Irá, então, permanecer em meus olhos somente o que desnuda.
Irá encarar meus olhos apenas aquele que possuir
bravura e despudor.
Aquele que se aproximar da quimera
a ponto de ver o que lhe cobrem as escamas -
pele peito paz.
Haverá malícia entre os cílios
a malícia de quem se curva diante do buraco da fechadura
a malícia de quem busca o segredo do que é menor
a malícia do pó, dos pelos, do arrepio.
E da lascívia, brotará amor.
Da semente, do sensível.
Será preciso mirar o sol e ver não somente luz
mas erupções
tempestades
o isótopo fundamental
o gérmen
e as auroras boreais.
—  Claudia

Parece-me tão deslumbrante a capacidade das vivências de construir corpos carregados de histórias; corpos que falam, corpos que seduzem na praça central Ari Peixoto, ao simples andar. Essa língua-corpo que fala é um dos pontos mais subversivos e inquietantes na minh’alma, além de imprescindível. 

O mote que busco elocubrar consiste em resquícios de mim mesma, como se é de esperar. Há uma certa impossibilidade de descrever histórias do Outro quando minha morada sou eu. De qualquer forma ou de todas as formas, a paisagem do outro me transcende. Apesar de viver tão somente nos meus desejos, ao desejar o Outro, me encontro também em seus desejos.

O Outro enquanto Cultura me faz desejar todos os possíveis mares, céus, nuvens, neves, rios, auroras boreais, construções de séculos passados, tendências, objetos materiais de época, histórias da arte, enfim. Eu desejo Cultura através do Outro para eu o ser também. 

Essa é a minha forma sutil de apossar-me do que o outro é, sem a necessidade de comê-lo.

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