Por que “Índio é nós
por Paduá Fernandes 
http://baderna.cc/indio-eh-nos/
Remix Lennon/Yoko por André Vallias

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A democracia representativa, no tocante a seus mecanismos eleitorais, é obviamente insuficiente: os índios não teriam votos para contrabalançar o agronegócio e seus aliados de ocasião, como foi a bancada teocrática em alguns momentos desta legislatura.

A ação política organizada por meio de movimentos é necessária. Nisso, é importante que as organizações tradicionalmente ligadas à luta pelas populações indígenas não fiquem solitárias. Seus adversários têm poderosos aliados internos e externos, ligados ao setor de commodities.

Por isso está sendo lançada, no mês de março de 2013, a campanha “índio é nós”: uma série de eventos, no Brasil e no exterior, autônomos, porém conectados pela defesa dos direitos e terras indígenas. Seu manifesto, uma lista de textos e vídeos informativos, bem como as manifestações artísticas criadas ou cedidas para a campanha podem ser vistos nesta ligação: www.indio-eh-nos.eco.br

Nela, igualmente, está disponível para consulta a programação dos eventos (artísticos, acadêmicos, políticos – na verdade, todos serão políticos) da mobilização.

“Índio é nós”, portanto, tem o propósito de denunciar o discurso de ódio veiculado pela classe política e pelos meios de comunicação, sua afronta ao direito vigente e a critérios fundamentais de justiça, bem como suas falsas premissas científicas – como foi citado, na tentativa de justificar o racismo, está sendo ressuscitado até mesmo o darwinismo social nos discursos de congressistas.

Ademais, a campanha deseja demonstrar que os índios não estão isolados em sua luta e que a questão da sobrevivência desses povos não interessa apenas à Funai e aos antropólogos (como se fosse pouca coisa, aliás), mas a toda sociedade brasileira. Daí a necessidade de respeito aos “direitos coletivos atribuídos a populações definidas em termos raciais ou étnicos”, que não devem ser definidos como um simples instrumento para gestão e controle de populações, como bem demonstram Verdo e Vidal. Se o fossem, por sinal, certamente não haveria tanta resistência à validade e à eficácia desses direitos no Brasil. É necessário afirmá-los pois, como sempre, os direitos, sem ação, são apenas papel.

O manifesto da campanha convoca à ação neste sentido:

Contra as barragens dos rios na Amazônia, os projetos anti-indígenas no Congresso Nacional e as milícias armadas que atacam impunemente as tribos; pela urgente demarcação das terras indígenas segundo critérios técnicos e não os interesses do agronegócio; pela real implementação dos direitos constitucionais e internacionais dos índios; pelos projetos de futuro inspirados pela indianidade, convidamos todos a se agregarem a esta campanha: Índio é nós.

A campanha trata dos genocídios de ontem e de hoje, que estão relacionados, como se pode perceber nos projetos de intervenção na Amazônia (Belo Monte é um exemplo) concebidos pela ditadura militar que estão sendo implementados hoje. Por conseguinte, ela envolve também a justiça de transição, isto é, a democratização da sociedade e a punição dos perpetradores de abusos contra os direitos humanos após o fim de um regime autoritário. A falta dessa justiça no Brasil evidencia-se tanto na impunidade escandalosa dos assassinos e torturadores da ditadura militar, bem como de seus financiadores, quanto na continuidade dos abusos cometidos contra os povos indígenas, à revelia dos direitos duramente conquistados, mas que permanecem em plano formal, e com o apoio de forças semelhantes às que promoveram o golpe de 1964, mas agora com a ajuda da esquerda que chegou ao poder. Como bem sintetizou Eduardo Viveiros de Castro, foi preciso a esquerda chegar ao poder “para realizar o projeto da direita”, o que certamente mostra os limites políticos e ideológicos dessa esquerda em particular.

Portanto, mesmo levando em consideração que a opressão data da colonização, é como se o golpe de 1964, para os povos indígenas, não tivesse terminado ainda.

