joaoamaral

Cheguei em meu patético período doentio. O fato é: não sei ser mais. Ou sou demais, mas por fim, não sou nada. Cheguei em minha época de metamorfose, minha época de ser apenas resto jogado de lado. E o pior de tudo: meus dias de filho da puta chegaram. Não me considero uma pessoa ruim, aliás, não consigo andar na rua sem desprezar nove de cada dez pessoas que vejo. Eles são uns babacas. E me dizem que ninguém é melhor do que ninguém… Mas eu não sou um verme, um abutre. Eu nunca vesti fantasia nenhuma pra agradar a ninguém, e é isso que me incomoda, o baile de máscaras que é a minha vida. E é exatamente isso que agrava toda essa minha imbecilidade, todo meu sentimentalismo. E foi esse o motivo desencadeador de meu congelamento interno. Ao longo do tempo, o que é que poderia restar pra mim? É como em uma das obras de Charles Bukowski: “Caí em meu patético período de desligamento. (…) Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali.” Foi exatamente isso que me restou: sumir. Antes que eu me transforme em um desses monstros ou faça alguma merda.
Bem, meu amor, te peço desculpas de novo, meu exagero deve estar te nocauteando… Desculpa essa minha mania de aumentar tudo, ou deixar mais transparente, talvez. Desculpa toda essa sede maldita de profundidade, mas, eu gosto assim, meu amor. Eu gosto de me afundar, me afogar, morrer em mim mesmo. Não gosto dessas piscininhas rasas, gosto dessas lagoas fundas, que me proporcionam algum perigo. Quero sentir até rasgar tudo aqui dentro, até me engasgar. Quero te sentir e sentir esse amor até a última gota. Não me contento em ficar um pouquinho embriagado, tendo um pouquinho de alucinações ou falando um pouquinho de besteiras. Quero mesmo é parar numa cama de hospital, em coma alcoolico, de você, meu amor. Quero minha felicidade inteira, quando vem pela metade ou morna demais eu sinto falta da minha tristeza, ela costuma ser mais profunda. Até minhas tristezas são bem vindas quando não mornas, então, quero você bem quente, fervendo, se puder, meu amor. Quero de preferência perder toda essa minha sanidade, quero ficar louco, enlouquecer de amor, já me disseram que os loucos vivem melhor. Eu quero tudo que tiver direito, quero intensidade, quero até te transformar em ar, pra que eu possa respirar somente você.
—  João Amaral (desertofrio)
Desculpa toda essa sede maldita de profundidade, mas, eu gosto assim, meu amor. Eu gosto de me afundar, me afogar, morrer em mim mesmo. Não gosto dessas piscininhas rasas, gosto dessas lagoas fundas, que me proporcionam algum perigo.
—  João Amaral (via desertofrio)

Às vezes até bate uma pontinha de felicidade por ter aprendido de vez, digo, por finalmente ter deixado de ser besta! Me sinto até malandro, cá entre nós, creio de vez em quando estar mais experiente e saber lidar melhor com algumas situações… e nos meus picos de idiotice extrema penso até saber algo sobre a vida ou ter aprendido algo sobre a mesma. Mas realmente me sinto mais como um pássaro por não estar mais tão dependente e até por agora poder suportar melhor as várias idas e vindas que ocorrem nessa minha vidinha. Sabe, consigo até sentir a brisa no meu rosto e esse prazerzinho que a liberdade me causa. Eu fico verdadeiramente satisfeito com as mudanças, por estar mais forte e finalmente ter deixado de ser uma criança que só reclama de como a vida tem sido dura e injusta, mesmo sabendo que eu não mudei nem um pouco. Digo que agora aguento essas pancadas nas costas mas não aguento coisa nenhuma! Continuo o mesmo, qualquer alfinetada no peito já me sai como uma verdadeira facada. E também não abandonei meu dramas mexicanos, óbvio. Quando acontece, reajo da mesma forma, fico surpreendido, mesmo que já esperasse… e depois fico mal, esperneio, reclamo, bato perna… Mudei coisa nenhuma, continuo tomando cada rasteira braba dessa vida… apenas me permito acreditar em algumas mentiras que conto pra mim mesmo. Tô preferindo me iludir sozinho e fingir que tô mais forte. Ainda digo que cresci.

