Eu olhava fixamente para o teto, respirando fundo pra não perder o controle. Piscava várias vezes tentando afugentar as lágrimas. Então virei a cabeça e notei um pedaço de papel na cômoda. Procurei uma caneta e me sentei, passei uns bons dez minutos daquele jeito, sem me mover, nem escrever. Nem pensar em nada.

Foi então que eu encarei o papel - sem expressão alguma - e comecei a escrever.

Londres, 15 de março de 2011.

Tá, eu preciso falar. Preciso jogar essas palavras ao invés de sufocá-las aqui dentro o tempo todo. Eu queria tanto, tanto, tanto te bater. Queria tanto jogar na tua cara o quão estúpido você é. Eu te amo. Você me ama. O que falta pra gente se acertar? Disseram que só amar era o suficiente. Mas não é. Teus defeitos, meus problemas. Nossas intermináveis brigas e desentendimentos. Eu saio mais uma vez machucada, e você, desacreditando cada vez mais que a gente foi feito um para o outro. É só que… tem algo errado na gente. Algum cupido bêbado achou que nós daríamos certo. Como duas pessoas podem se amar e se machucar tanto ao mesmo tempo? O pior é que, mesmo que doa, a gente não consegue se desligar um do outro. Eu só queria achar uma solução pra tudo isso.

Com amor, mesmo que seja errado, mas amor do mesmo jeito,

Bianca.” — (aversosivalentim)

― Porque ser assim, Catarina? ― Ela ergueu a sobrancelha.

Porque? Eu só sabia de uma resposta pra isso.

― Porque dói sentir.

― Mas é bom também. O coração palpitante, as borboletas no estômago, o sorriso bobo…

― A insegurança que a pessoa te faz sentir, o ciúmes, as lágrimas, as brigas, a espera, a facilidade que a pessoa tem de te magoar, o medo de ser deixada, a vulnerabilidade, as cobranças, mais lágrimas, horas perdidas de sono… Simplesmente não vale a pena, Elena. 

― Você nunca vai saber se vai ser feliz, se não arriscar ser triste também. Vale a pena correr o risco.

― (Mas eu já arrisquei. Já lutei. Já acreditei, como você, menina boba. Mas… cansa. Sabe como eu me sentia? Um João bobo. E o amor? Ele era aquela criança chata que batia no João Bobo o dia inteiro! E toda vez que eu levantava de novo, eu era surrada novamente. Me machucavam novamente. Eu não sou mais um João Bobo, e não quero ser! Cada parte do meu corpo cansou disso, cada parte do meu corpo não aguenta mais amar alguém) É… quem sabe(aversos ivalentim)

Procurei falar em um tom de brincadeira. Eu não sou legal falando de sentimentos. Me sinto… vulnerável pra caramba. Enfim, tentei disfarçar. Pensei em mudar de assunto, mas nada vinha na minha cabeça, e o silêncio já estava incomodando. Eu não queria encará-lo, olhava para baixo, mas podia sentir seus olhos em mim.

― Mas eu quero ser rico, Bella. ― Henrique me encarava com um olhar curioso. Tentando decifrar meus pensamentos estranhos, pra variar. Não sei que tipo de problema ele tem pra perder tempo com minhas besteiras. Mas vai saber né.

― Eu também quero… depois de cinco anos de casamento.

 Ele ficou sério. Algo na expressão dele me fez rir. Ele parecia pronto para começar uma discussão sobre os conflitos no oriente médio.

― Que tipo de ser estranho tu é, amor? Se eu pudesse, seria rico hoje. Todo mundo, se pudesse, seria rico hoje também. Quando eu te mando bater um raio-x do crânio, é porque eu me preocupo contigo.

Ignorei o comentário besta sobre meu estado mental.

― Tu não entende, idiota.

― Então explica.

Corei ao lembrar o quanto eu era boba por pensar assim. E o pior, estava prestes a falar pra ele.

― É que… ah. Eu quero…  ― Evitei o contato visual com ele.  ―  Quero comemorar a compra do sofá, sabe. Quero morar num apartamento de dois cômodos no primeiro ano de casamento. Quero pintar a parede da nossa casa. Quero você consertando o cano porque acha uma bobagem ter que contratar um encanador. Quero que dê errado e no fim, a gente tenha que gastar o dobro com o encanador. Quero cozinhar gororobas com você. Quero dividir as tarefas da casa. Quero que você diga que tá doente quando for teu dia de lavar a louça. Quero passar as primeiras férias em algum hotel barato no interiorzinho cheio de insetos. Não quero uma casa grande, uma empregada, restaurantes caros e essas coisas aí. Não quero compartilhar uma vida, quero construi-la… com você, quem sabe, sei lá, se tu não ligar em ter uma esposa de saúde mental duvidosa… Agora pode rir, bobão.