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Saiba mais:
http://www.indio-eh-nos.eco.br/

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(Neo)desenvolvimentismo ou luta de classes?

“Sem romper com a lógica neoliberal, o “modelo neo-desenvolvimentista” dos governos Lula e Dilma sugere formas neokeynesianas, de modo a administrar os estragos causados pelo neoliberalismo das gestões anteriores (…) desse modo subalternizado que, pelas mãos do neoliberalismo, o capitalismo brasileiro vem apresentando alguns dos melhores desempenhos econômicos do sistema. O capital, em processo de crise generalizada, tem pouco a lamentar e muito a comemorar por aqui


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Escrito por Maria Orlanda Pinassi

9 de Janeiro 2013, ODiario.info

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Às vésperas de completar 25 anos no Brasil, o neoliberalismo vem sendo o mote de importantes análises e balanços acerca do seu desempenho no país, sobretudo por estudiosos do campo da crítica marxista.

De modo breve, o processo neoliberal é apresentado em dois momentos distintos e complementares ao mesmo tempo.O primeiromarcou os anos do governo de FHC através das privatizações de empresas públicas, da desnacionalização da economia, da desindustrialização, da reprimarização da produção interna (produção e exportação de commodities) e da integração da burguesia brasileira ao imperativo capital transnacionalizado.

O momento seguinte enseja o chamadoneodesenvolvimentismo,processo que caracteriza os governos Lula e Dilma. Sem romper com a lógica neoliberal, o “modelo” sugere formas neokeynesianas, de modo a administrar os estragos causados pelo neoliberalismo das gestões anteriores. Segundo consta, o Estado procuraria, então, recompor sua função(de “alívio”) social –através da criação de empregos (quase sempre precários e temporários), políticas de recuperação do salário mínimo e redistribuição de renda (Bolsas Família, Escola, Desemprego etc.) -, enquanto a economia se renacionalizaria por meio de financiamentos do BNDES à reindustrialização pautada na substituição de importações. Argumentos fortemente questionáveis visto que as empresas públicas privatizadas hoje são fortemente controladas por capitais externos (vide Vale), numa lógica em que a economia transnacionalizada do sistema reconduz o Brasil ao papel produtor de bens primários para exportação.

É desse modo subalternizado que, pelas mãos do neoliberalismo, o capitalismo brasileiro vem apresentando alguns dos melhores desempenhos econômicos do sistema. O capital, em processo de crise generalizada, tem pouco a lamentar e muito a comemorar por aqui: veja-se a estratosférica lucratividade bancária e o enorme crescimento da indústria da construção civil. Mais impressionante ainda é o desempenho da mineração, do agronegócio, do setor energético e dos números que apontam para o grande aumento de áreas agricultáveis(1) , de florestas, de rios e outras tantas de proteção ambiental, invadidas e destruídas por pasto, monocultivo de cana, de soja, de celulose, de laranja, por extração mineral, por barragens.

Com razão, é unânime a condenação que se faz da hegemonia do capital financeiro sob o neoliberalismo tendo em vista as consequências sociais nefastas que provoca. Estranhamente, porém, a solução que alguns estudiosos do temaencontram para esse “impasse”vem da Economia Política e não de Marx. Ressaltam os avanços das políticas sociais dos governos petistas, mas, acometidos de uma espécie de “síndrome de Proudhon”, ouvem o sino tocar semsaber onde ele se encontra. Procuram-no num revival antidialético e romântico do Estado de Bem Estar Social, do predomínio da indústria fordista, com suas formas mais “humanizadas” de extração da mais-valia relativa.Saudades de algo que jamais existiu por aqui.

Para além dessas boas intenções, oneoliberalismo, desde suas primeiras aparições já nos anos de 1990, compõe a processualidade de uma mesma dinâmica de expansão e acumulação de riquezas baseada na superexploração do trabalho. Só que desta vez sem os entraves que as políticas keynesianas originais de controle das crises cíclicas certamente apresentariam à lógica de uma atuação absolutamente intolerante a qualquer limite.

