olhosdeacucar

Leva-me. Leva-me pra perto do teu amor. Se for sorrir, encaixa meu nome entre os teus lábios. Respira nosso amor, suspira nossas mágoas. Faz das minhas palavras o teu alento. Junta minha alma a tua, assim formamos recanto um para o outro. Carrega o nosso afeto no olhar, para aos outros encantar. Enfrenta a imensidão desse abismo longínquo, apenas para roçar tua boca na minha. Me puxa pela mão e me põe a dançar em meio a praça, num sábado de chuva. Faz-me rodopiar feito pião, até que eu caia em teus braços. Me arranca sorrisos, afana meu ar. Afaga meu cabelo, enquanto eu durmo colada ao teu peito. Me acorda aos sussurros, acaricia as feições do meu rosto até que eu desperte. Desvenda-me… Me encara nos olhos sem deixar que nesta hora meus descaiam. Combate os meus monstros, espanta meus fantasmas. Faz do meu pesar, alegria. Metamorfoseia minhas lágrimas em companhia. Em tua companhia. Esconde minhas coisas só para me injuriar. E enquanto eu me descompor aos berros contigo, abeira meu corpo ao teu, quando mais despercebida eu estiver, beija-me. Me carrega em teu colo, joga-me em qualquer canto do sofá e naufraga no meu afago. Dá-me sermões se eu fizer por merecer. E se um dia precisares novos ares para respirar, reviro-me ao avesso para teu oxigênio ser. Serei sempre o teu abrigo. Mesmo que já não queira se abrigar. Se as lágrimas evadirem das tuas órbitas, murmura meu nome que irei depressa secá-las. Se tuas pernas fraquejarem e chegarem a cair, confesso, também o farei. Mas não te preocupa, se apoia em mim que me apoio em ti e juntos levantaremos. É só chamar… Me chama de tua e eu serei.

Letícia Christi (Olhosdeaçúcar)

O silêncio é bonito… O silêncio das manhãs de domingo, o silêncio das flores no jardim. O silêncio da casa de madrugada, que emerge numa escuridão profunda. O silêncio do cachorro que observa o frango assar. O silêncio do passageiros no trem. O silêncio da paisagem que é deixada para trás… O silêncio da moça pálida, que penteia cautelosamente o seu cabelo, todas as tardes. O silêncio da senhora sentada no banco frio da praça, fitando a vida vazia dos passantes. O silêncio de um olhar. O silêncio dos braços que se enroscam e metamorfoseiam em um abraço. O silêncio das palavras que naufragaram no abismo do esquecimento… O silêncio dos lábios que nunca puderam se roçar. O silêncio do coração que padece junto ao seu amor. O silêncio é uma dor poética. Tem uma quietude bonita, entrelinhas cheias de significados.
—  Letícia Christi (Olhosdeaçúcar)

E onde está essa hora de te ter, que não chega? Perdeu-se no labirinto da minha languidez? Essa ânsia por ti, me desfaz em agruras… Depois de ti, só me apetecem estes sonhos bobos. Deixo-me embriagar nos meus devaneios, fecho os olhos e te sinto, meu amor. Vejo seu sorriso romper teus lábios, vejo os teus olhos, tão castanhos… nestas horas fora da minha lucidez, sinto até teu abraço. Me percorre aquele arrepio inesperado que vem com a doce ilusão de ter-te aqui. Me entrego a estes sonhos, pra ver se desaperta o peito. É que a urgência de ti é tão grande, que já não há espaço para outros sentimentos. Meu coração se desmantela nesse amor… Amor que não vê a hora de recostar no banco da praça contigo, com uma mão afagar teu cabelo enquanto você brinca com uma outra mão. Quero ouvir você falar dos teus planos, soltando um sorriso bobo, por achar que são só planos. Quero ver você sonhar outra vez. Quero que me encaixe no teu colo, e me deixe naufragar no teu abraço. E nessa hora eu vou te ouvir sussurrar no meu ouvido todas aquelas coisas lindas que eu queria tanto ouvir. Ah, meu anjo… A gente ainda vai ver o sol se pondo, naquele lugar que eu te disse que era tão lindo. Você ainda vai discutir comigo, dizer que minha roupa está muito curta. Vou dizer que não a troco, você vai se chatear. E eu vou encher-lhe de beijos, até que me perdoe. Acredite, meu amor. Porque eu acredito. Eu acredito que ainda vou te surpreender com meus pesadelos no meio da noite, e que você vai me envolver entre os lençóis e teus braços, e murmurar que tudo ficará bem. Ainda hei de fazê-lo rir até que te fuja o ar. Ainda vou te pegar roubando um pedaço do bolo de aniversário do nosso filho. Embora eu não saiba quão colossal ou não será a minha espera… Que seja! 30 dias, 2 anos, uma década. Eu espero. Eu fico, eu cuido de ti da maneira que me cabe. E com a distância, metamorfoseio-me em lágrimas, mas não desisto. Anota, grava, faz rascunho no peito: Eu vou te ter.

