marcelo mirisola

Uma vez perguntaram a Barthes se a maneira pela qual ele interpretava as entrelinhas não era - per se - uma subversão no mais alto grau. E ele deu uma resposta devastadora. Eu acredito que não dá para atravessar a rua sem levar isso em consideração.

Vejam só: “Seria muito pretensioso da minha parte pensar que sou um subversivo. Mas diria que etimologicamente sim, tento subverter. Quer dizer, tento vir por debaixo de um conformismo, de uma forma de pensar que existe e deslocá-la um pouco. Não se trata de revolucionar, mas de trapacear um pouco. Aligeirá-las. Torná-las mais móveis. Fazer ouvir uma dúvida. E portanto, de abalar sempre o pretenso natural, a coisa instalada”.

Brecão assinaria embaixo. Roland Barthes sabia tirar uma onda da cara dos otários. “Aligeirava” as coisas de acordo com sua conveniência. Se o autor de Mitologias trapaceava sem pudor por que eu não posso singelamente cometer umas mentiras para dizer a verdade (e vice-versa)? Acho que a resposta de Barthes vai ser útil para quem, um dia, pensou em chegar nalgum lugar menos enfadonho do que uma minibiografia encomendada por uma revista da Unicamp. Por isso que comecei a escrever essas memórias. O engraçado é que a revista foi abortada, e eu - que achei que minha memória, depois d’O azul do filho morto, não valia um pão de queijo e um cafezinho - ganhei esse livro. Obrigado Ricardinho.

Mas a questão é: onde fui amarrar meu jegue? Sou um cara chatinho, reconheço. Mas odeio a companhia desses merdas metidos a escritores. Além de chatos, parece que se dedicam festivamente à chatice. Isso que me dá nojo. Esses vermes carentes se reúnem em saraus, confrarias, academias, editais suspeitíssimos, piqueniques e na Petrobrás que os pariu. Que porra é essa? Se fosse para cantar a musiquinha do little índio dentro do ônibus,eu não seria escritor, mas me candidataria a uma vaga na Apae ou no Rotary Clube de Mogi Guaçu, terra natal da Marisete, a biscatona. Oportunidade para isso não me faltou.

Admiro aqueles que se isolam.


Charque de Marcelo Mirisola, páginas 66-67-68

Manuscritos de Alexandria 3

Marcelo Mirisola

HOSANA POLUÍDA
( trecho inédito )


(…)  fazia quase um ano que ela disse que o nosso beijo não precisava de explicação / que a língua da gente lambia como se fosse casada/ éramos eu, ela, o corno e a  sogra com cara de Bulldog.   

 Inveja do corno. Da festa de aniversário. A felicidade por metro quadrado/ fotografada no almoço de domingo:  ele, minha amante e a nossa sogra com cara de bulldog. Inveja da vida doméstica de Ariela. Hoje, tenho a lembrança da carne da mulher que eu dividia com ele/ que eu amava/ ela que se escondia da gente/ ao meu lado.

Se o inferno possuía gônadas, é de lá que jorrava minha porra naqueles dias. Ela pedia pra gozar na cara. Aquilo respingava nas orelhas do corno e hidratava as pelancas da sogra com cara de Bulldog. Se bobear atingia o filhinho que jogava video-game lá em Guarulhos. O olho direito colado de porra. O outro esbugalhado de adultério e sangue sorria para mim, e dizia que jamais eu seria feliz.

 Uma noite, era junho. Além do porre de Ariela, tínhamos o agravante do dia seguinte: festa junina na escola do filho. Se ela não chegasse antes de o garoto acordar, a sogra com cara de Bulldog lhe arrancaria as vísceras.  A única chance era ir de táxi.

Ariela, mãe, entrou em estado de choque. Eu poderia tê-la embarcado no táxi, e voltado para casa. Repetiria a hosana poluída das outras vezes, mas dessa vez resolvi subir no carro e acompanhá-la até Guarulhos.  Ariela deitou no meu colo, parecia uma criança adúltera - como se isso fosse possível. Seguimos. Um pouco depois que o táxi fez o contorno no Center Norte, logo que entramos na Marginal, ela abriu a mochila. Sim, era possível. De dentro da mochila, sacou um prendedor de cabelo e uma canetinha esferográfica. Pediu um beijo, e desenhou um coração avacalhado no meu antebraço - para logo em seguida rabiscar um caralho dentro desse coração. Eu fingi que não dei bola, olhava a cidade pela janela do táxi. Uma mistura de laranja-fanho com cinza. O sol tentava nascer, mas a poluição gorda e a neblina que subia do Tietê, o sufocavam. Vislumbrei os arames farpados de um presídio do Alckimin, logo a direita. Ariela abraçava a mochila com força, e chorava baixinho. Duvido que algum ser-humano tenha vivido uma experiência mais bonita do que essa.  Pelo menos na Marginal do Tietê, a caminho de Guarulhos, acho muito difícil alguém ter experimentado algo parecido.
 
