala pro Pierre pegar as armas, e fica com uma ti. Tu tem que proteger minha mãe, e ele a minha tia… Mas não deixem elas desconfiarem… Por favor… – Falei aquilo tudo um pouco rápido de mais, e minha respiração ficou acelerada.
-Tudo bem, tudo bem. ­– Agora sua voz era preocupada. – Mas amanha tu vai me explicar tudo direitinho. Se não eu vou mandar o Pierre lidar com isso… ­Pude ouvir que ela estava segurando um choro.
-Fica tranquila, Lucy, não é nada demais. – Ela começou a chorar. Eu não queria ouvir aquilo, não agora… Não podia ficar triste, logo agora. – Ei, petit, eu preciso ir, tudo bem? Amanha eu te ligo. Estou tirando algumas fotos dos lugares que passamos, pra te mandar, depois. – Falei, pensando na ideia, agora.
-Tudo bem… – Ela falou, com a voz baixa. – Até amanhã, Luc… – Ela sorriu.
-Até amanha, mon amour.
Ela desligou o telefone e eu caminhei até onde eles estavam, sentados, conversando alto, e rindo. Sentei do lado do Sick e perdi o folego quando vi o que tava debaixo dos meus pés. Era como se estivéssemos caindo da montanha, mas não literalmente. Eu nunca achei que ia ver anda desse tipo,. Nem sabia que aquilo existia. Pra mim, eram só paisagens aleatórias que fazia nas minhas telas, não que elas pudessem, realmente, serem reais.
-Bonito, né? – Lua falou, olhando pra mim, pela frente de Sick Boy.
-Muito. – Concordei, sorrindo.
-Vocês não iam me contar o que ta acontecendo? – Ela se inclinou pro nosso lado.
-Na boa, gatinha, tu não quer saber o que ta acontecendo. – Sick Boy se apoiou nos cotovelos, e deu um sorriso, balançando a cabeça.
-Qual é, Sick Boy! – Ela deu um tapinha na grama e se sentou, abraçando os joelhos. – Eu não vou contar pra ninguém… Eu só… tenho a sensação de que eu posso ajudar. Vocês não parecem estar bem… Eu sei que alguma coisa, provavelmente muito ruim aconteceu com vocês. – Ela olhava pra frente, enquanto falava, e falava baixo, e pausadamente. Só a voz dela no ar, junto com um vento que balançava as folhas das arvores.
O peso das palavras dela ficaram me incomodando no ar, mas eu já estava decidido à não falar nada, não era responsabilidade minha, eu estava ali por consequências, eu nunca compactuei com o plano.
Mas esse é o meu problema, quando algo me incomoda e ninguém fala nada, eventualmente eu vou falar alguma coisa.
-O que tu ia fazer, de qualquer jeito, tu é uma modelo, e tu ta à trabalho. – Olhei pra baixo, arrancando a grama do chão e jogando longe.
-Não é bem isso… – Ela começou a falar. – AHÁ! Eu sabia que tinha algo errado. Algo ruim errado. – Ela deu uma risada. – Agora me contem. – Ela pediu, ajeitando a coluna.
-Muito obrigado, Luc. – Sick boy olhou com uma cara de ódio pra mim, eu até recuei. Ele não saiu da posição que estava, e virou-se para a Lua. – Por que tu quer saber isso, Luazinha? – Ele perguntou, todo simpático. – É melhor tu não se envolver nisso, tu tem tudo pra se dar bem, por aí. – Ele sorriu, e olhou pra baixo.
Ela deu uma risada nasalada e balançou a cabeça.
-A questão é que pra viver do jeito que eu to vivendo, eu prefiro ajudar alguns amigos. – A garganta dela fechou, e ela engoliu um choro. Eu não sabia até que ponto aquilo era real.
-Como assim, guria? – Sick Boy se sentou e embalou a menina nos braços, fazendo cafuné, até que ela se acalmou.
Ela olhou pra ele, agradeceu, limpando os olhos, e logo em seguida olhou pra mim, quase como que pedindo desculpa.