João Amaral (via desertofrio)

Eu escrevo como se fosse procurar um abrigo. Escrevo para desabafar e confessar. Escrevo pra aliviar as dores e, ao mesmo tempo, cutucar uma a uma. Escrevo para tampar o buraco desse vazio que eu carrego. Eu escrevo pra refletir e imaginar, criando mundos dentro de minha mente que se assemelha a uma galáxia repleta de buracos-negros. Quando a boca não fala e os olhos encontram o chão, eu escrevo para me desculpar, em busca de uma auto-redenção. Escrevo para sorrir e chorar. Escrevo para iludir a mim mesmo e perder toda essa minha lucidez, gota por gota. Escrevo planos e sonhos. Alegrias e amores. Mistérios e horrores. Eu escrevo pra buscar uma fuga momentânea de uma realidade complexa. Escrevo para, quem sabe, me achar no meio desse oceano de palavras que traduzem alma, mente e coração.

Sérgio Thomaz (PensamentosDesconexos) e João Amaral (desertofrio)

Nunca retire essa rosa dos cabelos, amor

Ontem você apareceu em meus sonhos, Alice. Só que foi tudo acordado, e, amor, esses atrasos de vida ainda me assustam. Como é que eu fico depois de colocar os pés no chão? Com que cara eu me apresento pros demais depois dessa loucura toda? Não é fácil, meu bem; depois de dançar durante duas horas em outros universos contigo, pisar em terra firme é apavorante demais. Não parece, mas eu tenho uma vida que corre rápido demais fora do nosso mundo. E o tempo não para pra mim, as pessoas correm nas ruas e eu fico parado, meu bem.  A vida não colabora conosco, ela não dá trégua a ninguém. 

            Mas, Alice, tenho de te dizer… parecia tudo tão fácil! Pela primeira vez eu senti uma força nos reerguendo. Pela primeira vez eu observei esforços para nos salvar, além dos meus. Pela primeira vez o mundo não parecia estar contra nós, eu não sentia nada nos puxando pro fundo do poço. Como é que foram nos socorrer assim, hein, meu amor? Alice, eu ainda não acredito que forças divinas estão do nosso lado… Será que essa coisa de destino existe mesmo e está junto com a gente? É um absurdo pensar que os astros estão orando por nós? Porque hoje eu liguei o rádio e a previsão do dia era praticamente nossa, era a gente ali, dando certo, finalmente.

            Amor, até nossa música tocava, e você bailava de um jeito lindo. Te ver dançando daquele jeito foi uma das coisas mais revigorantes que eu senti na vida. E teu olhar pra mim com o nariz todo empinado era como se eu visse minha vida inteira sendo desenhada. Eu sabia que você tinha voltado a bailar, não era possível. Você andava tão leve de corpo e alma. Isso sempre te fez bem. E, Alice, qual é o jeito mais bonito que eu tenho de pôr uma rosa em teus cabelos? E qual é o jeito mais bonito que você tem de aceitar meu galanteio?

            E, Alice, é estupidez demais comparar tua pele clara e lisa com uma rosa branca? É ilusão demais imaginar que teus olhos são um pedaço do mar? Não é possível que seja tudo invenção barata, e não é mesmo. Você é assim, e sempre foi. Você nunca foi de fácil entendimento e sempre foi uma verdadeira imensidão. É por isso que, volta e meia, eu fico te comparando a um oceano inteiro. E não é à toa que sempre me afogo em você, meu bem. Mas ontem parecia que finalmente eu sabia mergulhar em ti, ir fundo. Tudo tinha mudado drasticamente, de uma hora pra outra. Nosso amor parecia veneno raro e antidoto infalível. 

