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A música repete há algum tempo e a letra que antes fazia sentido agora se transformou numa espécie de mantra, um uníssono que bate nas paredes e volta para a pele, rebate nos pelos e faz mais sentido que nunca. A manchinha no teto sempre pareceu um cachorro, mas assim de ponta-cabeça lembra mais uma floresta no começo do outono. Ao redor tudo escureceu e ganhou estrelinhas que piscam coloridas, quase apagadas. O braço esquerdo pende e as estrelinhas enchem as pontas dos dedos, subindo depois para o pulso, de tempo em tempo. Com um pequeno impulso nas articulações as unhas tocam o chão, mas há algum tempo não move músculo nenhum. Não voluntariamente. Na parede do lado direito a sombra ondulada desceu uns três palmos nos últimos minutos. Dá pra saber mesmo sem mover a cabeça. Os olhos vidrados alcançam de alguma forma o que acontece num raio não muito grande, mas suficiente. A ideia é mudar algo quando a sombra tocar o lençol, mas por enquanto respira devagar. O oxigênio chega ao cérebro, mas pensar não significa exatamente pensar. Dizem que se pensa e sonha o tempo todo, pois o contrário disso seria a morte. O quase não pensar seria a quase morte, e saber isso mesmo sem pensamento algum na cabeça é o que deixa este momento tão especial. A sombra toca dois dedos de lençol. As estrelas nas pontas dos dedos pesam um pouco menos e os olhos fecham guardando todas as outras para si, mais acesas que antes.

Insone

Já é tarde e estou em uma luta com os lençóis que parece ser eterna. Os pensamentos se encontram em uma velocidade que me faz perder a noção da linha que separa o sonho da realidade.

A estática da TV parece estar mais alta que o normal e fumar uns cigarros não me parece algo tão destrutivo. Meus olhos piscam freneticamente, perdi a noção do tempo… Como invejo os que dormem livremente! Sem a ajuda de um ou inúmeros tragos de conhaque.

Inconvenientes raios de sol invadem meu quarto, penso em como meu dia será infernal e no quanto de coragem alguém precisa ter para sair e encarar o mundo lá fora…

-É preciso ter coragem para sair da cama tanto quanto para escolher ficar nela. O mundo vai continuar girando sem mim!

Pego no sono logo em seguida

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim. 

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

Martha Medeiros

POR QUE VOCÊ AMA QUEM VOCÊ AMA?

ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. 
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. 
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. 
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Martha Medeiros

E quando seu olhar me paralisa, assim perco as palavras e assisto você me invadir… Eu suspiro e todo o meu corpo se abala, os olhos não piscam, eu perco a fala. Toca a sua boca em mim e me perco, quase fico louca e tenho medo só de pensar, entro em desespero, só de pensar em te perder …

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

meio do filme, o fulano pega o celular e tira uma foto da tela.

final do filme, créditos começam a rolar, as luzes se acendem pela metade, flashes piscam pela sala. são pessoas. tirando selfies.

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