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Stalking

“Existe toda uma loucura embutida em meus atos, essa coisa que muitos chamam de intensidade, fazer-sem-pensar, isso tudo para mim é transmitido em loucura. Não sou louca do modo pejorativo que  me chamariam, sou louca do elogio por mim merecido. Eu sigo seus passos assim como quem não quer nada. Vou investigando-os, anotando o que me convém em um caderninho preto que dorme debaixo do meu travesseiro. Vasculho seu lixo, leio suas cartas, aquelas que minha mente transtornada escreveu por semanas a fio. Vou ao seu restaurante predileto, peço o prato de sempre e finjo ser você por alguns instantes. Há algo de sórdido no jeito em que bebo meu conhaque, algo de louco em tudo feito por mim. Mas eu não me importo mesmo. Vou ao local em que você faz as compras e com um carrinho te sigo, como quem apenas está olhando os preços. Fico sentada em frente ao local do seu trabalho, lendo algo, esperando seus movimentos. Vejo até pela janela do seu quarto, quando tem companhia ou está irremediavelmente só. Não pense que é amor, é apenas obsessão, hobby, deixe-me apenas terminar com isso, deleitar nos momentos em que seus olhos encontram os meus e se perguntam se já não me viram anteriormente, encontrá-lo por um feliz acaso no seu bar predileto, coincidentemente pedindo o mesmo que você. Ah não se assuste, não farei mal algum, pelo menos não ao seu corpo. É seu aniversário e eu mando flores, as mesmas de sempre e sem cartão. Imaginas quem pode tê-las mandado? Eu não imaginaria jamais. Apesar disso, tenho vida e muito bem vivida. Das minhas horas vagas apenas uma é dedicada a atormentá-lo, engraçado como ela parece ser maior não é?”

Leu a carta e riu em alto e bom som. Nunca algo havia sido tão engraçado e ridículo ao mesmo tempo. Olhou ao longe e viu uma garota sentada em um banco, sabia ser a remetente da carta. Amassou-a e jogou no chão pois sabia estar sendo observado naquele momento. Garota mais estranha, achando que está me atormentando… 

Samara

Eu gostaria de compreender e quem sabe até previnir, o impacto gerado por algumas pessoas em nossas vidas. O modo como elas vão e voltam, assim, sem pedir licença, sem nem perguntar se estamos prontos. Elas simplesmente chegam e chegando bagunçam de uma forma assustadora a nossa vidinha pacata. Ela veio e arrancou uma máscara, fez-me olhar no espelho e para sempre me enlouquecer com o que vi. E porque vi não tenho muita certeza mais. Ela veio e não me deixou olhá-la como fui olhada, não me deixou penetrar. É curioso este efeito não? Curiosíssimo, vai entender. Pior quando ela foi, pois acabei encontrando pessoas tão semelhantes. As vezes mais intensas, mas a semelhança estava lá. Então algo eu devo aprender com isso, não é? A Arte fala da Providência, onde devemos aprender algo e se não aprendemos acaba-se passando por situações bem parecidas, até que o erro seja consertado. Eu sei o que devo aprender, mas é para mim tão doloroso que me foge à compreensão. Eu sei e ela sabe, e é por ela saber mais, que muitas vezes me retraí. Mas essas são histórias para outros momentos. E a única coisa que eu sei, é que uma longa viagem está para começar.  

E aí, vamos trepar?

“Eu acho que a gente deveria trepar”. Pronto, falou. Foi horrível. As últimas duas horas tinham sido dedicadas a esse momento em especial, dizer o que sentia, na verdade, aquilo que queria. Sentia seu coração prestes a sair pela boca (e não do jeito gostoso), a umidade da sua calcinha há muito tinha se tornado constrangedora e incômoda. Enquanto pensava em todas essas miudezas, ouviu lá longe uma voz:

Tá brincando né?

Brincando? Puta que pariu, brincando? O que você é, algum retardado mental que não consegue notar uma mulher se roendo de tesão? Já sei, melhor, eu sou feia, gorda, baranga e você não quer me comer. Pronto, falei. Agora foda-se tudo, foda-se a amizade e todas essas coisas bonitas. Acaba aqui,com um pedido de foda negado e uma cara na lama.

Sentiu uma mão em sua perna, despertou dos seus pensamentos. Respirou fundo, colocou a própria mão por cima e falou, sequer conseguiu ouvir a própria voz.

Não…

Ok, então vamos lá.

Terminou o relato, bebeu de um gole só todo o conteúdo do seu copo. Sentiu queimar por dentro. Porra, até whisky não está me descendo direito.

E agora vocês estão namorando?

Namorando, tá louca? A gente só trepou e foi por alguns minutos. Depois ele vestiu a roupa e foi embora, eu fiquei lá olhando pro teto. Ele saiu, depois de um tempo fui trancar a porta. E assim terminou. Não nos falamos há muito tempo.

Eu não consigo entender essas coisas.

Nossa, me desculpa se você só beijou seus namorados. Eu, coitada, sou uma putinha qualquer que abre as pernas para o primeiro que aparece. Ou para os melhores amigos, sempre achei que essa segunda opção fosse mais segura.

