ensino

[EU SOU TAMBÉM]

Eu adoraria que chamassem o que faço de poesia. Alguns até chamam. Pelo menos na minha frente. Outros insistem em colocar complementos visando claramente a rebaixar o meu jeito de dialogar com o mundo. Até entendo a necessidade de classificar o trabalho de alguém. O mundo tem essa mania ultrapassada de encaixar a gente (muitas vezes em lugares onde a gente nem cabe!). Às vezes, por razões estratégicas; noutras, por desconhecimento ou ainda pelo simples prazer em diminuir a importância de uma determinada manifestação artística.

Tenho que admitir: até ontem, tudo isso me incomodava demais. Hoje não me importo mais com rótulos. Pela primeira vez, eu tive a oportunidade de falar com mais calma com alguns alunos do ensino fundamental da Escola Municipal Jacyra Baracho, em São José dos Campos/SP. Esse dia mudou a minha forma de encarar as críticas. Acredito que o que aprendi com essa experiência se estende aos demais alunos de todas as escolas do Brasil. E aos ex-alunos também. Se é que existe ex-aluno quando a essência da vida está em aprender e ensinar de forma contínua.

Definir é limitar, já dizia Oscar Wilde. Eu não sou só, sou também. Eu não faço só poesia, eu faço também. Eu não sou só um publicitário, eu sou também. Eu não sou só um artista de internet, eu sou também. Eu não sou só um autor de redes sociais, eu sou também. Eu não sou só um cara que desenha palavras em guardanapos, eu sou também. Enquanto as pessoas não souberem diferenciar o só do também, elas continuarão a me classificar na posição óbvia e nada desafiadora da mesmice. Bom para elas; eu preferi acreditar no olhar dos meus leitores. Eles, os leitores, têm os olhos molhados pela emoção do encantamento. Elas, as críticas, têm os olhos secos pela necessidade de classificar.

No refeitório do colégio, Poliana deixou escapar que quer ser engenheira química e seu sonho é entrar na UFRJ. Yasmin timidamente assumiu sua vontade de escrever. Fábio mostrou todo seu talento quando o assunto é fotografia ou edição de vídeo. Já o menino Anderson deixou aparecer sua capacidade de transformar pequenos elásticos em pulseiras ou bichinhos (obrigado pela coruja-elástica). A meu ver, tudo isso é arte. Querer ser alguém é arte.

Não é fácil agradar o mundo. E é muito mais difícil ser aceito pelos mais jovens. Por isso me emociono toda vez que alguém chega e me diz que a minha poesia (sim, poesia) carismática fez com que um aluno perdesse o medo de desenhar, que ganhasse a vontade de escrever ou que simplesmente voltasse a querer ler. Quando isso acontece, ele descobre que a simplicidade também tem seu valor, que a delicadeza também tem sua importância e, principalmente, vê que quando algo tem a capacidade de emocionar uma outra pessoa de forma sincera, esse algo terá sempre seu lugar no mundo.
Muitos têm talentos escondidos, que precisam apenas de uma luz para revelá-los. Talvez esse texto seja aquele empurrãozinho ou aquela forcinha para que eles acreditem nos próprios sonhos. Não posso ensinar ninguém a decolar, afinal ainda estou tentando entender a mecânica das minhas turbinas. O que eu posso pedir é: não seja só suas asas, seja também o seu voo.

———————————————————
*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12 anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e propaganda pela ESPM-RJ e autor de Eu me chamo Antônio e Segundo – Eu me chamo Antônio.

Baby, chegue bem perto que quero te contar um segredo. Eu já amei estupidamente, amei como se não houvesse amanhã. E antes que venha com aquela bobagem de ” Quem ama, ama pra sempre. ” Sim, talvez você esteja certo. Eu não só amei, mas ainda amo. Sabe quando se ama e pensa naquela pessoa o tempo todo. Quando a imagem da pessoa ou parte favorita do corpo dela, quem sabe até mesmo ela por completo, tem que ser emitida umas 35 vezes ao dia. Como aquelas máquinas de vídeo que rodavam filmes quando você estava no ensino médio. Quando o perfume da pessoa é o seu favorito e então você começa a senti-lo do nada, e acha que aquela pessoa está perto. Então lembra que está, está em você. Ela está ali, feito tatuagem cravada na pele e no coração. Quando você vai dormir e o seu único pensamento é aquela pessoa, e então você sonha com ela, e percebe que já são uma só alma, um só coração. Um laço mal feito, um nó que se torna “nós”. E quando você usa aquele clichê de a gente só presta junto, formando agente, mesmo que nunca aceite erros de português tão brutais. Eu já amei alguém a ponto de deixar de me amar, só querendo amar aquela pessoa. Depositei todo amor que existia em meu ser. Eu já amei alguém a ponto de achar que não viveria sem aquela pessoa. Eu já amei alguém a ponto de pensar que não existem planos se não tiver aquele alguém especial. Eu já amei como uma idiota, que é o que sou, porque eu não só amei, como eu amo. Mas uma coisa eu aprendi com todo esse amor: primeiro é que não se pode amar por dois. Segundo, as vezes sacrificamos nossa própria felicidade, e sem que percebamos, nossa felicidade é a felicidade do outro, mesmo isso sendo errado e injusto. Terceiro, o amor pode nos mudar. E você acaba percebendo que toda dor um dia vai valer a pena. Porque nunca é tarde para um amante, nunca é tarde pra quem ama.
—  Sophia Weltschmerz

