A cerimónia dos Oscars vai acontecer mais logo e as miúdas giras do Mashnotes voltaram a recorrer aos meus serviços como stylist, desafiando-me para vesti-las para o grande evento.

O resultado? AQUI. Há Dior, Valentino e até um “costum” Christopher Kane (oh yeah!).

Foi um prazer voltar a trabalhar convosco, Ana, Maria e Francisca! ;) <3

“I don’t even know myself at all/ I thought I would be happy by now/ The more I try to push it/ I realise – gotta let go of control/ Gotta let it happen/ It’s just a spark/ But it’s enough to keep me going” (“Last Hope”, Paramore)


Quem me conhece sabe que tenho uma apetência enorme para entrar em ciclos de depressão passivo-agressivos que só melhoraram pela primeira vez, em muitos anos, no ano passado. Foi preciso cair, estatelar-me no chão para compreender que, afinal, sou um privilegiado e, como diz a Haley Williams na “Last Hope”: “It’s not that I don’t feel the pain/ It’s just I’m not afraid of hurting anymore”.


Não querendo estabelecer um paralelismo fácil, mesmo que o esteja a fazer voluntariamente, se demorei tempo demais a ultrapassar (espero eu) a via tão fácil que é a de me enclausurar numa teia de ansiedade para a qual acho que tenho todas as respostas (não tendo), também demorei muito tempo a compreender e a assimilar verdadeiramente o valor deste álbum homónimo dos Paramore.


Quando sugeri à Ana escrever algo sobre o disco disse-lhe qualquer coisa como: “É, neste momento, o disco mais importante da minha vida”. Passe o exagero, diz tanto sobre mim e sobre o lugar mental/emocional em que me encontro agora que, quando o oiço, penso que, afinal, a frase não é, de todo, exagerada.

Foi com essa pérola pop que é a “Still Into You”, onde os riffs de guitarra seguem um fraseado incrivelmente percussivo, que comecei a dar verdadeira atenção aos Paramore. Passo a autocitar-me (momento Marcelo Rebelo de Sousa do dia?): “A interpretação de Hayley Williams é, em grande, parte, a responsável por esta canção ser tão irresistível. Porque é mesmo convincente a forma como não contém quase fisicamente tanta felicidade. A forma como se atira ao verso “I should be over all the butterflies” é incrível. E, melodicamente, é uma canção power pop infalível, com toques de Taylor Swift, o que, como é óbvio, só pode ser um elogio.”


Aliás, dos factores que me prendem a este conjunto de canções são precisamente as diversas performances da Haley Williams, que soa sempre intuitiva naquela forma de interpretar as canções com um registo tão estupidamente expressivo. É como se descesse do seu estrelato pop para tornar as suas interpretações relacionáveis com o plano terreno em que me encontro, quase como se pudesse eu mesmo cantar aquilo daquela forma.


Por outro lado, encaro muito deste álbum como uma declaração de autoconfiança (ou, pelo menos, uma tentativa de chegar até lá), mas que ainda tem bem presente toda a merda que ficou lá atrás – “We don’t talk about the past/ We don’t talk about the past now/ So, I’m writing the future/ I’m leaving a key here/ Something won’t always be missing/ You won’t always feel emptier”, ouve-se no tema final, “Future”. Simplesmente não entra em tentação de cair uma vez mais naquele ciclo vicioso.


Por exemplo, a “Ain’t It Fun” é um verdadeiro manifesto à vida solitária. “Ain’t it fun you can’t count on no one?/ Ain’t it fun living in the real world?” Acho que não existe, neste momento, canção que resuma melhor onde estou. Porque, como é óbvio, continuo a sentir a solidão e os seus efeitos nefastos diariamente. É fodido chegar a casa sempre sozinho, passar os dias de folga a vegetar em casa, a dormir, porque não tenho que fazer com quem quer que seja, planear férias por minha conta e risco, chegar sempre à Portela sem ninguém para me receber. Sempre. Mas a verdade é que já estou tão habituado a não ter de depender de uma segunda metade, a não ter de dar prestações a um outro próximo, que nem sei se realmente quero que o cenário mude. Ao longo do ano passado interiorizei com maior pacifismo esta realidade. Daí que lamuriar-me sem um fim à vista não seja uma opção, porque há pessoas que estão realmente lixadas neste país/mundo. Eu não sou uma delas. “Don’t go crying to your mama when you’re on your own in the real world”, já diz a Haley. Ela quase que serve como a minha nova terapeuta, entregando-me de mão beijada estes mantras. Como, por exemplo, chegar à “Anklebiters” e cantar de peito aberto: “Fall in love with yourself/ Because someday you’re gonna be/ The only one you’ve got/ Why you wanna please the world/ And leave yourself to drop dead?/ Someday you’re gonna be/ The only one you got”.


No fundo, “some of us have to grow up sometime” (em “Grow Up”). Mesmo que mentalizar-me disso sempre me tenha custado muito (aquelas três vezes seguidas que fui ao cinema sozinho ver o Toy Story 3 e chorar sempre desalmadamente é só uma manifestação dessa dificuldade), mas há momentos em que se leva com uma chapada de realidade, porque há quem precise mais de mim do que poderia supôr.


Claro que além de tudo o que já escrevi e de como me relaciono com estas canções, este Paramore, o álbum, é mesmo das melhores coisas que ouvi nos últimos tempos. Desde logo um disco de rock para massas excelentemente bem produzido, dando-se pequenas reviravoltas nas canções que lhes dão uma vida ainda maior. Depois há o impacto emocional, tão incrivelmente calibrado, mas nunca perdendo o seu poder instintivo, que cada canção carrega. Concluo com uma das obras primas que aqui se ouvem, “Proof”, que é notável como expressa de forma decomplexada o júbilo de uma relação, mas partindo de uma posição de força e independência (“Baby, if I’m half the man I say I am/ If I’m half the woman with no fear/ Just like I claim I am/ There’s nothing left for you to do/ The only proof that I need is you”), além de levar as características guitarras emo pop que sempre definiram o som dos Paramore para um balanço quase reggae delicioso que é o fundo perfeito para a vontade de esperança e confiança que este disco transborda.

Se gostaram de antigos posts meus, como este (ou este), cliquem aqui e vejam a minha primeira colaboração com o Mashnotes (um dos sites mais fixes escritos em português e em Portugal, acreditem).

Basicamente, voltei a armar-me em stylist e, desta vez, “vesti” a Ana, a Francisca e a Maria. Não sabem de quem estou a falar?! Tenho pena de vocês. Não sabem o que estão a perder…

(Obrigado pelas palavras simpáticas, miúdas. <3 Foi um prazer trabalhar convosco!)

Quando perguntado sobre um autor de banda desenhada que considere “idiossincrático”, “acessível”, “imprescindível para toda a minha geração”, a minha escolha costuma recair no australiano Simon Hanselmann. Conheço o trabalho dele há um par de anos, e ver novidades semanais nas webpáginas da Vice americana ainda me põe um sorriso na boca (ou lágrima no olho, ou azia no estômago — já lá vamos). Este mês a Fantagraphics publica o mono Megahex, que tal como o telemóvel e o iogurte grego, precisa de existir aos pares em cada casa, mínimo.
I really don’t care that much about ‘Beauties.’ What I really like are Talkers. To me, good talkers are beautiful because good talk is what I love… . Talkers are doing something. Beauties are being something. Which isn’t necessarily bad, it’s just that I don’t know what it is they’re being. It’s more fun to be with people who are doing things.
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