— Café?

— O que?

— Café.

— Morno? 

— Escaldante, por favor.

— Fraco?

— Forte, potencialmente.

— Você tem um gosto meio estranho para uma menina tão nova.

— Já me disseram. Amargo.

— O que disse?

— Quero amargo, também.

— Você gosta assim?

— É pra dar aquela chacoalhada no estômago. Ver se o amargo acaba adocicando a vida; ver se a escaldação esquenta toda essa frieza.

—  Sinto rancor aí.

— Sorte sua, moço.

— Por que sorte?

— Pelo menos você sente alguma coisa.

— E você não? Nada?

— Sinto frio, agora.

— Só?

— É, acho que sim.

— Posso lhe oferecer um casaco?

— Não, obrigada.

— Gosta do frio?

— O problema não é o clima.

— E qual é, então?

— Sou eu, moço.

(samesshit)

- Oi…

- Quem é você?

- Você já me esqueceu?

- Esqueço fácil as pessoas.

- Você dizia que eu era importante.

- E você deve ter brincado com meu coração.

- Como deduz algo tão absurdo?

- Só esqueço quando saem da minha vida, e se você saiu, você brincou com ele.

- Sorte sua.

- Sorte?

- É, esquecer as pessoas tão fácil assim.

- Ah sim, sorte… Acho que não. Aprendi a lidar.

- Mesmo assim.

- Já se passaram sete anos, o tempo ajudou.

- Mas você disse que não lembrava…

- Mas eu lembro. Você foi a única pessoa que eu não esqueci.

- Ah…

- Não fui sutil o bastante? 

- Eu também não esqueci você.

- Isso é fato, afinal, foi você quem veio aqui.

- Só queria botar a conversa em dia, quer um chá gelado? Sei que você gosta.

- Gostava, ficou meio amargo depois de um tempo, assim como você. Licença, você está me atrapalhando a regar as flores.

- Desculpe.

- Tudo bem, é só chegar um pouco para o lado.

- Não, me desculpe por ter partido.

- Você teve que partir… A cidade já não era boa.

- Não, desculpe por ter partido seu coração.

- Ah, isso? Tudo bem, me dê mais sete anos e eu esqueço.

(samesshit)

– Olá?

– Oi.

– O que você faz nessa esquina, uma hora dessas?

– Sentada na calçada, não vê?

– Vejo, mas não entendo o porquê.

– Ótimo.

– Ótimo?

– Não era para você entender, mesmo; aliás, nem lhe conheço.

– Você não deveria andar por essas bandas, principalmente nesse escuro.

– Por que não?

– É perigoso, todo mundo sabe.

Não tenho nada a perder.

– Não? Tem a vida.

– Não me custa. Minha vida é barata.

– Quanto vale?

– Duas doses de whisky e um pouco de silêncio.

– Lhe pago as doses, mas o silêncio não é garantido.

– Gosto de aproveitar o silêncio sozinha.

– Tudo bem, aceita as doses?

– Fica para outro dia, tenho que dobrar a esquina. Está amanhecendo.

– Você é uma menina da noite, então?

– Você pode nomear assim, apenas não gosto de rondar por aqui de dia. É meio… lotado.

– Não gosta da multidão?

Não gosto das pessoas.

– Posso saber o motivo?

Elas podem me ver.

– E isso é ruim, por quê?

Meus olhos estão… Borrados. Sem vida.

– É só limpar, eles ficam alegres novamente.

E o que eu faço comigo? Limpar não resolve.

(samesshit)

- Você ama?

- Amo não.

- Nem um pouquinho? 

- Nem.

- Como não?

- Não amando, agora pare de me fazer essas perguntas confusas.

- Tudo bem, então. Quer dar uma volta?

- Dou voltas em mim todo dia, então, não.

- De onde vem tanta frieza, menina?

- Você sabe.

- Por que diz isso?

- Quem constrói, sabe de onde vem, não é?

(samesshit)

- Eu não entendo…

- O que?

- Você.

- Ah, normal.

- Normal?

- É, você é apenas mais um.

- Sou tão insignificante assim?

- Achei que você já sabia.

- Tu nunca me disse.

- É notável.

- Mas… Por que eu não valho nada para ti? Nem um tiquinho?

- Ninguém é importante para mim. Só eu.

- Não é difícil? Digo…

- Não, é até melhor.

- Como pode ser melhor viver sem ninguém para amar?