Desde há bastante tempo tinha vontade de escrever algo sobre a Universidade, as universidades, essa poderosa instituição tão pouco conhecida no seu funcionamento interno. Das universidades saem os líderes políticos, os professores, os juristas, economistas, doutores…: praticamente todo o tecido de grupos e interesses que mantém a sociedade de classes. Lealdade. O objetivo principal da Universidade não é contribuir para a formação intelectual das pessoas nem fazer pesquisa para criar, promover e distribuir um “saber” supostamente neutro que ajudará ao “progresso”. O “saber” é simplesmente o veículo simbólico que maneja a instituição. O objetivo da Universidade é contribuir para manter os pressupostos ideológicos do Estado, sustentar a sociedade de classes e libertar o aparelho militar de certas das suas funções. Por isso a universidade precisa dum tipo de lealdade (também militarista) camuflada sob os amuletos ideológicos da “pesquisa”, a “tradição disciplinar”, as “escolas de pensamento”, a “missão da Ciência”, etc. O que está em jogo é a formação de elites técnicas e intelectuais leais ao Estado, mas dum modo que ao mesmo tempo ofereça aos membros dessas elites a miragem internamente cômoda da “liberdade de expressão”, “liberdade de cátedra” ou “liberdade de pesquisa”. Mediocridade. Mas para os membros destas elites, em conjunto, o que está em jogo no fundo não é a “qualidade” dessa pesquisa, nem as suas metas, interesse objetivo, transcendência universal ou “nacional”, etc. O que está em jogo é, singelamente, um posto de trabalho melhor remunerado do que a média do país, uma série de recursos econômicos (bolsas de pesquisa que permitem realizar viagens profissionais, fundos para equipamento, grandes projetos), e uma série de recompensas simbólicas: reconhecimento público, visibilidade, pelo menos um minuto de TV dos 15 de que falava Warhol, prestígio social, ou essa auto-satisfação de “sermos escutados” nas aulas ou de “sentirmo-nos úteis” que apaga temporariamente a nossa mediocridade generalizada. O professor ou professora de universidade típico é um ser medíocre, sem imaginação, rotineiro, conservador (quando não patentemente reacionário), medroso das mudanças, inseguro - e por isso distante dos alunos e colegas de profissão -, zeloso da propriedade das “suas idéias”, insolidário com os “inferiores”, competitivo com os “iguais” e submisso aos “superiores”. O objetivo final do professor típico é chegar “o mais alto” que puder consoante às suas capacidades e, sobretudo, consoante à rede de alianças pessoais e de grupo que possa ter criado em anos de manobras incertas. Grande parte da vida universitária perde-se então, não no “cultivo do pensamento” ou da técnica, mas em críticas pessoais, burocracia, traições e o estabelecimento das lealdades necessárias para progredir. Periodicamente, numa mímese dos parlamentos políticos, o corpo professoral e os manipulados estudantes votam democraticamente os seus Altos Cargos para que tudo fique igual. Rivalidade. O longo processo para a reprodução da elite universitária começa já no primeiro ano de estudos. Como instituição gremial, é já nessa altura que os alunos mais adaptados começam a compreender os protocolos do jogo. Eles (e, menos, elas) são os que substituirão os seus mentores. É aí onde começam a perceber as injustiças das notas, as arbitrariedades do cômputo quantitativo do “saber” (um “saber” que deveria estar, por definição, sujeito ao seu derrubamento pela História), as teimas e graças dos professores, as suas inconfessadas preferências pessoais e os seus inconfessados aborrecimentos. Muitos alunos escolherão assim as matérias optativas em virtude das graças do professor ou professora ou da sua generosidade com as notas (muitas vezes falsa, demagógica). Como reprodução da estrutura familiar, cada aula fornece diariamente um Pai ou uma Mãe e muitos filhos e filhas dos quais sairão os favoritos: aqueles que conhecem já desde o início as leis, regulamentos, oportunidades de avanço profissional, esquemas de afiliação. Os poucos jovens clarividentes que querem escapar a esta tortura auto-imposta costumam acabar sem trabalho, ou com maus trabalhos, e perenemente frustrados da sua experiência. Ao final de quatro ou cinco anos repete-se o infortúnio massivo que, embora conhecido, precisa ser lembrado: milhares de jovens acabam transmudados em pequenas fotografias, uniformes e uniformizados, simetricamente dispostos e dispostas no Museu do Desemprego, com um sorriso forçado e um vazio ainda maior na cabeça. Dominação. Onde fica o “saber”, a circulação das “idéias”, a altruísta exploração do pensamento? Fica na falsa superfície deste sistema injusto, opressor e mesmo doente. O saber fica como simples escusa da maquinaria da dominação. O motor e objetivo da Universidade é singelamente a distribuição grupal dos recursos materiais e simbólicos, a distribuição do poder. Como um engenho do movimento perpétuo, a Universidade reproduz a si própria para refinar o princípio patriarcal da obediência, base da moral e da estrutura capitalista de classes. E a cada poucos anos, como no Mundo Real, a Universidade recria-se, fagocita alguns dos seus próprios filhos e filhas, e vota, democraticamente, os seus próprios líderes, os seus próprios monstros.

Celso Álvarez Cáccamo

A sociedade não quer indivíduos que estão alertas, perspicazes, revolucionários, porque tais indivíduos não se encaixam no padrão social estabelecido e podem quebrá-lo. É por isso que a sociedade procura manter sua mente em seu padrão, e porque a sua assim chama educação convida-o a imitar, a seguir, a se conformar.
—  J. Krishnamurti