            Nunca mais retire essa rosa dos cabelos, Alice, nunca mais… Tem coisa rara nessa flor. Os espinhos são pontiagudos demais e as pétalas são recheadas de veneno fatal, que nem suas entrelinhas, amor.

(João Amaral)

Depois comecei a entender até aquela fumaceira toda que aquele pessoal da esquina tragava. Ou todas aquelas pessoas bêbadas que eu já havia visto em festas. Afinal, o gosto nem é tão bom e todo mundo sempre diz que faz mal. Só depois comecei a entender que toda aquela cachaça barata e todo aquele uísque vagabundo tinha um efeito tão bom. Pelo menos parecia melhor que estar bêbado de amor. E todos os problemas e dores pareciam sumir por um tempo. Pode parecer fraqueza, mas até aprendi a me entregar pra essa falsa felicidade, pra esse falso alívio. Aliás, ultimamente tenho me entregado pra tudo, quando a tristeza chega nem faço cerimônias, o café já tá na mesa e já dou logo um espaço pra ela se alojar. Hoje quero mesmo é ficar esparramado no chão do quarto escutando umas músicas que me deixem pior ainda. Hoje tô sentindo falta do meu uísque vagabundo, das minhas doses de ilusão e de tragar velhas lembranças.

João Amaral (desertofrio)

Mas não posso arriscar te contar a ninguém, vai que outros cheiros te encantam, vai que outras vozes têm entonação mais doce, e vai que elas recitam mais poemas que a minha. Vai que você se encontra. E se encontrar é o fim, Clarisse, não há mais o que fazer em vida depois que se encontra.
—  João Amaral (via desertofrio)
Eu sou um verdadeiro mentiroso, amor. Eu sou um puta cretino. Sinceramente, eu não presto. Já tentei listar o que de pior habitava em mim, mas não consegui. Creio que o que mais incomoda seja a necessidade maldita que eu tenho de andar camuflado e as várias mutações que me ocorrem todos os dias. Mas o gozado de tudo é que não faço por mal. Meu problema é a necessidade de ser mais leve. Nada comigo é meio termo. Eu não saio na rua sem minha armadura, mas quando a tiro, o que eu sou? Não passo de um qualquer boçal desprotegido. Eu desejei ser um pouco mais frio e acabei congelando permanentemente. E agora? O que eu faço? Tenho certeza de que o jeito frio que eu quis implantar em mim afastou muita gente. E quando estou nos meus setenta gruas, quem é que me salva? Não dá pra viver sempre em extremos. Quem é que vai me socorrer? Quem vai estender a mão pra mim? Amor, eu olho pros céus todos os dias com a esperança de ser mais leve, de me ajustarem. Eu sou estrondoso demais. Eu sou perigoso demais, até pra mim. Eu não sei causar arranhões. Eu só causo desastres, feridas graves e vários mortos. Até eu já me matei algumas vezes, mas sai sempre ileso depois. O problema dos meus suicídios está nas outras pessoas, e é isso que me incomoda. Acontece o que eu sempre temo: eu firo as pessoas, tudo por causa das minhas manias de dilaceração. É muito capricho idiota pra uma pessoa só, amor, isso é mesquinharia demais. Isso é auto-destruição estúpida. Qual o sentido disso? Eu só vou perdendo o pouco da cor que eu tinha pra fumar uns cigarros e me ver em preto e branco, jogado num buraco sem fim. E o pior: isso tudo pelo prazer de me sentir menos humano que os demais. Isso tudo pra poder fazer drama depois e me sentir um pouco criminoso. Esse veneno todo só pra pedir salvação depois. Mas dessa vez ninguém me salva. Quem é que vai saber da guerra que acontece dentro de mim? Nem eu sei. Mas também não pretendo me salvar. Viver em guerra parece tudo que eu preciso.
Eu digo e repito: preferi mergulhar num mar de melancolia. Ora, veja bem, conhece alguém com mais queda pra artista que eu? Eu adoro um drama! Eu dramatizo tudo a minha volta, isso não seria diferente, amor. Eu vejo uma rolinha um pouco mais clara e digo que vi uma águia colorida na janela… e ainda digo que ela falava! Não me contentarei em viver na mais tranquila ou brutal realidade. Não me sujeito a isso, não mesmo. Eu sou quase um diretor de cinema, e creio que um diretor de cinema não abandonaria suas maiores obras. E, no caso, ilusões e fantasias são as minhas. E enganar, mentir e titubear faz parte do meu roteiro. Entende, não abandonarei meus artifícios, eu não me abandonarei. Eu não sei viver de outro jeito, não aprendi a ser, senão for assim.
Alice, nosso enterro será amanhã, às seis.

