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Madeus e Mancha Negra #2

Mancha Negra tinha uma respiração pesada enquanto dormia. Encolhido junto ao peito de Madeus, era possível o mais velho sentir o tórax dele subindo e descendo lentamente e ouvir os gemidos tímidos que ele soltava de vez em quando. Mancha Negra estava sonhando, Madeus sabia disso. O que queria saber era com o quê. Estaria a raposa num sonho mágico e agradável, no seu mundinho pessoal de campos abertos cheios de pequenas colinas verdes onde o vento bate fresco? Ou estaria tendo um terrível pesadelo, daqueles que dá vida aos nossos piores medos? O verdadeiro mistério era saber do que Mancha Negra tinha medo.

Talvez fantasmas… Não, Mancha Negra não tinha medo deles. Os respeitava, convivia com eles todos os dias e os adorava. Costuma dizer que aprende coisas com eles.

E os outros animais? Também não, ele não os temia, somente os desprezava. Achava-os imbecis e gostava de dizer isso a eles. Estúpidos como gente fútil, aquelas que nada tem a acrescentar em nossa vida. Quando irritado, Mancha Negra desejava-lhes a morte.

Ora, Madeus disse a si mesmo, o maior medo dele é estar longe de mim. Meu servo, meu amante, meu amado.

Mancha Negra puxou a camisa de Madeus com os dedos finos e aninhou as pernas mais perto de Madeus. Este apertou o braço da poltrona onde estavam, Mancha Negra no colo de seu mestre, apertando seu corpo contra o dele. O mais novo gemeu baixo e abriu os olhos amendoados devagar. Estavam cheios de tristeza, mas quando o olhar ganhou foco, suas pupilas tremeram de alívio. Os braços leves e graciosos antes junto ao corpo, agora envolviam o pescoço de Madeus. A raposa aconchegou o rosto no ombro de Madeus e deixou que este tocasse seus cabelos. O cheiro de Mancha Negra era muito bom.

Madeus e Mancha Negra #1

A noite caiu rapidamente, e logo todas as ruas eram iluminadas pelas velas e abóboras acesas nos quintais gramados. As ruas eram aos poucos tomadas por crianças fantasiadas e jovens em grupos de amigos. Vozes tagarelavam por todas as partes enquanto o ar festivo enchia o pulmão de todos de alegria. Estavam muito animados pela longa noite que tinham pela frente.

Em uma esquina qualquer, uma jovem garota, que devia ter seus dezesseis anos vestia um longo vestido branco de várias camadas cortadas e recortadas. Seus longos cabelos brancos quase prateados balançavam ao vento suave. Ela cantava uma canção de comemoração de halloween, e sua voz era linda. Algumas pessoas paravam para ouvi-la.

Um silvo baixo soou, ninguém percebeu além dela. A jovem curvou-se agradecendo pelas palmas e levantou ligeiramente o vestido, deixando aparecer os saltos brancos, para que pudesse subir na calçada e pudesse andar direito. Começou andando rapidamente, para então começar a correr. Correu e correu, metendo-se em ruas vazias e estreitas. A maquiagem de seus olhos borrou quando ela chorou ruidosamente enquanto fugia como se alguém estivesse atrás dela.

Finalmente tropeçou em uma barra de metal abandonada e caiu de bruços no chão, chorando. Sentou-se no chão e olhou para trás. Estava numa praça deserta, mas não sozinha. As duas sombras se aproximaram dela lentamente, e ela tentou inutilmente arrastar-se para trás.

- Não faça assim, princesinha – uma voz forte, porém suave soou quando um homem de cabelos castanhos e finos saiu das sombras, suas roupas antigas eram quase coloniais. – Se você chorar, vou me sentir malvado por ter que te levar.

- Por favor – ela choramingou, as mãos juntas em reza. – Eu lhes imploro, só mais um ano!

- Nós já te deixamos vagar muito tempo entre os vivos, Elizabeth, agora você deve ir – o outro rapaz, visivelmente mais novo, de cabelos ruivos e cheios apareceu, as feições femininas acentuadas pela leve iluminação do lugar. – Madeus, faça logo.

- O que é toda essa pressa, Mancha Negra? – o homem sorriu de canto. – Você quer ir pedir doces também?

O ruivo soltou um grunhido irritado e bateu o salto alto no chão úmido duas vezes, mostrando a insatisfação. Apontou para a garota caída no chão e mandou que Madeus se apressasse, pois ele não tinha a noite inteira. Tinha planos para aquela noite, planos esses que incluíam Madeus bem junto de si, e sem mais ninguém – e nenhum fantasma chorão iria afastá-lo de seus planos.

Um gato preto chiou quando Madeus puxou os cabelos brancos da fantasma para trás, para que pudesse vislumbrar aquele rosto desesperado de medo. Mancha Negra arrastou-se para trás de Madeus e abraçou a cintura do homem, olhando para a fantasma por cima do ombro do outro. Ah, como Madeus amava aquela raposinha ruiva e seu jogo infantil de sedução!

Madeus levantou a faca prateada incrustada de pedras e tocou a lâmina fria no pescoço da jovem menina.

E ela se foi.