Isso quer dizer que a década de 1990,apesar de ter registrado um desempenho econômico pior do que nos anos 1980, não foi perdida, como pensam, nem de estagnação para o capital.Durante esses anos, o neoliberalismo pôs em prática seu fundamento mais importante, aqui e em todo o mundo capitalista: interrompeu o avanço da classe trabalhadora. A reestruturação produtiva implantada destruiu empregos e a estabilidade (onde ela existia), criou o desemprego estrutural, disseminou a precarização – algo bastante familiar ao mundo do trabalho no Brasil - e começou a desmantelar cada um dos direitos trabalhistas conquistados pela classe trabalhadora desde Getúlio. Se o momento FHC criou as condições da miséria, sem, contudo, destruir completamente a classe, o momento seguinte lograria ainda maior sucesso nesta investida, criando e reproduzindo o miserável.

FHC ainda combatia a objetividade da classe trabalhadora, seus sindicatos e os movimentos sociais. Os governos de conciliação de Lula e Dilma mantiveram a política de fragilização da classe trabalhadora e investiram sobre a subjetividade do trabalhador. Numa obra magistral de engenharia política, não mais o reconhecem como antípoda do capital. Tratam sindicatos e movimentos populares como parceiros e ainda são pródigos na concessão de direitos para as chamadas “minorias”, os direitos de cidadania que vão fortalecer a democracia formal. Inegável o avanço da Lei Maria da Penha, dos direitos ampliados dos negros, dos índios e dos homossexuais.O problema é a individualização desideologizada do tratamento, devidamente orientado pelo Banco Mundial, de controle social domiserável. (2)

Caminho livre para a lógica da produção destrutiva e nele não há solução jurídica capaz de conter o extermínio de comunidades indígenas, as expropriações sem fim das terras quilombolas, de pequenos produtores e trabalhadores rurais sem terra –acampados ou assentados -, não há solução possível para as remoções de levas imensas de moradores de comunidades urbanas, muito menos para conter a superexploração de mulheres e crianças ou a disseminação do trabalho escravo no campo e nas cidades.(3) Para os segmentos atingidos, a criminalização e os rigores da repressão policial.Ou seja, a mais perfeita democracia hoje realizada pelo mundo do capital é a sua absoluta “tolerância” com qualquer forma de extração do sobre-trabalho: pode ser mais valia relativa, pode ser mais valia absoluta.

Vistos dessa ótica, os tempos são inegavelmente difíceis, tornando urgente a tomada de decisão: ou jogamos mais água no moinho satânico ou buscamos caminhos mais autênticos. Ou somos apologetas ou críticos radicais.

Florestan Fernandes foi categórico a respeito: “[…] defendo toda carga possível da saturação-limite dos papéis intelectuais dos sociólogos - não como servos do poder, porém agentes do conhecimento e da transformação do mundo”. Sem meias palavras, define muito claramente sua opção pela sociologia concreta baseada no “horizonte cultural socialista em sua plenitude revolucionária”. (4)

Não poderia dispor, portanto, de melhor companhia para dizer que não pretendo encontrar soluções para estabilizar o capital; não pretendo dar contribuição para torná-lo mais funcional; nem venho propor algum tipo de pacto social com frações da burguesia supostamente lesadas pelo imperativo capital financeiro. O ponto de vista que defendo está ideologicamente comprometido com as necessidades mais legítimas dos indivíduos que compõem a classe trabalhadora, cujo desafio maior da atualidade é conseguir transpor as misérias materiais e ideológicas e reassumir, através da luta, a condição diuturnamente vilipendiada de sujeito da história. Um primeiro passo deveria ser dado por suas organizações – ou o que sobrou delas – no sentido de compreenderem, definitivamente, que o agir revolucionário precisa aprender a se “virar” sem o canto de sereia das instituições mediadoras da ordem.