Ouviu a amiga rir. Como eu queria um cigarro agora…não podia fumar, a amiga tinha asma e depois não sabia do seu pequeno segredinho. Era sim, um segredo. Odiava ser vista fumando e a vez que confessou fumar, se sentiu pior. Era sempre assim. Nutria um segredinho, não aguentava com ele, confessava, se sentia pior. Voltava à estaca zero e por estaca zero queria dizer estar no quarto sozinha, fumando e se masturbando, pensando em qualquer coisa melhor. Depois vinham as músicas românticas dos anos 80. É bom fingir que se quer um amor, talvez sirva para atrair mais trepadas, você sabe, aqueles caras mais sensíveis e tímidos que querem ser heróis de qualquer buceta. Ok, ok. Olhou para o lado, enxergou os carros, as pessoas, suspirou. Era muito desconfortável, não queria perdê-lo. Mas como perder o que não temos?

Eu deveria ter me conformado com a friend zone. Sabe como é, saber dos casos amorosos dele, consolá-lo, fingir que me importo uma vez ou outra.

Você precisa aprender a se impor, a seduzir, ao invés de ficar por aí tentando o que dá na telha.

MAS EU ODEIO ESSA COISA DE SEDUZIR, PORRA!!!

Meio restaurante olhou, ela tinha se alterado, batido na mesa. Pediu mais uma dose, não, duas. Ouviu a amiga dizer para ir com calma, sua alcóolatra.

Que nada, tenho uma tia que acha o maior chiquê mulher tomar whisky.

E eu acho lindo mulher fumando, com aquelas piteiras antigas, mas nem por isso fumo ou gosto de ver você fumando. Então cancela esse pedido e pede um suco.

É foda esse poder que você tem sobre mim. Sabe o que a gente deveria fazer?

Trepar?

Isso! Todos os problemas resolvidos, a gente sai daqui, vai para o seu apartamento. Nada que uma chupada ou uma colada de velcro não resolva. Seu marido não precisa saber e seu filho ainda nem chegou do colégio. Temos o tempo perfeito, o horário dos amantes. Antes do almoço, no meio da manhã.

Você é louca.

Sou, sou. E sabe o que me dá raiva? Todo mundo adora a louca, gosta de ver, rir, pegar, mas comer que é bom ninguém quer.

Você precisa aprender a …

SEDUZIR? FAZER BEICINHO? SER A PUTINHA SAFADA QUE VOCÊ É?

Exatamente, mó bem. Não custa nada! Um jeitinho no olhar, outro para pegar as coisas, outro para sentar no carro dele, durante aquela conversa…

Sério que eu to ouvindo isso? Não, é sério!?

Claro, outro jeitinho de pegar na mão dele e olhar nos olhos, como quem se importa se o time dele ganhou ou perdeu alguma taça. Você tem mãos lindas, brinque com os dedos ao redor dos lábios, sabe você tem lábios lindos, deveria usar mais batom de vez em quando. Até eu quero beijá-los.

MAS QUE PORRA ENTÃO PORQUE VOCÊ NÃO VEM E BEIJA?!

Fala baixo! Vai apanhar desse jeito

Nossa, me bate que é fetiche.

Olha, deixa de besteira, a partir de hoje você será a minha pupila. Já te consertei tanta coisa, porque não posso consertar isso? Te ensinarei a ser uma femme fatale!

Tinha uma música. Puta que pariu, meu gato botou um ovo. Mas gato não põe ovo, puta que pariu de novo. Naquele caso, seria algo mais ou menos assim puta que pariu, minha amiga me quer para femme fatale, mas quem nasceu pra chupar pau no beco não vira femme fatale. Ah, não sejamos tão exagerados assim. Ela não era tão desprendida sexualmente que chupasse qualquer coisa, ainda mais num beco. Tudo exagero, tudo uma tentativa de colocar de lado aquela necessidade de uma conchinha pós-trepada. Perigosa, evidentemente, mas muito necessária nas noites de solidão. Enfim, a questão é que estava cansada dessas coisas, dessa necessidade de um prévio teatro. Apesar disso, ela curtia o teatro, é divertido seduzir de vez em quando. Sabe aqueles filmes antigos, o lenço cai, o cara pega o lenço e sai correndo. Ele tem o cheiro dela nas mãos e quer o resto. Ela está em um lugar escuro, como a etiqueta manda. Ele só consegue um beijo que o deixa querendo mais e mais, achou a mulher da sua vida. Uma dama nas ruas e uma vadia na cama. Ah, todos querem uma assim não é mesmo? Todos, todos. Uma mocinha que se vista bem, seja delicada e educada com os amigos. No final da noite ele quer um bom boquete e aquela trepada furiosa, sabe como é, meu time perdeu.

Vamos tomar sorvete? Sorvete de brownie… que acha?

Vamos, só assim para você se acalmar.

Não, para eu me acalmar…

E saíram rindo. É, dava para aguentar. Que me perdoem as feministas cheias de dedos e pouca depilação mas bom mesmo é ter o cabelo puxado e um sua putinha sussurrado no ouvido.