Procurei falar em um tom de brincadeira. Eu não sou legal falando de sentimentos. Me sinto… vulnerável pra caramba. Enfim, tentei disfarçar. Pensei em mudar de assunto, mas nada vinha na minha cabeça, e o silêncio já estava incomodando. Eu não queria encará-lo, olhava para baixo, mas podia sentir seus olhos em mim.

― Bom…  ―  Ele finalmente quebrou o silêncio. ―  Acho que a gente deveria economizar pro nosso casamento o quanto antes, então. E sobre lavar louça, eu prefiro enxugar os pratos. E só de pensar que vou ter que arrumar a casa, já sinto uma dor na coluna. A gente pode pensar sobre contratar uma diarista alguns dias, né? Não sou a Dona Maria, amor. E eu sei fazer ovo frito. Meu ovo frito é uma delícia. A gente nunca vai morrer de fome.

― Ovo frito no almoço e no jantar então?

― Na merenda também.

― Eu acho que posso lidar com isso.

Ele me puxou pra seu colo. Me ajeitei confortavelmente e encostei minha cabeça em seu ombro. Eu me encaixava direitinho no colo dele, e era boba o suficiente pra pensar que isso era um sinal de que, sei lá, a gente era feito um para o outro. Então, ele sussurrou que me amava. E eu pude ver novamente, nós dois num apartamento de dois cômodos pintando a parede da sala. — (aversos ivalentim)

Não desista.

Eles nunca vão entender, não se preocupe. A culpa não é sua!
Acho que se você acredita em alguma coisa e acredita que de alguma maneira pode fazer a diferença na vida de alguém, você não pode desistir.
Sinta se segura e apenas siga em frente. Se os seus sonhos são importantes para você, não abra mão deles.
Eu sei que as pessoas podem duvidar, querer tomar as rédias da sua vida e te colocarem pra baixo com os seus planos aversos aos seus, eis uma dica: eles não são você!
Você agüentou muita coisa para se deixar abalar com as palavras rudes do seu pai, pare de tentar agradá-lo e querer sua aprovação. Ele não vê o que você sabe.
Respire fundo, deixe ele se queimar sozinho com o seu jeito e você vai erguer a cabeça, respirar fundo mais uma vez e ouvir o seu coração.
Foda se o que todo mundo pensa, você chegou em uma parte da sua vida em que seguir em frente sozinha é tudo que você tem e é.
Sinta orgulho de você mesma, pela sua profissão e por quem você é.
Você está sozinha e muito bem assim.
Muito bem Fernanda, olhe pra frente querida.

Peguei na gaveta papel e caneta. Sentei perto da janela, observando a movimentação lá fora. Sorri ao ver um passárinho no galho da árvore. Sorri ao ver um guarda conversando com o dono da padaria. Sorri ao ver um casal brigando no outro lado da rua. Sorri pro mundo inteiro. E eu só sabia um motivo pra isso acontecer. 

Encarei o papel - sorrindo - e comecei a escrever. 

Londres, 15 de março de 2011.

Escrever carta é tão piegas, né amor? Mas… eu nem vou te mandar essa carta mesmo. Nem as outras que eu já escrevi. Você não acredita o quão romântica eu posso ser. Eu nem era assim não, é só que… eu te amo. Te amo tanto que tenho que botar isso pra fora, gritar pro mundo ouvir. Agora eu escrevo cartas, vê se pode! Como uma coisa dessas pôde acontecer comigo? Como alguém pode mudar a minha vida dessa forma? Tudo virou bonito demais depois que você apareceu na minha vida. E você tem todo esse efeito em mim, mesmo não estando exatamente ao meu lado. Mas eu te sinto aqui. Eu quase posso te tocar ao fechar meus olhos. E eu não me canso de te amar. Não me canso de te escrever e de sonhar que um dia, não haverá mais distância, problemas e poréns pra gente. Só haverá você e eu, e nossa felicidade tão nossa nesse mundinho tão simples.

Com todo, todo, todo o amor do mundo,

Annie.” — (aversosivalentim)

aversos

os teus

                       versos

    ao
                        avesso

                 me
tragam o sentido…

                               s   i   g                 o…

(09/10/2014)

Cara, que merda, minha vida esta andando de trás pra frente, esta ao averso, esta tudo diferente, os problemas não acabam mais, isso não termina? Que sensação de inutilidade é essa? Me dê um valor, por favor.

não sou um misantropo mal cheiroso, 
eu juro,
mas a solidão me arranca a blusa e o cinto,
diz que me quer pra ela e senta em mim
e sorri desejosa e me atiça
então eu fico. esqueço o mundo, as dores e os choros,
os risos e o trabalho
fico e bebo com ela, rio e fico a vontade
minha aversão é sobre o mundo fácil,
as mulheres fáceis [tão idiotas], aos homens idiotas [tão fáceis],
minha aversão é sobre a imbecilidade do ser humano
de se constar sozinho, tiro por mim.
sou averso a mim, avesso do que quis um dia,
atravesso a casa e me jogo na cama,
a solidão dança.

s.

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