1 Há quem diga que, no Brasil, não há mais latifúndios improdutivos, então, para que Reforma Agrária? Não temos espaço suficiente aqui para demostrarmos quão questionável é essa “ideia”.
2 Ver a respeito o Projeto de Lei PPA 2012/2015 (2011) através do qual a gestão da presidenta DilmaRousseff se propõe a enfrentar e dar visibilidade através dos programas que englobam o PlanoBrasil sem Miséria.
3 Ao contrário, tudo tende a se agravar com a revisão do Código Florestal, da Mineração, da demarcação das terras indígenas.
4 Florestan Fernandes. A natureza sociológica da sociologia. São Paulo, Editora Ática, 1980 (p. 32)

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Maria Orlanda Pinassi é professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp (campus de Araraquara, São Paulo).

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“Uma direita sem proposta e uma esquerda sem vergonha, é o que temos no Brasil.” [Raymundo Araujo Filho em 19DEZ2011]

Classes e luta de classes: projetos em curso

Classes e luta de classes: projetos em curso

Por Wladimir Pomar, publicado originalmente no Correio da Cidadania

O citado coronel Boggo tem a vantagem de falar com franqueza sobre a ausência das “qualidades inatas” dos pobres. Estes, alfabetizados ou analfabetos, não possuiriam discernimento para escolher a “elite” como governante do país. Em tais condições, segundo ele, qualquer sistema democrático tenderia a seguir a “saga comunista”,…

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02 projetos econômicos que se enfrentam nas urnas

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No discurso petista, o atual projeto econômico tucano é neoliberal: prevê um Estado mínimo, o combate à inflação com políticas que geram desemprego, cortes nos gastos sociais e uma abertura econômica radical.

No discurso tucano, o projeto econômico petista é populista e resgata o velho desenvolvimentismo: prevê um Estado inflado e centralizador, leniente com a inflação e protecionista.

No palanque, porém, assessores e candidatos dos dois lados não raro defendem políticas semelhantes. Prometem ser duros contra a alta de preços, fazer um ajuste econômico gradual, ampliar os gastos em programas e áreas sociais, promover investimentos em infraestrutura por meio de parcerias público-privadas e por aí vai.

"É claro que na prática, governos dos dois partidos podem ter resultados muito diferentes, em função da capacidade técnica e administrativa de cada equipe. E não há como negar a existência de diferenças importantes entre seus projetos econômicos", disse Peter Hakim, consultor do Inter-American Dialogue.

"Mas por outro lado, também há muitas semelhanças entre os dois projetos - é difícil pensar que estamos diante de modelos opostos, como ocorre nos EUA, onde há defensores de um Estado mínimo. De certa forma, PT e PSDB são partidos que, na Europa, provavelmente seriam aliados".

Então quais são, afinal, as diferenças e semelhanças fundamentais entre os projetos econômicos de Dilma Rousseff, do PT, e Aécio Neves, do PSDB? Ou quais as duas propostas econômicas que devem se enfrentar nas urnas neste domingo?

A lista abaixo, feita com base nos discursos dos candidatos, programas de governo e avaliações de analistas, é uma tentativa de elucidar essas questões.

PAPEL E TAMANHO DO ESTADO

No terreno das diferenças, há certo consenso de que Dilma daria ao Estado um papel um pouco maior na condução da economia do que Aécio, como destacam André Biancarelli, da Unicamp, e Lourdes Sola, da USP. E o candidato do PSDB seria menos desconfiado dos “mercados” e do setor privado.

Mas assessores de Dilma também dizem que, em um eventual segundo mandato, ela deverá ensaiar uma aproximação ao empresariado, além de tentar corrigir erros que teriam atrasado ou prejudicado parcerias e concessões na área de infraestrutura. A respeito do tamanho do Estado, Aécio propõe a redução do número de ministérios pela metade e se comprometeu a enxugar gastos desnecessários e a não aumentar a carga tributária. Mas, como Dilma, ele promete manter e expandir os gastos em áreas e programas sociais. A presidente, por sua vez, não acha que o número de ministérios esteja inflado, mas admite que a partir de agora a política fiscal do governo pode ser um pouco menos expansionista.

Nos últimos anos, os gastos do governo se ampliaram como parte de uma política anticíclica que visava, segundo Dilma, diminuir os efeitos da crise internacional no país. Para o PSDB, tal expansão ajudou a impulsionar a inflação.