(Olhosdeaçúcar)

Era estranha aquela garota… Antiquada. Cheia de clichês. Estava sempre perdida em seus sonhos. Era náufraga da solidão. Era dona de um olhar tombado, fatigado. Tão nova e já tão cheia de cicatrizes. Ela era uma imagem triste de se ver. Respirava sempre profundamente, como se lutasse contra o mundo, como se ele quisesse afanar todo o seu oxigênio. Seu expirar, então? Expirava forte, como se quisesse por pra fora do peito toda dor que guardava. Mas quando ela deixava brotar um riso doce naqueles lábios, era de desancar o coração. Naquele raro e curto período em que ela o deixava escapar, se via tudo o que há de tão belo nela e ela queria esconder. E quem com cautela observasse, podia ver o sussurrar do que restou da sua alma, naquele único gesto. Era uma moça pesarosamente bela… Era mais uma daquelas lembranças que a gente guarda para mais tarde, e nunca se sabe porquê.

 (Olhosdeaçúcar)

Dia muitas vezes imaginado e jamais esquecido.

Levantou-se cedo naquela quarta-feira. Às cinco da manhã. Apenas levantou-se pois despertada já estava. A ânsia de que o tal “momento” chegasse, consumiu sua noite de sono. Ela nasceu para aguardar este dia, e não sabia. Foi até o banheiro, tratou de arrumar-se. Penteava os cabelos para todo lado. Nada parecia bom, suficiente e merecedor daquele dia. Se achava muito baixa, muito curva, muito pálida. Sabia que ele gostava de garotas morenas, então encheu seu rosto com uma base mais escura, que milagrosamente assentou-se bem em suas feições. Logo saiu, caminhando em direção ao colégio. Passou o dia com o olhar preenchido pelo desespero de despedir-se logo daquele lugar cheio de anseios adolescentes. Do murmurar das amigas atrás de sua carteira. Dos berros do professor, que obstinadamente tentava ensinar a matéria ao seus alunos. No fim da manhã o sinal tocou. Para ela, o tilintar agudo e aflito do sino, era como uma carta de alforria. Daquele momento em diante, só faltariam duas horas para ver, falar, abraçar e beijar seu amado. Passou aquelas duas horas pensando em tudo que havia ocorrido. Pensou nas brigas. E riu delas. Riu das vezes em que foi pessimista, crendo que tudo daria errado. Pela primeira vez, ficou feliz por estar absolutamente enganada. Pensou nas lágrimas. Lágrimas que eram a forma de expressar a carência que sentia. Lágrimas que agora se metamorfoseariam em carícias, beijos, mordidas, abraços. Emergiu naqueles pensamentos - que agora lhe pareciam bobos - até que a hora chegou. Pegou um táxi na avenida próxima a sua casa. Entrou, e disse ao motorista:

- Para o Aeroporto Galeão. O mais rápido que você conseguir. - as palavras saíam escarradas da sua boca, por conta do nervosismo de saber que por mais rápido que fosse o motorista, ainda sim ela enfrentaria o trânsito intenso da cidade.

Depois de um tempo, o motorista que notou sua aflição, indagou-lhe:

- O que há, moça? Para que tenha toda essa pressa em chegar lá…

- Moço, você sabe o que é o amor? O amor verdadeiro, aquele que não mede beleza, palavras, esforços e distâncias? - respondeu a garota, já um pouco irritada.

- Sei sim… - disse o motorista.

- E porque não o reconhece quando o vê nos olhos de uma garota? - Indagou com um ar de indignação.

O motorista apenas sorriu. Ela demorou a entender aquele sorriso mal esboçado que homem havia lhe dado, até despertar da sua redoma de devaneios e notar que já haviam chegado. Saiu do carro desesperada. Teria esquecido a bolsa se o taxista não houvesse lhe avisado que saiu sem ela. Ficou na sala de espera do aeroporto por meia hora. Comprou alguns chocolates para se acalmar. Foi ao telão de horários ver quanto tempo ainda duraria aquele castigo. O avião do seu amado pousaria em 10 minutos. 10 minutos esperando em frente ao portão de desembarque. Seu corpo inteiro tremia. Sentiu um vazio grotesco no estômago. As lágrimas começaram a rolar. Pensou em ir embora, teve medo de que quando a visse, ele se decepcionasse. Mas não conseguia mover um músculo. Naquela altura, muitas pessoas já saíam do portão de embarque. Respirou fundo. Mais 10 minutos e ele ainda não havia desembarcado. Seu coração parecia falhar, e seus suspiros eram incessantes. Então, sentiu alguém enroscar os braços em sua cintura. Suas lágrimas esvaíram novamente. Não por desespero, mas por alegria. Sabia que seu maior sonho agora estava abraçado a sua cintura. Sabia que pela primeira vez em muito tempo, a vida havia lhe dado um presente: Tê-lo. Sentiu-o se aproximar, sentiu seu respirar próximo ao seu ouvido. Então ele pronunciou aquelas três palavras que só haviam chegado aos olhos dela:

Eu te amo. 

