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Grátis, só que pago

É mais ou menos assim, “grátis, só que pago”, que a Folha.com pretende ser daqui para a frente. Segundo o Meio&Mensagem, a versão online do jornal Folha de S. Paulo irá, já a partir desta segunda-feira (18/06), cobrar pelo acesso ao seu conteúdo.

É como o modelo do jornal impresso: o leitor paga pelo conteúdo e o anunciante pela audiência. Essa audiência atrai o anunciante”, conta Antonio Manuel, diretor superintendente do Grupo Folha. A ideia é que o conteúdo seja monetizado tanto pelo anunciante quanto pelo leitor. De acordo com o diretor, o investimento que é feito para a criação desse conteúdo hoje, não tem a contrapartida financeira suficiente para compensar. Isso porque, segundo ele, o grande investimento publicitário de web não está nos sites noticiosos.

Ok. Que os anúncios não cobrem o custo da produção de conteúdo, todo mundo já está careca de saber. Mas será que cobrar assim, depois de deixar tanto tempo grátis, é a melhor saída? O jornal se defende dizendo que sim, que o poderoso The New York Times, modelo para todos os jornais do mundo tanto nos acertos quanto nos erros, já faz isso (com relativo sucesso) há mais de um ano. Pode ser, mas certo é que até eles estão confusos quanto a eficácia deste modelo.

Então não teria sido mais coerente cobrar, ainda que pouco, logo que lançaram o portal ou quando fizeram a reestruturação para o formato atual? E que tal cobrar apenas a melhor parte do jornal, o filé mignon, os textos longos, as grandes entrevistas, os furos, as reportagens investigativas, enfim, aquilo que realmente é mais custoso ao jornal?

É certo que esta minha visão tem um ‘quê’ de leitor moderno - que entende o alto custo de produção de jornalismo, mas acha que a internet nasceu para ser essencialmente livre e gratuita -, mas mesmo assim, ainda não sei se passar a cobrar, da noite pro dia, pode ser a forma mais inteligente de capitalizar. A Folha já conta com uma queda drástica nos acessos (e sim, isso vai acontecer, afinal você quase sempre encontra o mesmo conteúdo pasteurizado do jornal em outros portais e agências por aí), mas se o modelo dará certo, isso é uma completa incógnita e qualquer palpite será apenas um palpite, sem qualquer fundamento.

Mesmo assim, me arrisco a dizer que há pelo menos dois motivos que me fazem ficar preocupados com essa iniciativa da Folha, que é pioneira, mas pode não ser a única (Estado, Lance e Globo, diz o superintendente da Folha, já bateram o martelo por isso): 1. o leitor norte-americano está mais acostumado que o brasileiro a pagar por conteúdo, e neste caso é só pensar como funciona (ou não) a prática de doação de campanhas eleitorais aqui e lá; 2. o leitor norte-americano está mais acostumado que o brasieliro a exigir e reconhecer o bom jornalismo, as grandes reportagens, os textos bem escritos.

Opa! Será que ouvi alguém aí falar que, antes de cobrar, seria interessante melhorar a qualidade do conteúdo jornalístico?

Atualizado em 19/06, às 11h: Eis que a Folha anunciou o início de seu paywall. Será na quinta (21), e a novidade é a extinção da marca “Folha.com”:

A mudança entra em vigor depois de amanhã e envolve também o nome do site do jornal. Ele passará a ter o logotipo Folha de S.Paulo no lugar do atual, Folha.com, que deixará de existir.

Atualizado em 24/06, às 20h: Ainda repercutindo, o paywall da Folha foi o tema da coluna de Suzana Singer, ombudsman do jornal - texto que, veja só!, pode ser lido na íntegra no próprio site, impossível antes do paywall. No texto, ela destaca a resistência dos leitores e, principalmente, o quase consenso que, se quer cobrar, a Folha precisa melhorar. No fim, uma entrevista sobre o assunto com Sérgio Dávila repercute o tema.

Para ler pequenos informes sobre o que aconteceu nas últimas horas, em textos mal-ajambrados, ou para saber das fofocas mais recentes sobre celebridades do “mundo B”, ninguém precisa gastar um centavo, há uma oferta enorme de sites e blogs gratuitos na rede. Neste momento, o desafio da Folha é mostrar que um noticiário bem-feito custa caro, mas que vale a pena financiá-lo.