Eu hein.
-Eu não to aqui tirando foto… – Ela entrelaçou os dedos. – Quer dizer, não exatamente, estou até tirando algumas, mas nada muito profissional. – Ela jogou a cabeça pro lado. – Tu te lembra quando me perguntou porque meu nome estava como Lola no registro do quarto, Luc? – Ela olhou na minha direção, sem piscar os olhos, e eu balancei a cabeça. – Meu nome é Lola porque eu to fugindo do meu ex namorado. – Ela olhou pra baixo. – Eu não podia simplesmente fugir dele, como se eu estivesse morta. Eu tive que trocar algumas coisas, me confundir no mundo normal. Mas meu pai colocou todos esses caras atrás de mim pra me proteger. – Ela riu, mas lagrimas caiam do rosto dela. – Eu to cansada disso, sabe? – Ela deu um gole na garrafa que estava do lado dela, respirando fundo antes de continuar. – Eu queria fugir, de todo mundo. Eu sei que o Ed nunca vai me encontrar, se eu fugir, de verdade. – Ela olhou fixamente pro Sick Boy e de vez em quando olhava pra mim. – Se vocês quiserem fugir… Vocês podiam me ajudar com um plano que eu to traçando, né? – Ela sorriu.
Soltou tudo aquilo como se soubesse o que havia acontecido com a gente, como se ela soubesse de quem estávamos falando, como se ela estivesse com a gente o tempo todo.
-Como você sabe de tudo isso, Lua? – Ela me olhou, se perdendo no meio das próprias perguntas, tentando responder a minha.
-Ué, eu tava na frança, e vocês estavam na frança, eu vim pra cá, vocês também viera… – Ela disse como se fosse a coisa mais obvia do mundo. – Nos percorremos o mesmo caminho.
-É, princesa, mas você veio de avião, não veio? – Sick Boy voltou a posição inicial. – Tu veio toda no conforto. A gente. – Ele apontou pra mim e pra ele. – A gente ta lidando com um pessoal barra pesada, gracinha, eu não me envolveria se fosse você. – Ele falou isso com muita calma, e pareceu muito fácil. Eu não conseguia ser direto, assim. Eu não gostava de saber que poderia ser a causa do sofrimento de alguém, mesmo que seja só pelo jeito de falar.
-Mas eu posso ajudar. – Ela rebateu. – Eu posso colocar vocês no meu avião, vocês nunca vão ser pegos pra voltar pro Brasil. – Ela falou aquilo, sorrindo e pude ver um sorrisinho surgir no canto da boca do Sick.
-Puta merda. – Ele falou, me olhando. – Não. Deixa quieto. Cada um aqui quer voltar pra casa, só eu sou do Brasil. – Ele olhou pra baixo.
-Eu posso ir pro Brasil contigo. – Falei. Simplesmente saiu.
-Eu também posso, Sick. – Pepe se pronunciou.
-Eu sou brasileira, meu bem. – Lua reclamou, o batendo por ter esquecido do pequeno detalhe.
Sick boy começou a rir.
No fim ele era só um menino com medo de ser abandonado de novo, como deve ter sido pra família.
Agora ele começou a construir outra família, e parece que ele gosta dela, também.
-Então tudo bem, vamos nos encontrar amanha para resolver isso logo. – Ela falou. – Eu não aguento mais comer peixe. – Ela fez que ia vomitar.
Sick Boy soltou uma gargalhada bêbada e saiu correndo pra ligar o radio do carro. Aumentou no último volume um Blues corridinho, voltando pra pegar Lua pela mão e dançar com ela perto da floresta.
O único som que dava vida àquela noite, era o som da musica, que ecoava e parecia ir até as ruas, enquanto as pessoas dormiam, a gente causava a discórdia de uma cidade parada.

Quem dera perder-me em teu corpo
Explorar cada beco e viela,
Que faz de mim mulher.
Quem dera ser a poesia que te faz gozar
Toda vez que você me faz teu verso
E me lê como se eu fosse tua doce poesia.
—  prosper-a