Capítulo 1 BATB

Música para dar um clima

A frente da Pajero estava acabada.

Meu avô dirigia, apesar de estar de noite e ele ter 68 anos. Estávamos indo de Ottawa á Toronto, passar festas de Ano-Novo, um caminho onde as estradas são envoltas de florestas e árvores na beirinha, cobertas de neve. Passava das 22 horas. Combinação perigosa para uma viagem. E foi uma dessas enormes e pesadas árvores que caiu sobre o nosso carro. Se antes já estava quase temperatura Zero ºC, piorou assim que a neve nos soterrou. Minha mãe e meu avô estavam inconscientes e feridos. Eu, no banco de trás, via o sangue de minha mãe escorrer por sua cabeça e braços. O banco do motorista, onde meu avô estava, amassava minhas pernas á ponto de não senti-las. Não conseguia abrir a porta e o vidro era automático. Ilesa e vendo tudo, sem ter como escapar. Dali á pouco a árvore despencaria de verdade e eu morreria.

Mas uma pessoa me salvou.

Eu, tonta e com a visão embaçada por causa do choro, não o vejo bem. É sim um homem. Ele tem a respiração forte e pesada e é forte. Ficamos nos olhando por um tempo e eu tremia de medo dele. Era uma aparência grande e assustadora. Ele enfia a mão pela brecha do vidro e o quebra, sem esforço nenhum, Pedaços de vidro caem no banco, mas não me alcançam. É impossível uma pessoa fazer isso.

Não pode ser uma pessoa.

Agora vejo seu rosto definidamente: Lindos olhos castanhos e uma cicatriz embaixo do olho. Assim que olho em seus olhos, ele bufa e eu me encolho. Sua estatura e força ficam menores e ele coloca os braços por dentro da janela, quase me alcançando.

-Vamos, saia daí…

Ele sussurra como recuperando o fôlego. Ergue-me pelo braço e saio do carro. Suas mãos, tão delicadas e ao mesmo tempo firmes, me erguem como se eu fosse um bebê. Fico de pé no chão gelado. Minhas pernas estão dormentes e começo a despencar, mas ele me segura pela cintura e me põe nos braços, deitada. Nossos rostos estão próximos e percebo que ele é lindo demais. Limpa minhas lágrimas e evita olhar para mim. Leva-me para o acostamento e me deixa entre dois arbustos. Continuo a olhar para seus olhos, hipnotizada por sua beleza.

Ruídos de galhos surgem, quebrando o romantismo. Ele ruge e olha para os lados, como um animal. Transforma-se por completo: ganha estatura e seu rosto têm uma fisionomia larga e monstruosa.

Ele com certeza não é uma pessoa.

Olha-me de novo e bufa, tremo de medo, mas ele corre para dentro da floresta, fazendo o chão tremer. Olho para o carro na minha frente e me pergunto: Porque me salvou? Porque ele salvou só a mim?

Viaturas chegaram e foram chamadas as foças de resgate para tirar a árvore de cima do carro. Sentada no banco de trás da viatura, policiais me faziam mais e mais perguntas: Como você saiu do carro? Quem quebrou o vidro? Como saiu ilesa? Bom, eu também estava com essas perguntas na cabeça. Foi tudo imaginação? Não.

Ele era real. Era uma pessoa.

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