- Quem disse que eu não tenho ninguém? Eu poderia amar você, só não quero.

- Quer dizer que… Não é involuntário? Você consegue escolher quem amar?

- Sim… Meio estranho, né não? Também escolho quem permanece e quem vai.

- Como?

- Eu não posso fugir de mim, então permaneço.

- Por que você escolheu ser assim?

- É mais fácil guardar…

- Guardar?

- É, o que eu sinto.

- O que você sente? Me diz, descarrega isso que te implode toda a noite.

- Não, eu me acostumei. O que antes machucava, hoje só faz cócegas.

- Por que você não conta para as pessoas o que tu sente? 

- Elas não entendem.

- E pra mim?

- Você é apenas mais um.

(samesshit)

- O que você está lendo?

- Gibi, um daqueles antigos.

- Você gosta?

- Não… Só estou tentando me convencer de uma coisa.

- Que coisa?

- Prefiro não dizer.

- Tudo bem. Sobre o que fala?

- Conta a história de uma menina meio fechada… Tá, meio não, muito fechada. E que, calma, ainda não terminei. Te conto o final qualquer dia desses.

- Termina agora, é pequenininho.

- Não… Estou meio travada em uma parte.

- Meio?

- Tá, meio não, muito travada.

- E por que não consegue destravar?

- Emperrei.

- Por quê?

- Tudo bem… Não é um gibi, mas é antigo. Eu… Sou eu quem está escrevendo isto. É só mais um caderno velho.

- E não consegue terminar de escrever? Por quê?

- Porque… É difícil.

- Como?

- Pare de me fazer essas perguntas confusas, menino.

- Só depois de você me di…

- Tudo bem. O final não encaixa. Não encaixa com o começo, muito menos com o meio. É sobre uma menina muito fechada, mas e o final? Ela fica feliz? Acontece tudo direitinho, perfeitinho? Bonitinho? Sim, até no diminutivo serve.

- Esse livro parece mais uma profecia baseada na tua vida…

- E se for?

- Tem nada, não

- Então pronto. Deixa de lado; qualquer dia eu termino e te conto o final.

- Você quer um final feliz, não quer?

- Quero.

- Era melhor você estar mesmo lendo um gibi.

(samesshit)

Porque faz tempo, tanto tempo. Faz tempo que as coisas não andam como deveriam andar. Faz tempo que o trêm saiu do trilho e mudou a rota. Faz tempo que a chuva não vence o “limpa-limpa” no parabrisa do carro. Faz tempo que a força da mão na caneta não é suficiente para rabiscar nem o próprio nome, que dirá o que anda acontecendo. Faz tempo que a concentração não é a mesma, muito menos a força de vontade. Faz tempo que a resistência sobre você acabou, e faz tempo, também, que você pressiona meu coração com um ar de “quero mais” e com o ego estabelecidamente elevado. Faz tempo que você bagunçou tudo e a bagunça foi recíproca. Porque, admita, faz tempo que eu mexi com você também. Faz tempo que a coragem de desabar e gritar o que anda preso sumiu, e desde então, faz tempo que eu venho tentando achá-la novamente. Faz tempo que anda tudo sufocado na garganta, faz tempo que eu venho me esforçando para engolir. Faz tempo que tentar dizer o efeito que você causou é tão difícil quanto guardar só para mim. Faz tempo que a vida anda complicada, irrelevante e mentirosa. Faz tempo, pouco tempo, que você chegou. Faz tempo, pouco tempo, mas faz tanto tempo.
—  (samesshit)

— Gosto do seu cabelo preso.

— Mas só ando com ele solto…

— Eu sei, e acho que só faz isso para desconstituir o estereótipo que as pessoas visam em você.

— Não, nada disso.

— Tem outro motivo, então?

— Tudo tem motivo.

— E qual é o seu?

— Você não entenderia, é bobagem; nem eu entendo.

— Gosto do seu cabelo preso.

— Você disse.

— Não quer saber o motivo?

— Na verdade, não. 

— Por quê?

— Porque… É coisa minha, besteira.

— Tudo bem, mas vou dizer assim mesmo. Gosto dele preso porque, usualmente, você só anda com ele solto… Eu gosto de ver a tua diferença. 

(Silêncio)

— Surpresa?

— Nem um pouco.

— Você é… Calma, esqueci a palavra. Acho que… Durona.

— Como pedra.

