futuro do presente

Sabendo que a mulher já havia perdido sete meninos antes de cada um vingar, os vizinhos em Jimenez decidiram tomar providência sobre o filho mais novo de Zulmira Arquejada. Quando nasceu, pediram a Sabina, sábia anciã, que lhe fizesse a bendição. A minúscula mulher de carapinha branca e desgrenhada cujos olhos pareciam guardar a noite e em cujo ouvido mergulhavam palavras acesas, foi ter com a criança.Tocou-lhe a fronte, aprendeu seu rosto e anunciou como quem lê linhas de horizonte e rio:
A morte não te encontrará no caroço de mágoa,
na raiva sem ralo,
na coisa ruim que se multiplica,
no acidente que avermelha água e asfalto,
na bactéria,
no cano de fogo,
na escassez do prato.

Viverás até a gastura,
até o peito que bate enquanto afaga consumir todo o músculo.
E proclamou um ‘assim seja’. Todos disseram amém sabendo que qualquer um que se aproximasse do menino e mesmo o mais distante seria amado até o osso. Sem engano, Zulmira sorriu com a certeza da graça.
Amar sem condições é verbo que não se aprende em poucos anos.

Ehre

17° Capitulo

(Pov Clara)

Girei a chave do apartamento e soltei um suspiro de alívio por finalmente estar chegando ao meu apartamento. Deixei um ligeiro sorriso escapar de meus lábios com a sensação que sentia, era como se depois de tão pouco tempo eu já começasse a considerar aquele humilde lugar o meu lar. Assim que entrei estranhei o fato da luz do corredor estar acesa, afinal de contas ainda eram apenas quinze para as seis da noite. Era sempre eu quem chegava primeiro, preparava o jantar e recebia Vanessa.

–Van? – a chamei incerta, com medo de entrar ainda mais dentro do apartamento e me deparar com um estranho – Está ai?

–Estou no quarto! – ela gritou do cômodo.

Deixei escapar minha respiração aliviada, retirei minha bolsa e coloquei no cabide que havia comprado. Pouco tempo havia se passado, mas certamente que eu e Van tínhamos nos adaptado muito bem uma a outra! Tudo bem, houve dias em que a brasileira estava estranha, me evitando ou se trancando no quarto, porém logo ela voltava a sorrir para mim. Não achava estranho gostar tanto do sorriso de alguém, ainda mais quando era direcionado apenas para mim. Afinal isso era apenas sinal de que ela estava se divertindo ou gostando de algo não é? Que mal há em gostar de algo tão singelo? Sem conter minha curiosidade, segui em direção ao quarto dela e mesmo com a porta entreaberta dei duas suaves batidas com o nó de meus dedos. Isso fez a porta abrir mais alguns centímetros, mas foi o suficiente para ter um rápido vislumbre de Van segurando uma camisa de costas para mim. Ela tinha uma cintura e costas tão lindas! Pisquei rapidamente e a vi sumir de minha visão para logo depois falar:

–Pode entrar.

Engoli em seco e terminei de abrir a porta, felizmente ela estava completamente vestida… E parecia estar pronta para sair. Vanessa trajava uma bonita calça jeans escura, com rasgos suaves no joelho. Por cima uma blusa preta com riscos aleatórios dourados, suas mangas eram caídas deixando completamente exposto seus ombros. Ela estava terminando de por brincos dourados e quando me viu abriu aquele sorriso que eu havia aprendido facilmente a gostar.

–Vá tomar um banho rápido, vamos sair – ela anunciou em um tom calmo, mas deixando claro que não estava me dando opções.

–Perdão? Havíamos combinado alguma coisa? – questionei confusa, franzindo o meu cenho.

–Não, acabei decidindo de ultima hora. Pensei que seria bom sair do cotidiano um pouco e levar você para se divertir um pouco – Van explicou terminando de colocar o acessório, aproximou e segurou meus ombros – Então vamos ver um filme e jantar fora, para não perdemos o ônibus é bom que você seja rápida no banho.