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele a virou a e a beijou. Não foi um beijo de cinema, ninguém parou para observar. Não houve aplausos. Mas para eles, houve o início do primeiro dia de suas vidas. Sim, porque ali, os dois renasceram. Daquele momento em diante, agora eram dois jovens, sem mágoas, sem pesares. Eram apenas dois jovens tentando fazer feliz um ao outro.

Letícia Christi (Olhosdeaçúcar)

Hoje eu sentei lá fora, na calçada quente e suja. Respirei aquele ar de cigarros, o ar das pessoas poluídas que existem nesta cidade. E por horas permaneci imóvel, observando o passar dos carros, a pressa de alguns, o vagareza de outros. Em meio às figuras, notava sorrisos, e ocasionalmente alguns pesares que os frágeis deixavam escapar. Por horas a fio, deixe-me abandonar à aqueles rostos e formas que habitavam a minha volta. Neles, criei mil devaneios, trocentas histórias e suas ilusões. Permiti a mim, me alienar naqueles indivíduos que nada a ver tinham comigo. Tudo para não deixar a tua lembrança vir a tona. Embora, de toda forma e maneira, eu sabia que minha velha amiga, saudade, chegaria. E chegou, chegou com você colado ao peito. Sentou ao meu lado, e indagou:

– O que tanto olha, querida?

– Nada meu bem, era só distração. Eu estava apenas a sua espera…

– Pois aqui estou. Sem notícias, sem carícias… Só silêncio, só lembrança.

– Já era de se esperar. Saudade, minha querida, por quê? Por que não leva minhas tristezas a ele, por que não o diz o quão sinto sua falta? Por que, saudade? Por que não mostra mostra o abismo que ele abriu eu mim? Ou ao menos lhe pede que devolva o pedaço de coração que ele me roubou? Por que me visita, e não a ele, querida? – Eu já lhe bombardeava com minhas perguntas, com minhas lágrimas nos olhos.

Garota boba… Eu sou apenas a saudade. Minha função, é levar lembranças e melancolia, para que as pessoas sempre mantenham na mente a dor de perder alguém. Para que as pessoas se mantenham mais próximas, entende? Não poderia fazer coisa alguma que me pediste. Não poderia, porque minhas visitas a ti já são inapropriadas. Não poderia levar a ele palavra alguma, pois ele jamais me sentiria, querida. Seria incapaz de fazê-lo devolver um pedaço teu, pois nem o próprio imagina que o tem. Eu estou inapta a lhe oferecer algo, além de minhas visitas. Visitas que nunca acontecerão a ele, garota. Porque se esqueceste, que você amou sozinha? Criança, eu jamais poderia lembrá-lo de sentimentos ou razões que nunca existiram para ele. – Respondeu minha amiga, e foi embora. Foi embora com a expressão de pena que eu já conhecia. Foi embora com os olhos dizendo “Sinto muito”.

 (Olhosdeaçúcar) 

Eu anda necessitando de colo. Essa ânsia aqui dentro, esse abismo no peito, essa esse engano… Alguém, por favor, tira de mim? De mim, que só restou uma alma que se debate em agonia. Se contorce à mercê da dor de ser uma eterna decepção. E esse maldito coração, que insiste em continuar batendo? Que persiste em continuar sentindo? Terrível mesmo, é esse cérebro. Tal, que nem por um minuto se empenha, para impedir que as lembranças continuem vagueando por minha mente… para impedir que elas procurem lugar pra ficar. Enquanto isso, minha boca fica aqui penando, só pra esboçar aquele velho sorriso. Meus olhos tentam driblar as lágrimas, que se pudessem, cairiam como as águas de uma cachoeira. Estes olhos que desviam outros olhares, olhos que escondem a alma inteira. Estou entregue às ruínas da minha vida. Perdi pra saudade que mora em minhas entranhas. Deixei meu âmago à sua própria vontade, que ele se enchesse de nostalgia. Que ele tecesse as linhas do meu desalento… abandono a mim mesma, deixa que a vida irá decidir por quanto mais meu peito irá definhar.

