CARTA DE MARILENE - ANEXO DA PERÍCIA - parte 3

por Andrada Sín


Falei “pela manhã” como se já houvesse passado um longo tempo. Nada. Foi agora mesmo que aconteceu de eu ver a menina e daí corri para chegar na hora no serviço - não adiantou nada pois cheguei atrasada por conta do ônibus… E também por obra do Nosso Senhor! Se eu tivesse chegado antes teria tido o mesmo destino dos meus patrões.

Peguei o elevador, abri a porta da cozinha com a minha chave e logo percebi que alguma coisa estranha estava acontecendo, havia muito barulho. Eu pensei: ou estão fazendo uma festa com amigos imaginários ou são bandidos que invadiram a casa. Meu pensamento foi interrompido por um voz familiar pedindo “por favor, não me matem”. Era a voz chorosa da Dona Florreis, certo que o patrãozinho já havia sido morto.

Meu sangue acho que naquela hora parou de circular e eu caí sem forças no chão fazendo um barulho provavelmente fatal. O barulho do assassinato era tão alto que não ouviram minha queda. Porém, prevenida como sou, preferi me ajoelhar no chão e tentar me esconder em um lugar seguro. 

CARTA DE MARILENE - ANEXO DA PERÍCIA - parte 4

por Andrada Sín


Ajoelhada, arrastei-me até o cômodo mais próximo. Estava trancado o escritório do Doutor Lizberto. O patrãozinho mantinha o escritório trancado porque era muito perfeccionista e não gostava que mexessem em suas coisas – era o que ele falava. Eu já havia entrado lá várias vezes durante os tempos em que eles estavam de viagem e não vi nada demais.  Só tinha um armário que era muito protegido e trancado com uma corrente ao seu redor e eu, por isso, nem consegui mexer, mas acho que nada de grande valor ou de importância estava guardado lá dentro.

O meu achismo hoje virou certeza, estou escondida no armário agora. Primeiro, eu já tinha uma cópia da chave do escritório – havia feito às escondidas para poder entrar quando quisesse e passar um tempo (ou dar uns amassos no patrão, tudo começou quando eu entrei no escritório e ele estava lá). Assim, eu entrei facilmente, só demorou um pouco por conta da tremulação das mãos. Entrei e tranquei a porta novamente. Meu coração veio parar na boca quando eu girei a chave e o estalo se destacou num momento de silêncio dos bandidos.

(L-R) Princess Marilene of The Netherlands, Prince Maurits of The Netherlands, Prince Bernhard of The Netherlands, Princess Annette of The Netherlands, Princess Margriet of The Netherlands, Pieter van Vollenhoven, Prince Pieter-Christiaan of The Netherlands, Princess Anita of The Netherlands, Princess Aimée of The Netherlands and Prince Floris, 2007.

CARTA DE MARILENE - ANEXO DA PERÍCIA - parte 2

por Andrada Sín


Podia ser os passos da pequena Juliana que, apesar de não ser mais a minha pequena, podia vir me salvar. Mas que ideia! Lá da Europa ela não faz menor ideia do terror que estamos passando aqui. Talvez nem queira mesmo, aquela ingrata. Como pôde sumir dessa forma?

Não, não! Agora eu me lembro de ter visto uma pessoa muito parecida com a Ju pela manhã! Meu Santo Cristo, há uma esperança dela voltar e eu ser salva. Eu gritei, gritei por Juliana, mas com aqueles enormes óculos escuros posso ter me enganado.

Mas pra que serviria ser salva? Estaria morta de qualquer forma. Aliás, já me mataram. Dona Florreis toda ensanguentada e com o corpo mutilado como fazem os açougueiros com os animais no matadouro me deixou sem esperança de qualquer futuro. Senhor Lizberto… Nem tive coragem para ver, mas sei que lá estava na mesma situação - na cama ao lado de sua eterna amada (sem esquecer que já traiu duas vezes a patroa com a mesma jovem mulher - eu).

Como tudo isso foi acontecer? Sempre tão discretos, poucos amigos, ótimas pessoas - apesar de me mandarem lustrar os móveis umas trinta vezes ao dia… Deve haver um motivo, uma razão para essa desgraça! 

Pior será se morrermos todos em vão! Imagine! Moleques de rua, drogados, não tem nada a perder, invadem a casa e matam por pura diversão. A manchete no jornal será: Mortos por nada! Meu Deus, que haja motivos. Sim, mais de um, porque seremos três cadáveres.

Espero que quem me matar esteja consciente ao menos. Essa porcaria de droga! Quem inventou isso? Devem ter sido os riquinhos que nada tinham pra fazer, cagando dinheiro, foram criar esse mal. Ou foram os desocupados dos químicos?… Sempre os químicos! Odeio química desde o colegial. Não devem estar drogados esses malucos, entraram sem serem vistos parece que foi tudo planejado.

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