CARMA

Ah quem diga que “O tempo é o melhor remédio”, bem, no meu caso ele não funcionou corretamente, talvez eu tenha tomado a dose errada, quem sabe eu exagerei na mesma? Aqui estou escrevendo novamente, adivinha? Escrevendo sobre você, ou quem sabe um possível “Nós”, sabe, às vezes eu me pergunto como eu fui permitir que você voltasse para minha vida, eu podia jurar que nesses 5 anos eu havia te esquecido, ah quem diga que gostar de você seja meu “carma”, apenas esqueceram de te convencer disso.
—  Um Suposto Alguém
Não conseguimos nos separar. Fracassamos ao nos separar. Somos incompetentes para a despedida. Tem gente que não dá certo junto, a gente não dá certo separado. A vida fica muito pior quando isolados. Em nossa combinação, tempo é distância, distância é saudade, saudade é amor urgente. Eu, que adoro miolo de pão, tiro o excesso para lhe imitar. Não compreendo se é imitação ou influência, percebo que, em sua ausência, você continua ao meu lado, eu é que desapareço. Vivo reproduzindo suas atitudes e gestos. Sou um mímico de seu rosto. Sou um intérprete de sua risada. Intriga-me este mistério que não nos permite o fim da relação. Qual a fatalidade? Será maldição? Carma? Dívidas de vidas passadas? Macumba? Reza? Por que não nos desamamos? De onde vem essa obsessão, essa vontade louca de estar sempre colado? Nem a diferença de idade nos aparta, nem as personalidades diferentes nos distanciam, coisa alguma, problema algum. É como se descobrisse que somos vampiros do amor: não há morte em nossa entrega. Já tentamos de tudo para nos separar – e não funciona. Já abusamos dos desaforos, das ofensas, das discussões, do ciúme, das brigas, dos barracos. Já falamos mal um do outro, já rifamos o passado, já criamos atritos, inventamos o inferno, metemos a família no meio, chamamos os amigos para complicar o final. E só fortalecemos ainda mais os laços. Cá estamos, mais apaixonados do que no primeiro dia. E ninguém entende nada, muito menos nós. Geramos crises em nossos terapeutas. Nosso amor não morre! Nosso amor não acaba! Eu me assusto com a promessa de longevidade, talvez tenhamos que envelhecer juntos, talvez seja necessário aceitar os fatos, talvez a mala não seja nossa porta, talvez o aceno seja para os outros, talvez nosso sangue sonhe filhos. De tanto criar hipóteses, investigar nossa convivência, explorar nossas confusões, eu acredito que não iremos nos separar por um simples motivo: fizemos algo de errado no início. Cometemos uma grande gafe. Uma falha imperdoável. Não sabemos quem disse o primeiro eu te amo. Não assinalamos o autor da declaração fundadora. Não anotamos o nome do corajoso. Lembramos de tudo, menos de quem disse o primeiro eu te amo. Recordamos de nossas viagens, dos aniversários de cada passo, dos detalhes microscópicos de nossos hábitos, menos quem falou primeiro. Quem declarou primeiro. Quem transformou o endereço em destino. Se não sabemos quem falou o primeiro eu te amo, resta-me crer que já nascemos nos amando. E eu, muito antes, privilégio de quem é mais velho.
—  Fabrício Carpinejar