POLÍTICA INDUSTRIAL

A indústria brasileira vem perdendo competitividade nos últimos anos e desacelerou de maneira brusca. Mas os dois candidatos parecem ter concepções distintas sobre como enfrentar essa crise. Dilma se mostra a favor de uma política setorial, em que o governo escolhe alguns setores para incentivar por meio de desonerações e crédito subsidiado. Já Aécio seria a favor de políticas horizontais, que melhorariam as condições de operações de todas as empresas - como uma reforma tributária e a criação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), consolidando diversos tributos, como ICMS, IPI, PIS e Cofins.

Hakim, do Inter-American Dialogue, diz que Aécio também parece menos inclinado a diferenciar entre empresas nacionais e estrangeiras - rejeitando, por exemplo, a imposição de regras de conteúdo nacional e a preferência dada a produtos nacionais em compras governamentais.

ABERTURA ECONÔMICA

O ex-presidente do BC Armínio Fraga, escolhido pelo candidato tucano para ser seu ministro da Fazenda, fala em fazer uma “abertura gradual” e diz que isso ajudará a aumentar a competitividade das empresas nacionais. “Está muito claro que a economia fechada, mesmo com todos os subsídios e desonerações, não está dando certo para a indústria”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo. No passado, o ministro da Fazenda de Dilma, Guido Mantega, se declarou contra uma nova rodada de abertura da economia. “Se abrirem a economia não sobra um tijolinho da nossa indústria”, afirmou ao jornal Valor Econômico. Mantega não ficará no cargo se Dilma vencer, mas não há indícios de uma mudança no posicionamento da atual gestão sobre o tema.

INVESTIMENTOS SOCIAIS

Tanto Dilma quanto Aécio prometem aumentar os investimentos em saúde e educação e expandir programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. No caso do Bolsa Família, ainda há uma disputa por sua paternidade - Aécio diz que ele surgiu a partir do Bolsa Escola, da gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Já Dilma ressalta que o programa só atingiu uma dimensão expressiva nos governos do PT, quando foi expandido para 14 milhões de famílias.

O tucano chega a prometer uma lei para fazer do Bolsa Família uma política de Estado e evitar seu uso eleitoral. Já Dilma promete expandir o acesso de seus beneficiários ao Programa Nacional de Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e ao programa de microcrédito.

Para Biancarelli, na prática, o PT é o partido que mais tem se empenhado em avançar no combate à pobreza – e, por isso, de fato, o partido tenderia a dar mais ênfase para áreas sociais. Já Samuel Pessoa, economista da FGV próximo ao PSDB, diz que essa é uma agenda da sociedade brasileira, que independe dos partidos. “Desde a constituição de 1988, há um entendimento de que se deve implementar no Brasil um Estado de bem-estar social do padrão da Europa Continental. Por isso os gastos sociais têm crescido continuamente”, diz.

INFLAÇÃO

Armínio Fraga defende que é possível em alguns anos se chegar a uma meta inflacionária de 3%, com margem de um ponto percentual para cima e para baixo. A atual meta é de 4,5%, com dois pontos de tolerância. A campanha de Aécio, porém, não diz quais serão os instrumentos para conter a alta de preços – e o PT vem acusando o ex-presidente do BC de querer subir os juros e gerar desemprego. Dilma não admite qualquer problema com a inflação, apesar de ela estar no topo da meta do BC, e atribui as pressões inflacionárias à alta de alguns alimentos e da energia em função da seca. Não há planos para mudar as metas de inflação, mas Dilma já anunciou que Mantega não estará no próximo governo. Em tese, ela poderia indicar alguém que apoiasse políticas mais rígidas.

BANCOS PÚBLICOS

A visão do PT é de que os bancos públicos tiveram um papel crucial nas políticas expansionistas para evitar um impacto maior da crise internacional no Brasil. Ao promover uma expansão do crédito, eles teriam ajudado a manter a demanda interna e a proteger o emprego. Dilma também defende que os governos petistas profissionalizaram os bancos públicos enquanto Aécio acusa a atual gestão de ter “aparelhado” essas instituições. Fraga declarou não entender a lógica dos empréstimos com crédito subsidiado feitos pelo BNDES a grandes empresas que poderiam se financiar no mercado. Em entrevista recente ao jornal Valor Econômico o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, defendeu essas operações.