— Posso saber o motivo de você não querer saber meus motivos?

— Eu não gosto de falar. E toda vez que tento, acabo gaguejando e pigarreando para disfarçar. Gosto de segredos, e acredito que você também. Então, guarda só pra ti, assim como eu.

— Assim como você?

— É, me guarda só pra ti.

(samesshit)

Vai que a gente se esbarra numa avenida impérvia e mal localizada. Vai que você derrama café na minha blusa e vai que você me cede teu casaco rebuscado. Vai que a gente troca uma ou outra palavra torta; um olhar torto, um sorriso torto. Vai que o meu cabelo está emaranhado e você coloca ele atrás da orelha. Vai que depois do café derramado, você me chame para tomar um inteiro na outra esquina. Vai que você pergunta meu nome e vai que você me chama para jantar. Vai que a gente se encontra; vai que você me leva para casa numa noite fria e diz que se eu não usar algum agasalho, eu vou congelar. Vai que eu rebato dizendo que a única hipotermia que eu posso sofrer é no coração. Vai que você não me entende e vai que você gosta disso. Vai que a gente se esbarra de novo em uma cafeteria desleixada e barata. Vai que a gente começa a frequentar os mesmos locais propositalmente. Vai que isso embola e acaba com a nossa vida. Vai que a gente gosta um do outro. Vai que a gente se apaixona. Vai que. (samesshit)

Mas, volta e pega. Não me deixa largada na beira do mar; corre, vem pegar antes que as ondas levem. Volta, é rapidinho. Ei, anjo, vira pra cá, não me deixa falando sozinha. A maré está quase subindo, e eu… Eu vou embora com ela. Vira, vira logo. Ô, anjo, depois não volta para me buscar na profundeza. Lá vai estar escuro e eu provavelmente não estarei mais te dando atenção. Não vou olhar pros teus olhos… Vou sair andando, assim mesmo, que nem você fez. Ah, anjo, agora não adianta. A onda levou; eu deixei levar. Acabei me entorpecendo e me estabilizando aqui. É, aqui mesmo, longe de ti. Bem submersa. Não adianta retrucar, anjo, a maré subiu, desceu; e você… Anjo, você continuou andando. Sabe essa água salgada que martiriza teus olhos? Acabei me acostumando com ela, assim como me acostumei com o martírio que sua ausência me causa. A gente acostuma; é, assim mesmo, contra a nossa vontade. Voltar? Voltar não, anjo. Não com você. Você não levou essa menina aqui a sério. Achou que era de porcelana e… Olha só, você quebrou. Sai, anjo, sai pra lá. Não vem mais aqui não, mantém distância. Não reclama, anjo, eu avisei. A escolha foi sua, você que não quis voltar e pegar.

(samesshit)

- Levei um susto hoje…

- Por quê?

- Um sonho que eu tive.

- Vou precisar de mais detalhes.

- Você estava nele.

- Tudo bem, entendi o porquê do susto.

- Não, não é por isso.

- Por que seria, então?

- Você estava… Você dizia que me amava.

- Ah…

- Susto, né?

- É.

- Foi o que suspeitei.

- O que?

- Você concordou.

- Sim, e qual o problema?

- Nada…

- Anda, me diz.

- Eu… Sei não, esperava que você dissesse que não precisava ser um susto,  eu lhe perguntaria o porquê e você diria para eu me acostumar com o fato de você me amar.

- Isso faz parte do sonho?

- Parece que sim.

- Por quê?

- Porque não aconteceria na vida real.

- É…

- Grande susto.

- Tudo bem, entendi.

- Entendeu?

- Você quer que eu negue.

- E por que você não o faz?

- Porque… Sou fraca para esse tipo de coisa.

- Que tipo de coisa?

- Amor.

- Eu te fortaleço, deixa.

- Não, obrigada.

- Por que não?

- Porque o amor… Amor é um susto, grande susto. 

- E qual o problema com isso?

- Eu não vou poder acordar e dizer que foi um sonho. 

(samesshit)

- Tem certeza que vai partir?

- Tenho, preciso ir embora da cidade.

- Depois não tem mais volta.

- Mas, eu não pretendo voltar.

- Tem certeza que vai partir?

- Tenho, já lhe disse que preciso ir embora.

- Não estou falando da cidade.

- Está falando de quê, então?

- Do meu coração.

- Ah…

- Depois não tem mais volta.

(samesshit)

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