(Olhosdeaçúcar)

O que me desaponta? A falta da tua presença. Do teu sorriso cínico. O som do riso ordinário que desabrocha na tua boca. Falta-me até a tua quietude. Até mesmo o teu silêncio mais rude. Anseio as tuas mãos desatentas vagueando pelo meu corpo. Carência são os teus lábios roçando nos meus… Me fatiga sempre sucumbir aos tormentos do meu âmago, este, que sôfrego sussurra pedindo por teu aconchego… Por teu peito firme, que seria recanto para mim. Minha alma brada e suplica encarecidamente que venha. Vem e afana meu ar. Me injuria, me provoca, me descompõe. Desarranja-me, e desordeno-te. Toma-me o coração. Chega e faz durar. Trata-me como boneca, acaricia minhas feições, toca-me a mão. Vem que quero ser perpetuamente tua.
—  Letícia Christi, S-ubtlety

Os travesseiros espalhados por meu colchão já não podem preencher a lacuna da minha languidez. Estes já não podem - nunca puderam - ocupar o teu espaço. Não podem ser o abrigo que seriam os teus braços. Não podem torna-se a paz que a tua presença me traria. Deixá-los esparramados, consumindo os centímetros que deveriam ser completados por teu corpo, é apenas prova da minha aceitação. Prova de que estou aceitando a sorte amarga que a vida me reservou. Encontro-me sempre extasiada, à mercê de devaneios. Mas quando recobro a realidade, percebo que já não posso mais fazê-lo. Esta espera já não cabe mais a mim. Noto que já não posso mais me manter estática nessa redoma de morbidez. Não posso mais consentir que a vida afane mais um sonho, que me tire mais um motivo. Preciso lutar. Arrancar as ervas-daninhas que há muito se enroscaram no meu peito. Preciso despedir-me das minhas queridas mágoas. Não estou falando sobre mascará-las, mas sim, dizer adeus. Acredito que só assim minha coragem irá emergir. Aquela que tanto busco em meu peito. A qual necessito para afrontar meu destino. A qual eu preciso para lutar por ti. E não posso esquecer de abrir a janela da alma, pra ver se essa se encontra com a brisa, pra ver se os ventos trazem você. Tenho que lembrar-me, ao acordar, de esboçar um sorriso. Esboçá-lo imaginando que você o faz também. Imaginando cada traço do seu rosto ao formá-lo, desejando o brilho dos teus olhos. Terei que lembrar-me de ser tolerante. Lembrar-me de escrever-lhe o meu amor a toda hora. De ouvir o teu amor também, sem jamais duvidar. Mesmo que o coração fatigado teime em não crer, eu hei de fazê-lo. E quando a hora de ter-lhe chegar, deixarei que me leve. Sem repensar, darei o que este amor exigir de mim. Abandono as minhas vontades, minhas pequenas paixões. Quando chegar a hora, entrego-me por inteiro. Entrego-me, pois apenas tua quero ser.

 (Olhosdeaçúcar)

Fragmentos dos meus sentimentos sempre à toa, bailando até que que encontrem um solo fértil para florir. E hoje, veio oscilante até mim este anseio. Circunstância e consequência fatal do tempo. Medo que enrosca-se nos quadris da minha fraqueza e não me deixa escapar. Tento, falho. Eu estou perdendo o meu ar inocente de costume. Perdendo a graça harmônica de menina. Se estou metamorfoseando mulher, não sei, mas sei que não me apetece. Sinto-me feliz e em paz sendo meio termo, menina-mulher. Não quero revirar-me nessa complexidade. Esta tal maturidade é colossal demais para encaixar-se no meu âmago. Por isso finco o pé no chão e insisto que não. Não quero levar o peso do próxima fase. Não quero deixar de ser rosa fechada. Não quero crescer. Porque não estou apta a admitir meus erros… Já bastam minhas fraquezas que se expõem como um esgoto a céu aberto. Não posso perder a chance de fazer birras, de receber mais algodão-doce quando quiser, ou ganhar um “prêmio” toda vez que eu realizar minhas tarefas da maneira correta.  Sabe, eu não quero ter que largar a mão da minha protetora para atravessar a avenida. Não quero ter que ler as histórias na companhia da solidão. Não me servem os risos, se eu mesma tiver que fazê-los aflorar. Por quê irei querer fazer parte do dia lá fora, se agora eu devo criar meu próprio dia? Que graça teria não compartilhá-lo? E os cuidados? O seria de mim seus o carinhos, o apego e a cautela que me entregam… Então, esforço para quê? Angustia para quê? O mundo vai passar fugaz por mim, e eu não me finco em nada. Serei levada até com a mais mera das brisas. Hoje e no porvir, retorno a minha sentença: “Crescer não é para mim”. O mundo me embala revolto, e nada mais me parece seguro. Nem o conforto dos meus lençóis, quem dirá a faixa de pedestres.

Letícia Christi, S-ubtlety