AJUSTE

Aécio promete uma volta ao cumprimento rígido do chamado “tripé”, a política que combina metas fiscais, metas de inflação e câmbio flutuante. Mas segundo Fraga, o ajuste será “gradual”. No governo Dilma, anunciou-se a transição para a “nova matriz econômica”, que combinaria juros baixos, taxa de câmbio “competitiva” e uma “consolidação fiscal amigável ao investimento e ao crescimento”, nas palavras do secretário da Fazenda, Márcio Holland.

O BC passou a fazer intervenções no câmbio, a inflação ficou próxima do teto da meta e analistas começaram a denunciar que o governo estaria lançando mão de manobras contábeis para alcançar as metas fiscais. O governo, porém, tem negado que o “tripé” tenha sido “substituído”. Diz que a inflação está dentro do limite e que a meta de superávit primário, de 1,9% do PIB, ainda pode ser alcançada. Também não admite as manobras fiscais e acusa a oposição de querer fazer um ajuste recessivo, que geraria desemprego. Há indicações, porém, que a política fiscal em um eventual segundo governo Dilma poderia ser mais retraída.

youtube

Belo Monte: Indignados, indígenas rasgam mandado de reintegração de posse

"Indígenas de várias etnias que ocupam o canteiro de obras da usina de Belo Monte, indignados com a falta de diálogo por parte do Governo Federal, rasgam o mandado de intimação para reintegração de posse do canteiro de obras, na frente do oficial de justiça e dos policiais militares da Força Nacional."

http://youtu.be/O5Wxjv5BHZw

SIGA VIAGEM…

 

“Belo Monte - Anúncio de uma Guerra”

(Documentário - Brasil - 2012 - 1h44min - diretor: André D’Elia)


“O Brasil do futuro: como diz Beto Ricardo, metade uma grande São Bernardo, a outra metade uma grande Barretos. E um punhado de Méditerranées à beira-mar plantados, outro tanto de hotéis de eco-turismo em locais escolhidos dentro do Parque Nacional “Assim Era a Amazônia”, criado pela Presidente Dilma Roussef (em segundo mandato) no mais novo ente da federação, o Iowa Equatorial, antigo estado do Amazonas. Bem, esse é só um pesadelo que me acorda de vez em quando…” (VIVEIROS DE CASTRO)

Dilma só aparece uma vez no filme, mas sua participação ligeira se encerra com uma fala que carrega um famoso maquiavelismo: “há males que vem para o bem”, diz em reunião com sua trupe nossa presidenta. É o retorno do celebérrimo “o fim justifica os meios”. Que soem os alarmes da suspeita (mais uma vez!) diante de idéias assim! Afinal de contas, que males são estes que se supõe como necessários? E vem eles para o bem de quem? Ademais, não há uma certa arrogância em se bancar o profeta visionário que consegue prever com certeza os caminhos que levam aos amanhãs cantantes?

A mesma lorota já ouvimos antes: “não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos”. O desenvolvimento do Brasil exigiria, para que a omelete saísse ao gosto do Palácio, alguns “efeitos colaterais”: milhares de índios expulsos das terras onde habitaram seus ancestrais, Altamira lançada ao Caos da superpopulação e das epidemias tropicais, e tudo em prol dos sacrossantos interesses de crescimento desse país que, após tanto tempo de Complexo de Vira-Lata, parece subitamente de ego inflado, pavoneando-se de estar entre a meia-dúzia de economias mais pujantes do globo. E se tem algo que aprendi lendo as tragédias gregas de Ésquilo, é isso: a soberba causa desgraça certa.