                                                         ****

1. Tinha alguma coisa de ruim com o cachorro de focinho comprido.
2. O corno já havia se inteirado da traição.

Ele a espancava e me ameaçava com a felicidade fotografada ao lado de Ariela, os dois abraçados no salão de festas do condomínio. Ariela era um doberman. E o bicho se acoplava ao dorso sinuoso da adúltera. Ela rosnava e recebia as estocadas com raiva, algo - bom sublinhar aqui - muito diferente de submissão. Um doberman. Não era apenas raiva. Mas um amor cheio de vingança e demência, e sobretudo culpa. Não, não se tratava de uma cadela. Ela era cão. Um cão que olhava para mim e desfigurava o rosto da mulher que se entregava de quatro e voltava-se contra si mesma.

Eu apenas estava lá atrás. A cobria. Acertava uns tapas protocolares em sua bunda e assistia de muito longe aquele espetáculo de horror, desespero e tesão, quase alheio. Como alguém que assiste uma luta sangrenta no octógono e não consegue mudar o canal de televisão, como alguém que inveja a felicidade do corno numa festa de aniversário, como o cara que não tem vocação para ser amante.  Perplexo. Capado. Eu podia ser qualquer outro  a enrabá-la desde que dividisse com ela o espaço no canil. Diferentemente de Ariela, eu não era tão cristão a ponto de sentir tesão na culpa, embora me esforçasse. Queria amá-la, como se isso fosse possível…como se o amor  pudesse me redimir da minha condição de cão, e me fizesse menos animal do que ela.

 —- Cadê meu diamante?
 —- Foi pro lixo, Ariela. Feito nosso amor.



Marcelo Mirisola é autor de contos, crônicas e romances. Publicou, entre outros títulos, O heroi devolvido e O azul do filho morto (ambos de 2000), Joana a contragosto (2005), Proibidão (2008), Memórias da sauna finlandesa (2009) e Charque (2011).

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Em ‘Joana a Contragosto’, Mirisola conta a história de um escritor famoso, que recebe uma mensagem de uma fã. Uma mulher belíssima, que adora sua literatura. Os dois passam a trocar emails que se tornam cada vez mais ousados - Joana passa a enviar fotos de partes de seu corpo, até as mais íntimas. O escritor, intrigado, marca um encontro com a mulher em um hotel no bairro do Flamengo, Rio de Janeiro.

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Festa tem debate com intelectuais regado a uísque

do Guia Folha

A festa Cabaret Revoltaire, que mistura performances artísticas variadas com balada, ganha na edição desta terça-feira (13) o “5 contra 1”, em que escritores, desenhistas, estudiosos de cabala, músicos e outros artistas debatem sobre algum tema enquanto “enfrentam” uma garrafa de uísque. Na estreia, estarão presentes o cartunista da Folha Caco Galhardo e os escritores Luiz Roberto Guedes, Márcio Américo (mediador da vez) e Marcelo Mirisola, idealizador do debate informal.

A ideia, segundo Mirisola, já existia há algum tempo: “Quando fui na edição passada da festa (Cabaret Revoltaire) vi que ali tinha um cantinho que seria perfeito, falei com a Isadora Krieger [criadora da festa com Daniel Minchoni] e ela topou”. O tema de discussão é livre e deve partir de algum assunto proposto pelo mediador, Márcio Américo. “Eu não sei bem o que vai acontecer, a gente vai chegar lá, beber uma garrafa de uísque e conversar. Uns amigos meus irão gravar e devemos postar depois em algum lugar. Eu ainda não sei. Amanhã será uma espécie de programa piloto”, disse Mirisola.

Caco Galhardo, que já comandou ao lado do escritor Reinaldo Moraes e da produtora Ana Pands o podcast “Fogo no rádio”, em que os três mais um convidado discorriam sobre um determinado tema enquanto bebiam, disse também não saber ao certo o que vai acontecer: “Tem vários escritores, e a conversa deve girar em torno de literatura, mas será descontraído e feito na base do improviso”. Para Galhardo, os melhores lugares para “boemia intelectual” são Mercearia São Pedro e a praça Roosevelt.

Além do “5 contra 1”, a noite terá também os poetas Renan Nuernberger e Pedro Tostes, a dançarina Karina Raquel, também conhecida como Fascinatrix, o artista plástico Maurício Eloy, a cantora Érica Alves, que se apresentará junto do DJ Pedro Zopelar e do marionetista e ator Rafael Liedens. Para encerrar a noite, Isadora Krieger e Gláucia ++ assumem os pick-ups com tango, bolero, samba, MPB e rock.

A Cabaret Revoltaire ocorre quinzenalmente no Beat Club (centro de São Paulo), a partir das 21h. Até as 23h, a entrada é gratuita –após esse horário, será cobrado R$ 10 (entrada) ou R$ 20 (consumação).