–Ver filme? Van, eu não… – ela virou meu corpo e me empurrou com delicadeza para fora de seu quarto.

–Você vai gostar, confia em mim – escutei o seu sussurro perto de meu ouvido, aquela voz me provocou um ligeiro arrepio e fez meu coração errar uma batida – Agora vá, eu vou terminar de me arrumar.

Vanessa afastou-se e por alguns segundos eu fiquei no lugar tentando assimilar a tudo. Ela estava pretendendo me levar para sair? Isso não seria um encontro, seria? Não, eramos apenas amigas, companheiras e ela estava sendo gentil querendo me distrair. Um fato que eu realmente precisava, pois as horas sequenciais e a paciência exigida de um professor estava começando a causar um leve estresse em minha personalidade perfeccionista.

–Que roupa eu devo usar? – perguntei voltando novamente meu corpo em direção ao quarto, ela estava sentada na cama calçando botas de cano leve.

–Confortáveis, um casaquinho caso não esteja acostumada ao frio por causa do cinema. Você vai ficar linda de qualquer forma, porque você é naturalmente linda. Não tem com o que se preocupar, chérie.

Dessa vez ela não falou aquilo de uma forma tão casual quanto as outras. Os olhos castanhos me fitavam de uma maneira um pouco intensa e suas mãos haviam parado o trabalho com o calçado. Senti minhas bochechas esquentarem, rezei para não ter
ficado muito vermelha! Antes que ficasse mais encabulada, girei nos calcanhares indo em direção ao meu quarto em passos largos. Assim como instruiu a brasileira, tomei um banho relativamente rápido, mas tive mais dificuldades em escolher a minha roupa. Optei por um vestido simples de cor branca com um bolero tricotado de cor lilás de mangas longas e que ia até a minha cintura apenas. Escolhi uma sandália de salto para ficar a altura de Vanessa já que ela era um pouco mais alta. A maquiagem foi simples, terminei de passar o perfume e sai do quarto deparando com a porta do de Van fechada. Escutei o som da televisão ligada e segui até a sala.

–Estamos atrasadas? – perguntei com certo temor.

–Ainda há tempo e… Viu, eu disse que você iria ficar linda! – Vanessa exclamou me olhando com evidente admiração, como consequência meu rosto corou – Então, vamos?

–Espera, tenho de pegar uma bolsa para…

–Eu vou pagar – Vanessa me cortou, vindo em minha direção para pegar em meu pulso e começar a me puxar para aporta com delicadeza – Convidei de ultima hora, então eu pago. Mas não se preocupe, da próxima você escolhe um lugar para a gente ir e paga.

O sorriso lindo que ela deixou escapar me distraiu o suficiente para que me deixasse ser levada sem perceber. Ela estava tão animada que era impossível não me contagiar, restava-me apenas deixar-me levar. Eu nunca havia feito isso antes, minha vida era planejada e controlada, mas Van estava ali, me puxando e sorrindo… Confiava nela, confiava de uma forma que eu não conseguia entender.

–O que vamos assistir afinal de contas? – perguntei assim que entramos no elevador.

–As Bem Armadas – Van encostou o ombro na parede metálica e lançou-me um sorriso de lado – É de comédia com Sandra Bullock, eu adoro aquela mulher desde Miss Simpatia, casaria fácil com ela
.
–Você pensa em casamento? – perguntei realmente surpresa.

–Modo de dizer – Vanessa riu e deu de ombros – Se fosse alguém como Sandra Bullock e Angelina Jolie eu pensaria duas vezes no caso delas de terem a sorte de casarem comigo.

