roteiro

Era uma vez um menino sem nome...

… que queria mais. Não gostava das coisas que os outros gostavam. Andava sozinho no frio. Já não tinha a garota sem pernas, já não tinha trilhos. Só restava música e toda a vergonha diante do espelho. Que deforma o rosto. Que expõe as cicatrizes todas.
Ele está em mim. Como eu nunca estive nele.
Nunca estarei.
Pelo menos aqui eu existo.

Os Famosos e os Duendes da Morte

Sobre ser alguma coisa

“E lembre-se: eles estão sempre errados. Você está sempre certo. Porque você é o escritor.”

Quando comecei a escrever quadrinhos no início dos anos 00, esse era o meu mantra. De autoria de Warren Ellis, o trecho em questão é o encerramento da coluna Come in Alone de número quinze e da parte três do guia do velho bastardo ensinando como se deve roteirizar um gibi. Já falei disso aqui.

O ponto é: eu realmente acreditava ser um roteirista de quadrinhos porque havia lido esse manual, alguns depoimentos e entrevistas de outros roteiristas na saudosa Wizard Brasil e, claro, pelos anos de leitura acumulados. Em seguida vieram os primeiros fanzines e HQs publicadas online para consolidar ainda mais minha certeza.

Hoje dou um desconto ao meu eu de vinte e poucos anos.

Antes de escrever meus primeiros roteiros, minha experiência resumia-se a quase três anos publicando fanfics de super-heróis semanalmente na internet e a alguns fanzines de contos xerocados que distribuía gratuitamente entre amigos e conhecidos. O grosso disso era um lixo. Sério. Mas foi a pré-escola que eu precisava.

Quando Ellis e, antes dele, Grant Morrison entraram na minha vida, tudo o que eu queria era emular aquela atitude cheia de si das suas entrevistas. E com uns gatos pingados de gibis publicados em chamex e que quase ninguém havia lido eu era roteirista de quadrinhos sim senhor. Heh.

Mas o tempo, ah o tempo, ele foi passando. Eu larguei jornalismo após um período, cursei letras e desisti de me formar no final, arranjei um estágio que se tornou meu emprego, casei, decidi tirar a barba apenas duas vezes ao ano, comecei a criar gatos e agora estou quase formado em pedagogia. As orelhas já estavam furadas antes disso tudo. E eu pensei em largar os quadrinhos nesse período. Não durante todo ele; em alguns momentos eu simplesmente queria continuar sendo só um leitor.

Porque eu percebi que precisava de mais para ser um roteirista de quadrinhos do que apenas me intitular como tal e conseguir publicar umas 20 páginas por ano.

A Sabor Brasilis mudou tudo.

Quer dizer, a INKSHOT deu o pontapé inicial: foi graças à antologia que o Hector organizou que ele, eu, o George e o Felipe estreitamos nossos laços. A gente queria aproveitar o embalo e produzir algo juntos. O resultado foi a seleção no ProAC, quase um ano e meio de produção até o álbum sair pela Zarabatana, a boa recepção pela imprensa e leitores e a figuração em listas de melhores do ano. E no ano seguinte chegou até a virar peça.

Coescrever metade de uma graphic novel de 120 páginas e publicada por uma editora reconhecida finalmente havia me tornado um roteirista de quadrinhos. Isso era assustador.

Lembro como achei estranho e precipitado as pessoas da cena do audiovisual alagoano me chamando de cineasta porque eu havia roteirizado e produzido um curta-metragem. Um curta. Eu poderia nunca mais produzir nada e ainda ser reconhecido como tal, talvez. Foi engraçado. Mas não com os quadrinhos. Eu havia conseguido publicar a minha primeira graphic novel, com direito até a distribuição nacional, depois de anos tentando. E tudo o que eu pensava era “será que vou conseguir de novo?”. Tudo o que eu não queria era ser um one hit wonder.

Ok, isso soou um pouco dramático e bunda-mole. Depois de pouco mais de dez anos, eu fiz algumas coisas certas: procurei aprender com os erros e acertos de cada roteiro, não fui babaca ao construir minhas amizades e colaborações no meio (o que é o oposto a fazer média ou ser um metido a bosta) e, acima de tudo, continuei escrevendo. Ainda continuo dizendo por aí que sou roteirista de quadrinhos; agora com dez reais a mais propriedade, pelo menos.

Talles e eu estamos trabalhando no volume 2 de Mayara & Annabelle enquanto o 1 continua plantando amor no coração dos leitores, Felipe e Camila estão só esperando eu retomar os roteiros de Soul Ink e no escritório da Fictícia os planos só melhoram. Posso não depender financeiramente deles, mas eu vivo de quadrinhos. Eu estou certo disso. Porque eu sou… bem, você entendeu.

Eu adoro escrever, eu gosto do modo como palavras podem descrever várias coisas. Uma vírgula, um ponto, essas coisinhas tão pequenas podem mudar o texto inteiro. Sabe, você pode inventar histórias num mundo paralelo, ou então só brincar com palavras por diversão. O que é mais engraçado sobre escrever, é que de um jeito ou de outro, um texto é como a vida. Coisinhas tão pequenas que acontecem com a gente, também podem fazer com que nós mudemos nosso roteiro inteiro.