            Amor, eu cai de um abismo ontem. E não senti nada, não quebrei costela alguma, meus ossos intactos, minha alma suja não foi embora, nada aconteceu. Não senti teu cheiro me perfurando por dentro, não senti teu calor me envolvendo. Não foi assustador. E é isso que me preocupa. Eu não consigo mais inventar o que não sei sentir. É duro demais fingir que nada acontece. Eu sou fraco, meu bem. E você é pesada demais, intensa demais. Nos manter vivos é praticamente suicídio. Nós morremos, Alice. 

            Não existe mais nada. Não existe mais luz no fim do túnel, não existem mais estrelas no céu. O céu não é colorido, não mais. Não tenho seus lábios vermelhos e seu cabelos longos e pretos. Não sinto mais sua pele fervente queimar minha pele. Só me sobraram olhos negros e agoniantes. Quem consegue enxergar no fundo das minha pupilas pode sentir a dor que eu carrego. Só me restou seu olhar de quem espera por um funeral. Onde é que a gente foi parar, Alice? Onde é que nossas almas imundas se encontram? Em que buraco nosso desejo por eternidade foi parar?…

            Essa manhã acordei com uma gralha na janela. Foi a pior sensação que eu já senti. Não sinto mais medo de dormir. Não sinto mais pavor pelos demônios que me rondavam. Minhas noites são tranquilas. Eu não sangro mais. Não me arranco pedaços. É agoniante demais morrer um pouco a cada dia. Tudo desmoronava a minha volta, ou parecia desmoronar. Eu desmontava… Eu me via no chão. Um sino tocou, Alice. Depois de uns dois minutos olhei pra janela e a bela gralha negra me lançou o olhar mais maléfico que senti até hoje. Seus olhos ficaram dourados, então virou sua cabeça e voou. Aconteceu. Eu estava morrendo em mim mesmo. Era como o suicídio mais estúpido já inventado na história. Alice, cometi meu homicídio mais cruel. Fui assassinando qualquer vestígio teu que existia dentro de mim. Meu coração parou. Eu não tinha mais alma.

            Eu nunca pensei muito em como seria a morte, mas não imaginava que fosse desse jeito. Pensei que fosse mais cruel. Pensei que cairia num buraco negro, segurando tuas mãos. Só nos resta esperar que nosso padre nos eternize. A morte. Alice, nosso enterro já é amanhã, às seis.

(João Amaral)

Alice: minha pequena mulher com olhos cor de fogo.

            Durante todos esses anos venho enfrentado meu maior inimigo: minha própria solidão. Passei boa parte da minha vida tentando encontrar alguém que aguentasse viver em mim, permanentemente, mas nunca encontrei alguém que conseguisse suportar carregar a vida nas costas junto comigo. Ninguém nunca soube como mergulhar em mim. Ninguém nunca tentou. Quando criavam coragem, coitadas, afundavam… Morriam dentro de mim. Deve ser por isso que a vida é tão desgastante e cruel comigo. Deve ser por isso que sentir dói tanto: sinto por umas dez pessoas. E sinto o peso de umas vinte.

            O fato é: nunca ninguém se mostrou disposta a viver ilhada. Ninguém nunca aguentou viver na ilha deserta que eu sou. Ninguém nunca foi capaz de aguentar ficar debaixo d'água pelo menos uma vez por semana. Descobri algumas coisas nessa vida, mas a mais importante foi que o ser humano tem medo de tirar o pé do chão. O ser humano não consegue e não tenta viver se não for em terra firme. O ser humano não tenta voar por conta própria. Como é que ninguém tenta viver debaixo d'água? E é por isso que eu digo com orgulho: não sou completamente humano. Talvez eu já tenha sido, mas deixei de ser.