Os que estão embevecidos com a utopia desenvolvimentista, ainda hoje, parecem pintar um cenário cor-de-rosa dos tempos que virão: um Brasil “financeiramente forte”, “competitivo no mercado internacional”, com bolsas de valores bombadas e demais blá-blá-blás economicistas. Enquanto isso, muitos de nós, brasileiros, não conseguimos enxergar senão com horror e pavor a perspectiva de que brotem McDonalds às margens do Rio Xingu e que logo as latinhas de Coca Cola estejam boiando nas águas junto aos cadáveres dos cardumes.

Quiçá em algumas décadas teremos realizado a proeza de que se abram dúzias de Shopping Centers na Amazônia, rodeados por imensos favelões e outros bolsões de pobreza, onde novos Caveirões da Polícia Militar possam reprimir os que tem pouco para que possam prosseguir na bonança os que têm demais. Amazônia, 2050: gigantescos outdoors de néon anunciam as mais novas maravilhas em promoção nos Wal-Marts que vieram tomar o lugar da antiga rainforest. E as outrora cristalinas águas dos rios agora estão imundas feito as do Tietê.

Essa megalomania do desenvolvimentismo, esta vontade cega de crescimento, merece ser questionada:desenvolver o Brasil em direção ao quê? Qual o nosso modelo e paradigma de civilização digna de ser imitada? Queremos de fato seguir na senda dos EUA, feito uns totózinhos servis, de mentalidade ainda colonizada, que só sabem seguir pelas vias abertas pelos outros? Vamos ficar pagando-pau pra quem cagou em cima do Protocolo de Kyoto e que não pára de se meter em guerras no Oriente Médio para defender o interesse da indústria petrolífera? Queremos de fato imitar um país cujos gastos com tanques, bombas, mísseis e demais armas de destruição em massa dá de lavada em qualquer outro país? Queremos de fato prosseguir botando lenha na fogueira do Industrialismo, quando as ruas de nossas metrópoles mal conseguem suportar novos afluxos de carros em nossas avenidas abarrotadas? Queremos o tal dodesenvolvimento ao preço da uma catástrofe ambiental, de um desflorestamento brutal dos alvéolos verdes amazôneos, tão cruciais para o planeta quanto são os pulmões que cada um de nós carrega no peito?

Se Belo Monte está sendo feita para o bem das grandes empresas e das grandes empreiteiras, se o governo Dilma só está tão obstinado em prosseguir com a obra por causa da grana alta correndo nos bastidores do poder, comprando eleições e mandando e desmandando com a força da bufunfa, então não tenho dúvida de que mais e mais multidões vão engrossar o coro: “Um, dois, três, quatro, cinco, mil / Ou pára Belo Monte ou paramos o Brasil!”


Assista na íntegra / faça o download:

http://vimeo.com/belomonte/review/44221280/6ef84267c4 

Saiba mais: http://www.facebook.com/BeloMonteOFilme

Desenvolvimentismo: as contradicoes de um modelo comprometido

“Chama a atenção a forma como cada vez mais nós dependemos da exportação de comodities agrícolas e minerais (…) Com plenas condições de produção de alimentos e de geração de energia, sofremos uma perversa contaminação da inflação que é transmitida de fora para dentro.

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Por: Paulo Passarinho

9 de abril 2013, Programa Faixa Livre

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Infelizmente o  Pacto Social criado por Lula e continuado por Dilma, compromete essas questões na medida em que reúne em torno do seu projeto não somente bancos, financeiras, seguradoras, multinacionais, mas também centrais sindicais e especialmente fundos de pensão dos trabalhadores. Esse tipo de unidade entre aqueles que sempre comandaram a economia e a política brasileira, ao mesmo tempo com apoio de seguimentos dos trabalhadores, fica muito difícil sermos otimistas com o quadro que se apresenta.

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Paulo Passarinho é economista e apresentador do programa de rádio Faixa Livre.

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“Dilma é a ‘Margaret Thatcher do Brasil!’ (…) Temos que agradecer ao presidente Lula e ao presidente Fernando Henrique Cardoso por terem criado a plataforma que tem viabilizado os investimentos privados.” [EikeBatista - Junho de 2008].