surealista

Eram 19:30h e eu estava deitado para dormir.
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Você pode estar pensando: “nossa tão cedo?”, mas não, não era. Não pra quem não dormia direito há quase dois meses. E definitivamente, não pra quem não desejava dormir por alguns anos. Eu não sei como algumas garotas têm coragem de dizer que nós não sofremos por esta merda de amor, como se elas não soubessem como fazer isso direitinho. Meu namoro havia acabado a quase dois meses, dois meses antes de completar um ano, entretanto eu ainda me recordo, e pior, me comporto como se tivesse sido a uma hora. Lembro-me que no dia havia ido ao shopping com a minha melhor amiga ver um filme. Ela me ligou e disse que queria conversar serio comigo a noite e que, portanto passaria no meu apartamento às vinte horas. Não dei grande importância, tudo pra ela era sempre muito sério. Ela chegou no horário combinado. Eu fui abrir a porta, a abracei como de costume e me inclinei para beijá-la. Foi quando vi que algo estava errado. Tirei as mãos de sua cintura, segurei seu rosto e olhei em seus olhos.

- Amor o que aconteceu? – Perguntei. Os olhos dela estavam desesperados.

- Precisamos conversar – respondeu ela, desviando o olhar e se afastando.

- O que foi? - Perguntei cruzando os braços no peito. – Diz logo, estou ficando preocupado – acrescentei quando ela continuou calada.

- Eu preciso de um tempo.

- Leve o tempo que quiser – disse eu inocentemente, achando que ela queria um tempo pra organizar as idéias, pra por pra fora o que a estava perturbando. – Eu espero.

- Você não entendeu. Eu quero um tempo de você… Dessa relação! – Disse ela levantando a cabeça com um olhar firme. O olhar que usava quando estava decidida. O olhar que eu não ousava contestar quando ela dizia que íamos ver a comedia romântica e estava decido. Ela estava me pondo pra fora de sua vida. Minha mente parou de funcionar depois disso.

Sei que ela falou por horas, tecendo justificativas e motivos, mas a única coisa de que me recordo nitidamente é da ultima frase que ela disse com lágrimas em seus olhos:

-Nosso relacionamento não é como eu esperava que seria. Você não é o que eu pensei que fosse. – Então ela se foi.

Eu pensei que ela ia ligar pedindo desculpas ou apenas dizendo que havia sido uma brincadeira. Por isso durante aquela semana sai com meus amigos, curti, bebi e aproveitei as ‘férias’ que ela havia me dado. Só depois percebi que ela havia falado serio, que estava mesmo acabado. Então foi ai que meu mundo desabou. Liguei, mandei e-mails e fui a sua casa. Porém ela não atendia, não respondia e-mails e nunca estava.

Eu sempre fui do tipo galinha, que nunca namorava e se isso acontecia era com 3 ao mesmo tempo. Eu costumava dizer que a proporção de mulher pra homem no mundo era 7 por 1 então por isso não podia escolher uma e deixar as outras, seria injusto. Eu era idiota, eu sei disso. Eu bebia muito, sai demais. Teve uma época que meu apelido era São Jorge, domava todo e qualquer tipo de dragão depois da meia noite. Efeito do álcool. Então eu a conheci. Então eu fui domado. E então foi a primeira vez que eu tive uma única namorada e estava sendo fiel. E foi então que eu me ferrei. E aquela historia de que ela me amava? Eu sei que não sou perfeito, mas eu valia à pena. Era um pouco ciumento e até possessivo às vezes, mas eu a amava. E isso devia compensar todo o resto, não?

Passada uma semana para o meu choque de realidade, duas semanas a procurando e mais uma semana feito uma menina trancado no meu quarto me lamentando, conclui que era hora de seguir em frente. Então juntei tudo que era dela, tudo que havia me dado, empacotei, escrevi um bilhete e mandei pra casa dela. No bilhete estava escrito:

Você me fez acreditar no amor e me fez acreditar que eu estive certo todo o tempo em que duvidei de tudo isso. Não porque não existe, mas porque dói. Eu devia ter me preservado. Eu te amo e eu me sinto estúpido. Parabéns você está com meu coração, fique com ele. Não o quero de volta, assim evito que ele me traia e me meta nesta mesma enrascada outra vez. Nunca o usei antes de te conhecer e pra nada ele me servirá agora. Faça bom proveito.

Até hoje não sei por que acabou. Mas o amor é assim: Vem quando você não espera te mostra o que nunca sonhou viver e parte sem que você tenha tempo de notar pra onde ele foi. Então eu continuei a viver e estava indo bem dentro do possível. Mas hoje no quase aniversario de um ano não deu pra evitar e pra fechar com chave de ouro ainda acho a blusa predileta dela aqui. Achei que o pior tinha passado, mas ao que parece a vida gosta de se divertir as minhas custas. Escuto um barulho. Quem diabos esta batendo na porta? Levanto-me disposto a matar quem quer que seja. Deixei claro que não queria ver ninguém hoje. Batem novamente.

-Já estou indo – disse zangado. E é melhor que seja importante, pensei.