            Também nunca consegui encontrar alguém que fosse capaz de gostar dos meus olhos de tonto sonhador. Muito menos alguém que conseguisse decifrar os olhos fúnebres que eu tinha quando chegava a noite. E isso era o que mais incomodava: ninguém me entendia. Ninguém era capaz de conviver com a incrível frustração de não saber o que se passa por mim. E o que me deixava ainda mais sozinho: sempre tive necessidade de tirar sangue de mim mesmo. Sempre tive necessidade de tomar veneno. Sempre precisei andar ao lado de penhascos, mas quem me acompanhava? Quem se jogava de abismos comigo? Ninguém entendia essas maluquices, não, ninguém entendia. Minhas várias faces nunca conseguiram agradar ninguém, não mesmo.

            Só uma pessoa foi capaz de me aceitar e compreender a vida toda: Alice. Mas de que adiantava? Alice nem existia. Alice era fruto de minha imaginação. Alice era encantadora… Como era! Lembro-me muito bem da primeira vez que apareceu em meus sonhos, estava bailando. Alice me deixou intrigado logo de primeira. Era bailarina, mas nunca usava branco, sempre preto ou vermelho. Alice tinha cabelos negros e longos e seus olhos eram cor de fogo. Aliás, os olhos eram a janela de sua alma. E que alma!

            Em meu segundo sonho com Alice eu pude perceber como era uma incógnita. Seus olhos se mostraram ainda mais misteriosos e agora me pareciam ser cruéis também. Isso alimentava meu desejo mais e mais. Eu via em Alice a minha salvação, meu antídoto. O veneno pra poder acabar com minha própria vida de vez. Tive certeza de que Alice não era um anjo. Alice só se camuflava na pele de um. Alice foi enviada pela Morte, tinha certeza. Sua missão era me levar. E a Morte caprichou, me trouxe a perfeição em forma de gente. Sua pele quente e seus lábios vermelhos me eram assustadores. Alice tinha um sol dentro de si e sua boca era cor de sangue. Seus dentes formavam uma linha reta, mas a Morte só conseguia atingir a perfeição quando seus cabelos negros tomavam parte do rosto de Alice e ficavam presos em sua boca.

             Só em meu terceiro sonho eu pude chegar perto de Alice. Só em nosso terceiro encontro pude tocá-la. Só em nosso terceiro encontro eu pude afirmar algo com veemência: Alice era uma prisioneira, mas vivia como queria. Alice era sete em uma só. Alice era pássaro, sereia, rainha, princesa, sol, mar… E escrava… Pela primeira vez na vida eu tive certeza de uma coisa: queria ser levado, queria a morte mais dolorosa possível. Eu já estava morrendo aos poucos mesmo. Já não me importava em ter ou não uma vida. O amor que ardia e sangrava em mim me tirava dias de vida todos os dias. Decidi: queria me entregar pra quem fosse pra ter Alice nos meus braços. 

            Antes de meu quarto sonho eu descobri que Alice existia. Alice era minha salvação. Era a voz doce que salvava minha vida. Era a voz doce que sempre me mantinha longe de abismos. Foi aí que Alice começou sua história dentro de mim. Mas morreu logo depois. Nos matamos. Foi lindo. 

            Nossa morte aconteceu às nove da noite. Nossa história começou às nove e um da noite. A eternidade começou naquele momento, pra gente. Alice e eu vivemos um no outro desde então. 

