SERGEI EISENSTEIN – A GREVE (STACHKA)

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Poster para “Stachka” por A. Serafimovic. Filme de Sergei M. Eisenstein (1925)

Sinopse

Adaptação cinematográfica de um evento histórico da Rússia pré-Revolução que levou a uma dura e violenta repressão por parte das forças policiais da época, resultando em inúmeras mortes e prisões de operários.

Em 1903, operários se mobilizaram em uma enorme greve após um funcionário da fábrica na qual trabalhavam ser acusado injustamente de ter roubado um micrômetro. Envergonhado, o homem se suicida, deixando um bilhete explicando seus motivos. Seus colegas então veem nessa hora a oportunidade de começarem a greve que já estava sendo discutida há dias.

Narrativa

O filme é divido em seis partes: “Tudo está quieto na fábrica”, “Razão para a greve”, “A fábrica para”, “A greve se prolonga”, “Provocação e fracasso” e “Liquidação”.

É interessante notar a cena inicial do filme, onde uma palavra “HO” (mas), se anima, fazendo as letras se tornarem uma engrenagem de uma máquina industrial. A partir daí, fica clara a oposição narrativa proposta pelo cinema soviético em relação ao cinema americano, principalmente ao gênero western, que vinha se popularizando na época. Enquanto nos filmes americanos o herói era individualizado, e geralmente enfrentava os vilões em desvantagem, sendo esses a maioria, Eisenstein fazia em seus filmes, o oposto. O heroísmo ficava por conta da maioria (funcionários), enquanto os vilões eram poucos (apenas o patrão e alguns de seus subordinados). Para Eisenstein, o individualismo era fruto do ideário capitalista e, por conta de seu engajamento com a Revolução Leninista, deveria ser abominado. Já a coletividade, era o símbolo máximo da essência do socialismo. Ou seja, toda a reforma e as “boas ações” deveriam vir da massa, da sociedade, agindo como um organismo único. O próprio letreiro de abertura do filme é uma citação de Lênin, que evoca esse espírito de organização e coletividade do proletariado, evidenciando a “união” como a chave para a revolução.

O filme não possui protagonistas, mostrando apenas algumas cenas esparsas de alguns operários durante as diversas situações antes e durante a greve, reforçando o fato de que as ações e os eventos daquela sociedade suprimem as histórias de cada um. Embora no filme existam alguns momentos mais particulares dos personagens, como mostrar as dificuldades que passam as famílias dos operários devido à falta de pagamento, ou a cena do roubo e da falsa acusação do funcionário, essas sequências não tem como interesse aprofundar-se na história de cada indivíduo, e sim explicar, por meio de alguns, as razões e consequências das ações da massa.  Apesar de a obra possuir um grande cuidado artístico, é evidentemente carregada de ideologia política, e, em seus créditos finais, encerra com uma frase que pode ser facilmente classificada como propaganda.

Montagem

Uma das frases mais conhecidas e repetidas de Eisenstein é: “Cinema é montagem”. Como fica claro em seus textos e livros, Eisenstein valorizava a montagem como a base do filme. Em seus estudos, ele chegou ao conceito de “montagem intelectual”, onde imagens intercaladas com as do filme despertariam nos espectadores reflexões baseadas em interpretações já presentes no subconsciente coletivo e no senso comum. Em “A Greve” esse conceito fica mais nítido e compreensível particularmente em dois momentos.

No primeiro, quando o alto escalão da fábrica está reunido para discutir as exigências dos operários, um dos homens decide espremer um fruto para preparar uma bebida. Ele mesmo diz, no intertítulo “Quando você espreme bem, se tem o suco”. Enquanto essa reunião acontece, os grevistas são acuados pela polícia, que os cerca usando cavalos, fazendo-os se comprimirem cada vez em um espaço cada vez menor. Essa imagem da repressão se intercala com a do espremedor por diversas vezes, criando a sensação pretendida por Eisenstein, ou seja, a população está sendo tão “espremida” quanto o suco.

Esse jogo de ideias também aparece em um segundo momento, quando, após os operários começarem a investir contra a fábrica, a polícia chega e promove um massacre. As sequências dos operários sendo mortos e agredidos é intercalada com a de alguns homens abatendo um boi, e posteriormente cortando suas partes, provocando no espectador a ideia de dois massacres iguais, acontecendo de formas diferentes no filme.

Esse é o conceito básico da montagem intelectual de Eisenstein. Como ele coloca citando os ideogramas japoneses, onde cada ideograma tem um significado, porém juntos, eles formam uma nova palavra. Por exemplo: “boca” + “criança” = “grito”. As palavras, assim como as imagens, quando justapostas, ganham um novo sentido. Usando como exemplo a segunda cena, as imagens dos manifestantes sendo reprimidos poderiam ser descritas em uma palavra como “repressão”. As imagens do boi sendo abatido e mutilado como “abate”. Porém, as duas sequências intercaladas na montagem poderia ser descrita usando a mesma fórmula dos ideogramas proposta pelo diretor como “repressão + abate = massacre”.

Essa é a chave da montagem intelectual, de não usar os planos e montagem como “auxiliares do roteiro” e sim, por meio de imagens rápidas e cortes dinâmicos que lembram até os videoclipes das décadas finais do século XX, causar sensações, provocar reflexões e contar histórias.

Por Marcelo Pedro

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