Ó vida me dê um título qualquer, uma medalha, um troféu, qualquer coisa concreta e reluzente que satisfaça o desejo dos que em mim criam expectativas. Conte a eles todas as merdas que já fiz, mas por favor, use palavras bonitas, hipnotize-os com a profundidade e o esplendor das palavras, dê a eles beleza, beleza sem conteúdo. Ó vida, mostre a eles algo grande, me faça merecedor do Prêmio Nobel de negligência e o maior “enchedor de linguiça” do mundo. Você viu vida? Eles querem que eu faça os melhores cursos na faculdade, me imaginam fazendo Direito, e eu vou fazer Direito; farei com que o meu “Direito” de escolha seja exercido com sucesso. Já sonharam comigo no curso de Medicina, me tornando um médico, cuidando de vidas, assim como eles cuidam da minha. Só pra agradá-los farei Engenharia, “Engenharia utópica”, construirei sonhos, heterônimos, mundos, universos, criarei poesia. Eu nem sei direito o que eu quero vida, mas se tem algo que não me agrada é o que esperam de mim. Eles querem que eu crie um padrão, uma rotina, esperam que o mundo lá fora me reconheça pelo jeito de andar, pela roupa que visto, pelos lugares que frequento… eu não aceito que eles façam um desenho de mim. Nunca saberão meus passos, e mesmo que saibam, sempre estarei dois passos à frente deles.
—  Eu converso com a vida, Otávio L. Azevedo
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