O jeito convencido dela falar aquela frase tão sonhadora apenas me fez rir e balançar a cabeça de um lado para o outro. Logo as portas do elevador se abriram novamente e eu a segui sentindo uma genuína agitação crescendo. Eu nunca tinha ido ao cinema. Havia confessado isso a pouco tempo atrás a Henrique, não conseguia cogitar como Vanessa descobriu isso, mas ali estava minha chance. Ser filha da nata sociedade tinha seus problemas, eu não podia ser normal, apenas excepcional. Perder tempo com filmes sem ser clássicos ou de algum famoso que você conheça era inconcebível para meu pai. Eu estava tão animada que por um momento desejei que Cassie estivesse comigo, compartilhando algo tão simples e divertido.
Chegamos ao ponto de ônibus quase ao mesmo tempo em que o veículo. Àquela hora da noite não havia muito movimento e foi fácil achar um lugar confortável. Mas assim que sentei deixei um suspiro baixo escapar, mas que não passou despercebido por Vanessa. Ela pousou uma mão em meu joelho e o apertou suavemente para chamar minha atenção, quando a fitei seus olhos castanhos me encaravam intrigados.

–O que houve? – Van indagou.

–Eu queria… – comecei a falar e mordi meu lábio inferior sem saber como falar aquilo – Eu queria que minha irmã estivesse aqui, indo ao cinema comigo. Cassie provavelmente teceria mil e uma críticas em fundamentos de diversos tipos, porém iria se divertir porque apesar de tudo, ela é ainda mais simples e prática do que eu.

–Você ama mesmo sua irmã – Van comentou com um meio sorriso e fez uma careta – Queria eu dizer o mesmo de meu irmão, Kevin sempre foi o que meus pais idealizaram, eu estava mais para o erro.

–Não diga isso! – protestei imediatamente, olhando um pouco brava para ela por dizer tal coisa de si mesma – Você é provavelmente a pessoa mais gentil e divertida que eu já conheci.

–Pensa isso de mim? – eu poderia jurar que os olhos castanhos adquiriram um brilho diferente – Mas só isso?

–Também é bagunceira e irritante quando quer, preguiçosa também já que enquanto puder pedir para que eu faça as coisas estará tudo bem para você – comecei a dizer sincera, mas com um leve tom de brincadeira.

–Eita, já entendi! – Van riu um pouco.

Porém ela franziu o cenho e aproximou o rosto subitamente de meu pescoço e tocou seu nariz em minha pele. Sabia que havia corado fortemente e não pude evitar ou entender o pequeno arrepio que passeou por meu corpo. Queria me afastar, mas havia paralisado no lugar com aquela atitude.

–Você está usando um perfume diferente – Vanessa falou ainda perto de meu pescoço, lentamente afastou e me olhou de perto – Gostei dele, é suave e delicado como você.

–Vanessa! – exclamei completamente sem jeito.

Ela sempre conseguia me deixar naquela situação. Surpresa, tímida e com um contentamento estranho. Sabia que seus elogios espontâneos eram verdadeiros e se ela falava que gostava eu passava a apreciar ainda mais. Não conseguia entender e por muitas vezes nem ao menos percebia que isso acontecia…

(Continua…)

Natureza humana

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar

- Vinicius de Moraes

Quero escapar. Quero cuspir o nó e não mais sentir a ânsia estranha. A pontada aguda na cabeça e os provérbios que me desculpem, mas a conciência não me pesa, ela agride. Quero desistir como as células mortas, como o atestado terminal e a contaminação em massa. Uma amnésia para cada esperança que cresceu no meu peito, útero, figado e estômago. Quero evaporar como a fumaça velha e a chaminé acesa, quero demorar em um lugar onde você não esteja. Onde teu sopro de cansado chegue como um assobio gasto o bastante para alarmar. Mas antes disso, antes do corte fino e da mão acenando eu quero confessar.


Quero adentrar. Quero engolir do mesmo cuspe e fazer do amor um nó conjunto. A pontada na consciência me lembrando que ainda existe saudade às três horas da manhã. Quero acreditar como uma célula nova, como uma cura do cancêr e a descoberta de uma vacina contendo paz. Uma lágrima de felicidade para cada esperança que cresceu no peito, útero, figado e estômago. Quero inalar o mesmo ar que saiu da sua boca. E habitar o mesmo abrigo que você chama de casa. Onde a sua voz cansada ganhe força feito melodia. Antes do beijo na ferida e da mão apertando forte afim de parar. Eu quero nos contrariar. 

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