fool4you

Eu nunca gostei de me apegar, você sempre soube disso. Você sabe que eu sempre arrumei uma maneira de ser autossuficiente e totalmente dependente de mim e apenas de mim. Eu era boa nisso Vincent, eu era realmente boa nisso até você aparecer. Não é como se eu nunca tivesse gostado muito de alguém antes de conhecer você, porque eu gostei e várias vezes, mas eu sempre conseguia arrumar algum motivo pra gostar menos até que não fosse tão difícil arranjar outro motivo para não gostar nenhum pouco e resolver acabar com tudo. Eu sempre fui boa em não criar laços, não precisar e não apegar, mas você conseguiu estragar tudo isso. Não sei como eu fui deixar isso chegar tão longe, foram três meses Vincent. Eu nunca consegui ficar mais de três semanas com garoto nenhum e você conseguiu me prender por três meses. Eu sabia que toda essa atração por mestiços um dia ia me ferrar, mas eu não conseguia ver mal algum em ficar com o rapaz que bebia apenas socialmente e almoçava na casa da avó todos os domingos. Você não representava ameaça alguma para garota que gostava de beber qualquer que fosse o lugar e a ocasião e falava com os pais apenas duas vezes por mês. Nós que nunca combinamos, que viramos aposta dos outros que não tiveram coragem de falar que ficaríamos mais que duas semanas juntos duramos tanto. E poderíamos ter durado ainda mais, se não fosse aquela minha mania estúpida de não querer me apegar. Eu estava tentando arranjar motivos para acabar com tudo assim que completou um mês, mas não conseguia achar nada que me fizesse desistir de você. Que motivo eu tinha para terminar contigo Vincent? Você me ferrava sempre que dava motivos que me faziam acreditar valer a pena me apegar, porque isso me amedrontava e por isso eu resolvi estragar com tudo, como eu sempre acabo fazendo. E então apelei para o motivo que nunca havia apelado, porque sempre tentava colocar o motivo e a culpa nos outros, mas decidi uma vez ser honesta comigo e com você também. Eu falei que não te merecia e você sequer pensou em discordar. Nós dois sabíamos o quanto eu estava certa dizendo aquilo, você sempre mereceu coisa melhor que eu e até quem nos via de longe sabia disso. Você sabia que eu não era garota de se levar em almoços de domingo na casa da avó e que você nunca iria conseguir me ensinar a ter bons modos do jeito que teus pais ensinaram tua irmã e que exigiam em qualquer garota que você decidisse levar para esses almoços em família. Mesmo assim você nunca resolveu acabar com tudo porque você estava acostumado a fazer dar certo, mas eu não. Você não tentou me ofender e nem nada como todos os outros resolviam fazer quando eu apontava o porquê de não dar certo e isso apenas dificultou tudo para mim, porque tu nunca me deu motivo nenhum pra eu desistir de você e mesmo tendo sido eu quem terminou foi como se tivesse sido você, porque eu sim te dei todos os motivos do mundo pra acabar. E por mais que isso me apavore, eu desejo que tu ache uma garota que faça valer a pena todas as aulas de etiqueta e que você sinta orgulho de levar para almoçar aos domingos, porque nem com todo o teu esforço eu seria uma delas. E pela primeira vez quem se livrou de se apegar em alguém que não merecia não fui eu, foi você.
—  Gabriela B. (fool4you)
Eu devo ter um daqueles “bips” pra idiota, porque essa deve ser a única explicação para eu ter me envolvido com tantos em tão pouco tempo. Idiotas que curtem uma long neck no canto escuro do bar, idiotas de sorrisos branquinhos e barba rala, idiotas com cantadas fracas, idiotas que usam perfumes baratos e mesmo assim tem um cheiro bom, idiotas com risadas roucas e vozes grossas. E tem você. E por incrível que pareça você consegue ser todos esses idiotas que eu demorei dezoito anos para conhecer. “Bip. Bip. Bip”, eu consigo ouvi-lo apitar em alto e bom som na minha cabeça toda vez que você chega perto. Ele está apitando agora, cada vez mais alto, como se me avisasse: É mais um, é apenas mais um daqueles tantos idiotas que você sempre encontra por aí. Corra enquanto é tempo, se livre desse idiota agora, não perca seu tempo como sempre faz. Mas eu prefiro me fazer de surda a levar a sério o “Bip” que não para de apitar na minha cabeça. Prefiro me fazer de surda a ignorar você no canto escuro do bar, fingir que não gosto do seu sorriso, do arranhar da sua barba rala na minha bochecha, não caçoar suas cantadas fracas, fingir que seu cheiro me enjoa, não rir com você e sua risada rouca e não escutar sua voz grossa toda vez que me chama. Vai ver ele só quer avisar que a idiota sou eu.
—  Gabriela Britto (fool4you)