(João Amaral)

Alice, Uma Sereia, Um Casamento, Um Cemitério e a Eternidade

      ’’Eu nunca pensei muito em como seria a morte, mas não imaginava que fosse desse jeito. Pensei que fosse mais cruel. Pensei que cairia num buraco negro, segurando tuas mãos. Só nos resta esperar que nosso padre nos eternize. A morte. Alice, nosso enterro já é amanhã, às seis.“

      Primeiro, gostaria de colocar os acontecimentos e fatos em uma certa ordem cronológica. Bem, meu enterro aconteceu ontem, às seis, e eu nunca me senti tão vivo como agora. As nuvens cinzas, o céu carregado, as gralhas e seus olhos dourados… A minha vida, eu sinto como se agora ela fosse… linda. Como se agora eu tivesse alguém pra amar. Mesmo que doente, mesmo que quebrado, sinto como se eu pudesse me jogar de um abismo e esperar por alguém de braços abertos no fim. Como se eu pudesse enfiar uma garrafa de cachaça goela abaixo e mergulhar no mar. Sem perigo algum. Ou com todos possíveis. 

     Como eu sempre digo, sereias são criaturas cruéis e perigosas, e é suicídio criar laços com qualquer uma delas. Seus seios magníficos, seus cabelos negros e os poucos fios que prendem na boca cor de sangue… Elas são muito pra qualquer um. É impossível ser são com qualquer uma delas ao lado. Controle, isso não existe. Quem seria tão tolo pra cometer o crime de se apaixonar por uma criatura dessas? Eu. Eu sou o tolo. E ontem, bem, ontem eu casei com sete mulheres. Meu casamento foi lindo… e fúnebre. Como os olhos de Alice. Sim, Alice. A sereia. As sete mulheres. Escrava, Princesa, Cigana, Prisioneira, Pássaro e Sol. Na pele de uma só.

      Sobre meu casamento: eu queria casar de joelhos. É com essa frase que gostaria de iniciar qualquer tipo de explicação sobre a cerimônia. Meu caro, a mulher… A mulher é cruel até em seus suspiros. Seus cabelos, como sempre, presos em sua boca rachada e vermelha. O cenário e toda a encenação não poderiam ser diferentes. Primeiro a brisa gelada e os meus arrepios, depois o olhar arregalado como se em todo o ambiente, de repente, tocasse uma orquestra. Eu caí de joelhos e chorei. Depois o olhar arrogante, como se eu fosse uma espécie de verme. E uma particularidade instigante: o vestido. Vermelho, como se fosse tingido pelo seu próprio sangue. O nevoeiro a sua volta, como se até as nuvens estivessem aos seus pés. A platéia de gralhas. Os olhos dourados e hipnotizados por toda parte. Até a Morte, padre digno de nosso casamento, pensava em como um cachorro como eu teria conseguido uma mulher tão maravilhosa. E eu, pobre coitado, pobre felizardo, de joelhos… Porque, veja bem, poderia ser de outra forma?

      Sobre o cemitério: nossa terceira casa. A primeira, o mar. A segunda, meu coração de coelho, para Alice. Ou minha alma vagabunda. Para mim, a segunda casa é um palacete em chamas. O caos. Os olhos de Alice. Por quê? Eu disse que é impossível ser são ou ter controle de si, quando ao lado se encontra uma sereia. E é verdade, mas quando não se é por natureza? E é por isso que faço do caos minha segunda casa. Porque é lá que eu sei que ainda sou, que ainda existo. É lá que eu tiro uma folga, porque é preciso. Em cada uma das sete personalidades, existe uma espécie de tornado. E lidar com cada personalidade, é loucura. É ter uma estaca de vidro cravada no próprio peito, ter a pele seca, os tecidos dilacerados e se sentir como uma espécie de Deus Romano. 

      E isso tudo, meu caro, não é nem metade. Essa é só a personalidade mais forte: a de sereia. Porque, além de tudo, a mulher é frágil como se o coração fosse de cristal, e ao mesmo tempo, forte como se guardasse um furacão dentro de si. Ela é toda a minha dor, toda minha angústia, meus calafrios e o que me assusta. Ela é o que me deixa doente, mas a sua voz é a minha cura. É sensual até quando chora. Seus lábios famintos denunciam a lista de desavisados que tiveram a alma encaixotada. Ela é o que me deixa de joelhos, o que me ergue do fundo do poço e o que me joga em abismos. Ela é a imensidão do mar, e tão cruel e revolto quanto. Ela é tudo, até quando não tem intensão de ser nada. Ela é a personificação do amor, pra mim.

