CÚ DE BÊBADO NÃO TEM DONO

- Vocês viram que o marido da Agnes tá caido ali atrás bêbado e sem a ceroula?
- Juuura? será que que comeram o rabo dele?
- Que isso Adalberto? isso é jeito de falar?
- Ué? Cú de bêbado não tem dono.
- Onde você ouviu isso?
- Cabei de inventar!!

* E assim nasceu essa frase. Achou que era de agora né?

Watch on pedroluna.tumblr.com

Em 18 de fevereiro, sábado de carnaval. Fiz uma cobertura da saída do Ceroula de Olinda, completando 50 anos. Com vocês, sua excelência: O Frevo!

A música é Capenga, de Eugênio Fabrício.

Watch on carnavaltachegando.tumblr.com

FALTAM 26 DIAS!

Criada por dissidentes da Troça Pijama, em 1962, a Troça Carnavalesca Ceroula de Olinda mantém até hoje uma tradição inusitada: não permitir a participação de mulheres em seu “cordão”. Desfilando apenas na Cidade Alta, o Ceroula saiu pela primeira vez pelas ruas de Olinda com 17 figurantes, cujos trajes eram: ceroula branca, camisa social branca, colete cinza, gravata borboleta, sapato social e meias pretas e chapéu coco preto.
Em 1987 chegou a vez das mulheres terem ver nos desfiles da troça, em comemoração aos seus 25 anos. De lá pra cá, as mulheres só participam de cinco em cinco anos.
O hino do Ceroula, de autoria de Milton Bezerra de Alencar, é um dos mais animados de todo o carnaval cujo “pam pam pam pam" do início é contagiante e é cantarolado por todos. 

26 DAYS REMAINING UNTIL CARNIVAL

Created in 1962, the carnival club Ceroula de Olinda continues today an unusual tradition: Do not allow the participation of women in their parade. Walking only in the Upper City, the first briefs came out on the streets of Olinda with 17 participants, whose costumes were: white tights, white dress shirt, gray vest, bow tie, black shoes and socks social bowler hat and black.
In 1987 came the turn of the women they see in the parade of fun, celebrating its 25 years. Since then, women only participate every five years. The anthem of the club is one of the most contagious and is hummed by everyone in the crowd.

Doutor Duarte

     Doutor Duarte acordava sempre de bom humor. Naquela manhã especialmente, despertou-se quando havia ainda algumas estrelas no céu. Ainda na cama, de ceroulas, pôs-se a rezar o terço. Os mistérios gloriosos. Sempre rezava antes de sair da cama pra não ter perigo do dia não prestar. Ainda no salve-rainha, deu um discreto ponta pé na sua mulher, que dormia ao seu lado, pra que ela despertasse e começasse a providenciar tudo para o começo do dia. E das providências, a primeira era que a sinhá se levantasse para ferver suas ceroulas para usar durante o dia. Doutor Duarte lia os melhores magazines que chegavam de Paris e estava a par de tudo o que os cientistas diziam sobre germes e seus perigos.

     O Doutor era um homem baixo, de cabelos brancos cuidadosamente penteados para trás, apesar de escassos, e barba cheia e também branca, que ele ostentava com orgulho. Se vestia com esmero e cuidava de cada fio de seu bigode como se sua vida dependesse disso, e só quando não havia mais dúvidas sobre sua aparência, ele saía do quarto, quando já se considerava pronto pra se apresentar ao mundo, mesmo que seu mundo fosse composto em grande parte por escravos analfabetos.

     Estando completo todo o rito necessário para se começar o dia, terço rezado, esposa chutada, ceroula fervida, Doutor Duarte saiu da cama, arrumou-se e foi para a sala de jantar, onde lhe esperava a mesa bem servida com seus pratos preferidos e três escravos negros cabisbaixos que lhe aguardavam. Doutor Duarte fazia questão de escolher o figurino de seus escravos e eram três os que ali se encontravam: Arnaldo, um negro de um metro e noventa vestido de freira, com hábito e tudo mais, Aparecida, outra negra, anã, que ele vestia como a rainha da frança, lhe enchendo de pó na face, e Benedito, um moleque de 15 anos que devia se vestir como Adão, ou seja, apenas como uma folha de parreira ocultando-lhe as vergonhas. Adão, quer dizer, Benedito, era um dos escravos preferidos do Doutor Duarte, e todo vez que lhe via tinha um acesso de riso e lhe metia a mão nas nádegas, o que só reforçava sua fama de pederasta.

     Doutor Duarte exigia que ninguém conversasse na cozinha e durante as refeições, para que não houvesse o perigo de cair saliva nos alimentos. Também preferia comer sozinho, porque dizia que como sua mulher era quem cuidava de suas roupas íntimas, não tinha higiene pra se sentar à mesa com ele. Também não considerava seus filhos as pessoas mais asseadas do mundo. Desta forma, comia sempre sozinho, com exceção dos três escravos. Às vezes no almoço também punha o jovem Benedito em seu colo para que ele soprasse a comida, o que era estranho para alguém que tinha tanta aversão à saliva alheia.

     Terminado o desjejum, o Doutor pedia a Arnaldo que lhe colocasse o paletó, branco, de linho, e lhe calçasse as botinas, de couro e bem engraxadas. Então assim, e só assim, Doutor Duarte poderia dar início aos seus trabalhos. De seu suntuoso casarão colonial, dirigia-se até à biblioteca, que possuía uma larga janela e lhe dava uma ótima visão sobre toda a fazenda, e trabalhava o dia todo, só fazendo a pausa para o almoço. Da janela, ficava o dia todo proferindo ordens a todos os 57 escravos da fazenda. No começo do dia, um por um deveria passar por perto da janela e pedir-lhe a bênção, o que ele dava com prazer. Ao longo do dia, entre uma ordem e outra, de vez em quando também chamava um negro para perto da janela, de onde ele alcançasse, para bater-lhe com um relho de couro. Dizia que negros deviam apanhar antes de merecer, porque daí pensariam duas vezes antes de aprontar das suas.

     Quando lhe perguntavam o porquê do doutor, uma vez que Doutor Duarte só cursou até o quarto ano do colégio dos padres jesuítas, ele respondia que doutor era um homem de respeito, que fazia de tudo. De fato, Doutor Duarte era um fazendeiro bem-sucedido, um cristão respeitado, um marido amoroso e um pai presente.

     Nada mais justo que seu título de doutor.

     (José Renato Resende)

Text
Photo
Quote
Link
Chat
Audio
Video