Abro a porta. Então meu rosto se petrifica em uma máscara de choque. Ela está na minha porta.

Ela narrando.

Eu sou uma idiota. Porque terminei com ele? Eu o amava, eu o amo. Mas eu estava insegura e todas aquelas amigas e festas. E aquela garota me dizendo que ele só queria se divertir, eu disse que nos estávamos juntos quase há um ano, e ela me disse que ele devia ter mais uma meia dúzia de namoradas. Que ela já havia sido uma delas. Eu tentei falar com ele, mas ele não negou nada, ele nem respondeu. Deixou-me falar por horas e nem se quer prestou atenção. Se ele tivesse pedido pra eu ficar eu o teria feito, mas ele nem se deu a este trabalho. Minha amiga o viu em festas e mais festas, então quando ele me procurou eu estava com raiva. E com a certeza de que havia feito o certo. Mas depois de todo este tempo sem ele e depois daquela carta eu tive outra certeza e esta era absoluta, irrevogável e estava me matando: eu o amava. Então me despi do meu orgulho e fui ate sua casa. Passei meia hora em frete a porta pensando em dar meia volta, até que em um surto de adrenalina e num arrombo de coragem eu bati na porta. Nada. Será que ele esta em alguma festa, afinal é sábado. Bati novamente, só pra desencargo de consciência. Estava pronta pra ir embora quando o ouvi gritar:

-Já estou indo – ele parecia bravo. Ao ouvir sua voz meu coração começou com o samba. Estava tão nervosa. Queria sair correndo. E era isto que eu havia decidido fazer, no mesmo instante ele abriu a porta. Ele não me esperava, isto estava claro. Eu só o olhava: ele estava sem camisa, com o cabelo bagunçado e ficaria perfeito comigo em seu abraço. Passado o choque ele cruzou os braços e disse:

- Se veio me dar os parabéns pelo aniversário de um ano de namoro, perdeu a viagem - disse sorrindo sarcasticamente. Ele se lembrava! Ele devia ser proibido de sorrir assim. – Eu não tenho namorada. – Acrescentou acidamente.

- Não foi pra isso que vim – disse colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, quando a culpa me invadiu.

-Já sei! Veio buscar algo. A blusa né? Me esqueci de mandá-la. Vou pega-la, só um minuto.

- Não – pedi o segurando pelo braço quando ele ia dando meia volta. Ele se virou e olhou para a minha mão em sua pele. – Eu vim pra falar com você.

- O que você quer? – Indagou de forma rude. Eu o soltei e passei a mão no meu cabelo.

- Não vai me deixar entrar?

- Abri todas as portas possíveis pra você e não foi algo bom pra mim. Prefiro mante-la onde esta, do lado de fora.

- Não me ama mais? – Perguntei de uma vez.

- Pra te amar eu precisaria de um coração e eu estou oco por dentro.

- Por quê? Seu coração ainda está comigo? – Não pude evitar sorrir com o pensamento.

- Não sei por onde aquele desgraçado anda, só o quero bem longe de mim, não gosto de traidores.

- Bem… - respirei fundo – Eu o amo, e muito.

- O que veio fazer aqui? É uma pegadinha? Só pode ser brincadeira. Onde estão as câmeras?

- Você esta me magoando! – Dito isso ele caiu na gargalhada.

- Eu estou te magoando? - Então ele ficou sério. – E qual o nome que você dá para o que fez comigo?

- O que eu fiz foi pedir um tempo…

- Exatamente! E eu não sou relógio. – Disse me interrompendo – Nem um dos seus filmes de comedia romântica que você pode pausar para dar uma volta e apertar o play depois como se nada houvesse acontecido! – Gritou ele.

- Eu sei disso – disse eu me aproximando. Coloquei a mão em seu rosto e olhei em seus olhos – Eu o amo, de verdade. Só precisava de um tempo pra pensar.

- E porque não pensou comigo? Porque não me respondeu? Porque sumiu? – Disse mais suavemente. Eu só podia ver magoa em seus olhos.

- Eu precisava deste tempo pra descobrir que sem você eu posso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa, menos ser feliz. Volta pra mim?

- Você não disse que eu não era o que você esperava? Nem o nosso relacionamento como sonhou? – Perguntou sério. - Acho que você precisa pensar melhor no que fala ou falar menos já que muda de opinião tao rapidamente.

- Eu sei. Mas quem manda aqui é o estúpido do meu coração. É ele quem decide.

- Alguém ai tinha que pensar né?! Imagina! Dispensar um partidão feito eu - disse sorrindo e me segurando pela cintura.

- Quer dizer que me perdoa? – Perguntei colocando os braços em volta de seu pescoço com cautela.

- Eu nunca tive escolha. Eu a amo. Aqui também é este estúpido que manda. – Então ele se inclinou para me beijar.

Eu estava em casa. De volta pra ele. De volta pro meu mundo. E sem intenção alguma de partir novamente. Sabe quando esta tendo uma forte tempestade e você está nela, então você chega em casa? Esta era a sensação, ele era o meu lar. 

Clara S.

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The act of killing - Trailer subtitulado en español (HD)