      Sobre a eternidade: ela existe, e eu a vejo toda vez que olho nos olhos de Alice. E eu a sinto toda vez que toco a pele quente, ao mesmo tempo que gélida, da mulher de sete personalidades. Mas eu sei que existe pelo simples fato de correr amor até pelas nossas veias. Eu sei porque quando se encontra alguém pra amar pela eternidade, a gente simplesmente sabe. Esse deve ser meu fardo: amar. Porque é disso que eu sou feito: amor. E, em Alice, isso é evidente até na vermelhidão de seus olhos.

João Amaral

Alice, hoje eu me embebedei de você

            Hoje o dia não foi nem um pouco fácil, amor. E, são nesses dias de peso nas costas que eu não vejo outra saída além de te injetar nas minhas veias. Eu não tenho outra saída, eu não tenho outra escapatória. O que mais me fará perder o medo do escuro? Quem é que vai me tranquilizar em dias como esses? Embora eu não queira tranquilidade, eu preciso me ver no lixo. Eu preciso de alucinações, eu preciso de algo que me arranque pedaços. Eu precisava de uma espada encharcada com sangue teu pra cravar no peito, Alice.

            Nesses dias onde o frio toma o lugar do ar quente, eu acabo esfriando também, amor, e, tem coisa pior que isso? Não tem não. Eu me acostumei com meus setenta graus e não sei mais viver de outro jeito. Eu desaprendi a ser no morno, eu não sei o que faço. Alice, você só me ensinou a ser iceberg ou incêndio, o que eu faço agora? Aqui na minha terra chove, mas não consigo sentir cheiro de terra molhada. Essas gotas só servem pra esfriar asfalto. Isso não é pra mim. Isso definitivamente não é pra mim, meu bem.

            Alice, eu não gosto dessa garoa escrota, pra que serve isso? Se for pra chover, meu bem, que chova canivetes e que você esteja correndo na chuva comigo. As pessoas dizem que a chuva faz doer, mas de que adianta essa chuva se ela não consegue me rasgar? Pra que serve uma chuva que não arranca minhas telhas? Eu só aceito temporais, e que eles me permitam ver teu corpo nu por debaixo da roupa molhada, Alice, só assim. Mas que diabos de vento é esse, que não me quebra, que não me derruba? 

            Já fazem dias que eu ando precisando de alguma coisa que me encha um pouco, Alice. Há tempos que eu não aguento mais esse vazio. Tem outra saída se não o caminho da estupidez? Não tem, amor. Eu sei que nessa vida eu preciso de duas coisas pra me sentir completo: transbordar e sentir. Só você faz isso comigo, mas você só aparece quando quer, quando te convém. Eu não sei como te chamar, eu não sei te puxar pelo braço. Faz tempos que provei dos teu lábios e desde então me sinto anestesiado, sem ação. Mas que porra é essa? 

            Alice, nesses dias de peso nas costas eu preciso de algo que me erga ou que me deixe no chão de uma vez. Não dá mais pra mim, amor. Eu não sei mais como é viver inteiro, me acostumei a me ver quebrado, jogado no chão da sala. Como é que eu respiro sem os incensos com o teu cheiro? Nesses dias onde o sol se põe mais cedo eu preciso do teu veneno doce correndo nas minhas veias. 

            Alice, eu preciso de algo que me entorpeça os sentidos. Eu preciso de algo que me faça sentir vivo, mas na beira de um penhasco. Amor, eu quero olhar pro céu e ver colorido. Alice, eu quero me ver caindo junto de você. Eu preciso ver os pianos em volta de nós. Preciso sentir a queda e enxergar todas nossa orquestra, marcando nosso fim, marcando nossa eternidade. Eu preciso da tua crueldade, Alice, não aguento mais desviar dos buracos…

(João Amaral)